A honra perdida dos partidos portugueses

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A honra não se recuperará, muito menos a tempo de dar aos partidos a função que se lhes exige em tempos revoltos

Lincoln disse uma vez que o "carácter é como uma árvore e a reputação como a sua sombra". E depois acrescentou "a sombra é aquilo que nós pensamos do carácter de alguém e a árvore é a coisa mesmo, the real thing". Ora, sobre a "sombra" uma coisa se sabe hoje de ciência certa, no Portugal de 2012: todos os partidos perderam a sua "honra". E sobre a "árvore" também se suspeita que secou, tornou-se híbrida, transplantou-se, andou o Lyssenko a fazer falsas experiências com os seus troncos, ou, nesta matéria, Mendel não tem razão e há mesmo laranjeiras a crescer na Sibéria, como toda a gente sabe que porcos a voar fazem hoje parte do quotidiano. A evolução foi cruel, a "árvore" entranhou a "sombra" e ambas se envenenam mutuamente a cada dia que passa.

Comecemos pelo "centro", cada vez mais à direita, PSD e PS. A crise actual funcionou como um brutal empurrão que deslocou os dois principais partidos dos seus eixos ideológicos identitários, partindo-os em fragmentos e colocando esses pedaços num mesmo local comum. Hesito em dizer vala comum, mas pode ser que seja. É verdade que cada um deles já estava de tal modo fragilizado na sua identidade que o vendaval da crise os apanhou muito enfraquecidos, com os seus aparelhos moldados pela partidocracia, com um pessoal político muito medíocre, esquecidos de tudo, da sua génese, do seu passado, da sua história. Deixaram de conhecer os seus pais, porque eles hoje parecem pouco apresentáveis nos salões da Finança e do Poder. O PS e o PSD estão a perder a classe média que empobrece, e o "centro" político que, oscilando entre um e outro, lhes permitia alternar nas eleições.

Este mesmo vendaval apanhou igualmente os extremos do espectro político, mais à esquerda do que à direita, porque o CDS ainda tem conseguido manter alguma coisa da sua "honra perdida", em grande parte por uma muito criteriosa escolha de ministérios, que lhe permite manter a ideia de que está no governo a fazer o que prometia na oposição. Não está, mas parece. O ponto frágil dessa "honra perdida" é o seu europeísmo obediente, que substitui um eurocepticismo que, pelo menos, tinha identidade e sentido. O CDS satisfaz cada vez menos as suas clientelas tradicionais e nem sempre quem desaparece nos momentos difíceis consegue regressar e encontrar tudo na mesma.

O PCP continua, no essencial, a viver da vantagem de parecer que não muda, embora mude alguma coisa mas menos do que precisava. O retorno da "linguagem de pau" - um bom exemplo é a repetição de chavões como é o caso do "pacto de agressão" - empobrece o discurso e torna-o estereotipado. A representação de estratos sociais determinados é, ao mesmo tempo, uma força e uma fraqueza. Gera um núcleo duro, duríssimo, mas impede-o de sair daí para fora e de se alargar. Não se pode ao mesmo tempo ter altas e fortes muralhas, concentrar aí todo o seu exército, e controlar o campo lá fora.

A extrema-esquerda está igualmente mal e não consegue lidar com uma nova fase de fragmentação, que terminou com o período em que o Bloco de Esquerda funcionava como pólo de atracção, substituindo-o por uma amálgama de novos grupos como o MAS, vários sectores dos "indignados", pequenos grupúsculos anarquistas e contraculturais, que oscilam entre o folclore contestatário e a violência desejada, mas ainda não presente. O BE, que na sua génese, quer no PSR, quer na UDP, continua a ser um partido com um modelo leninista de controlo, torna-se indiferente para os novos indignados, que acham mais "graça" aos "anónimos" e a fazer contestação em inglês para a juventude precária da classe média pobre.

Tudo na extrema-esquerda está a andar para trás, tudo no centro e na direita está a acelerar "prà frentex", pensando que vai para a frente. Nuns, a tartaruga ou o caracol escondem-se bem dentro da sua casca-casa, e noutros o corpo despido vai tão depressa que deixou a carapaça atrás. Todos dão pouca "sombra" e a pouca que dão ninguém a quer. Mas se a "sombra" não oferece dúvida, o que é que se passou com a "árvore"?

Há várias maneiras de falar sobre isto. Uma é a antiga e sempre renovada tese do fim das ideologias. Estaríamos assim a lidar com meros aparelhos do poder, que naturalmente se deslocam no contínuo político em função das oportunidades que ele lhes dá, e não tem nenhuma âncora ideológica ou política estável. Navegam à vista, se for preciso serem pretos, são pretos, se for preciso serem vermelhos, são vermelhos e por aqui adiante. Nesta tese não vale a pena falar de qualquer fidelidade ideológica, porque esta não existe de todo, ou é apenas retórica.

Outra tese também muito comum é que o mundo que se reflectia nos programas e nas ideologias partidárias - o que não é a mesma coisa - não corresponde às características das sociedades actuais, as ideias e práticas não se renovaram e por isso aumenta a bifurcação entre os caminhos do mundo e os caminhos partidários. Muitos fenómenos, a globalização, as redes sociais, a "nova economia", etc., etc., são apontados como realidades a que os partidos portugueses não se adaptaram.

Embora haja alguma verdade nestas explicações, no essencial não me convencem muito. Primeiro, porque a nossa vida social e política, económica e cultural continua a ser dominada por um grande arcaísmo, no sentido em que mesmo na "rua" prevalecem atitudes e comportamentos que não se distinguem muito dos do passado. Depois, porque a regressão social provocada pela crise não é uma força de modernização mas de retrocesso e, por isso, os factores de arcaísmo ainda serão mais acentuados. A crise não faz oportunidades, destrói-as e a oportunidade de mudar os partidos para lhes restituir a "honra", de regar a "árvore" para lhe dar outra "sombra", é cada dia menor.

A ilusão de que pode haver uma qualquer modernização no sistema político-partidário gerada pela crise parece-me wishful thinking. Bem pelo contrário, o que me parece é que vai acontecer exactamente o contrário: o reforço de práticas antigas, certamente implementadas por gente nova, o que só lhes dá mais força e vigor, mas não as torna melhores. O clientelismo não deixa de ser o mesmo, quer se faça no obséquio pessoal ou na carta de recomendação, quer se faça nos blogues ou nas redes sociais. A corrupção não deixa de ser sempre a mesma, quer a lavagem de dinheiro se faça pelo transporte de malas ou por transferências electrónicas. O debate rudimentar e grosseiro de um espaço público anémico não deixa de ser o que é, quer se faça num editorial de um jornal ou numa polémica nos comentários de um blogue.

A "honra perdida" não se recuperará, muito menos a tempo de poder dar aos partidos a função que se lhes exigia numa democracia em tempos revoltos. A crise favorece o atraso e o subdesenvolvimento, isola o melhor e torna-o um alvo para a mediocridade, favorece o mal e estiola o bem. Portugal é a nossa amada pátria, mas não vai ser amável viver nela nos tempos que estão e nos tempos que continuarão.