Metropolitana em greve pela qualidade

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A greve é mais uma forma de protestar contra a direcção da AMEC André Nacho

Aulas e ensaios do dia 24 deverão ser cancelados. Trabalhadores acusam direcção de má gestão e de desinvestir nas escolas

O contencioso dura há meses e agora subiu de tom, com a comissão de trabalhadores da Associação Música, Educação e Cultura (AMEC), que inclui a Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML) e três escolas de música, a anunciar que vai fazer greve no próximo dia 24, anulando aulas e dois ensaios gerais para os concertos de 25 a 27 de Maio, em Santarém, Lisboa e Almada. Os concertos, com música de Ravel, Mozart e Arvo Pärt, decorrerão como previsto, garantiu ontem ao PÚBLICO o porta-voz da comissão, o professor de violino António Jorge Nogueira.

A greve, disse, foi mais uma forma de protestar contra a direcção da AMEC, liderada pelo maestro Cesário Costa, que é também o responsável artístico da OML. Em causa, alegam os trabalhadores, está a falta de definição de um projecto de qualidade, "reduções salariais coersivas e ilegais" e o "empobrecimento pedagógico" da Escola Metropolitana de Música, da Escola Profissional Metropolitana e da Academia Nacional Superior de Música (que integram a AMEC). Isto tudo desde finais de 2008, lê-se no documento que a comissão enviou à imprensa. "A direcção não teve acesso ao documento e, por isso, não vai fazer comentários", disse ontem António Ramos, assessor de imprensa da Metropolitana.

"As três escolas de música têm sido alvo de uma total asfixia pedagógica, que tem conduzido a um abandono sistemático de alunos", diz o documento, revelando que nos últimos três anos terão perdido 80 alunos num universo de cerca de 350. No texto, a comissão que representa 160 trabalhadores atribui a perda de patrocínios públicos e privados a "uma direcção inconsciente da sua incompetência". E acrescenta: "Estamos cansados de assistir à destruição da Metropolitana."

Em Janeiro, e perante um "buraco financeiro de 4,5 milhões de euros", segundo o porta-voz, a direcção decidiu propor aos funcionários da AMEC uma redução salarial de 20% para evitar despedimentos colectivos, o que a comissão considera "ilegal". Nesta quarta-feira, sete dos 45 trabalhadores que não aceitaram o corte foram despedidos. "Foram escolhidos cirurgicamente e isso é inaceitável, sobretudo quando toda esta situação se deve a má gestão", diz o porta-voz. "Mesmo os que não aceitaram assinar a redução viram o seu salário cortado desde Janeiro."

Perante as propostas de cortes salariais, os trabalhadores tinham apresentado, no fim de Fevereiro, um programa de viabilização da empresa que permitiria um encaixe de 1,3 milhões de euros e que apontava para uma redução dos custos da temporada da OML, orçada em 430 mil euros. Desse plano de viabilização faziam parte parcerias com embaixadas, a recuperação dos apoios dos 15 municípios da Área Metropolitana de Lisboa (hoje são apenas 3, garantem os representantes dos funcionários), a captação de mecenato e de um subsídio do Estado às escolas de música, no valor de 250 mil euros.