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Montpellier contraria leis do mercado e prepara-se para ser campeão

Louis Nicollin, o presidente "banda desenhada" do Montpellier
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Louis Nicollin, o presidente "banda desenhada" do Montpellier Foto: Boris Horvat/AFP

É mais fácil recitar de cor formações do Real Madrid ou do Chelsea do que dizer o nome de um só jogador do Montpellier. Surpresa absoluta em França: a equipa orientada por René Girard, um treinador de perfil discreto, que jogou com Chalana no Bordéus, vai à Liga dos Campeões e prepara-se para ganhar o campeonato, superando o Paris-SG. Um empate, neste domingo, é suficiente.

A verdade é que a diferença de poder é abissal. O jornal italiano "La Gazzetta dello Sport" revelou recentemente a intenção do xeque do Qatar, Nasser Al-Khelaifi, de reservar 100 milhões de euros anuais, durante quatro anos, para fazer uma equipa do PSG ao seu jeito e medida. De resto, essa generosidade já se fez sentir esta época com um orçamento à volta dos 150 milhões, cerca de cinco vezes mais do que o seu adversário da cidade estudantil do Sul de França.

O Montpellier Hérault passou cinco épocas na II divisão até à subida, em 2009. O presidente, desde a criação do clube em 1974, é uma figura de banda desenhada, homem de vários ofícios, tendo como negócio principal a reciclagem de lixos domésticos e industriais. Quase lhe dava uma apoplexia quando viu um dos miúdos da casa, Karim Ait-Fana, a marcar o golo da vitória no último minuto do jogo frente ao Lille. Deu sempre nas vistas por causa do seu descontrolo verbal e é do tempo em que os presidentes faziam tudo e quando entravam no balneário, depois de uma vitória, ouviam os jogadores a gritar: "Presidente, presidente...", na expectativa de uma melhoria do prémio do jogo. Chama-se Louis Nicollin e agora o seu novo problema vai ser a gestão deste êxito do clube, a partir do jogo de domingo, em casa do despromovido Auxerre, após 32 épocas na I Divisão.

O melhor marcador da equipa, de nome Olivier Giroud (21 golos), está convocado para o Campeonato da Europa e já deu a entender que gostaria de se mudar no final da época para o Bayern de Munique ou então para a Liga inglesa. Há também outros jogadores que sonham com cenários mais grandiosos do que o Estádio de La Mosson, que raramente enche e é um dos menos frequentados da Liga francesa. Mapou Yanga-Mbiwa, igualmente incluído na lista do seleccionador Laurent Blanc, pode ser um deles.

O Montpellier teve até aqui apenas quatro fugazes aparições em provas europeias. A estreia, no ano da melhor classificação no campeonato (3.º), foi apadrinhada pelo Benfica, de Toni. Dessa equipa fazia parte um jogador que já se notava pela sua qualidade, Laurent Blanc. E tinha mais um ou outro que chamava a atenção: um deles pela sua farta cabeleira, o colombiano Carlos Valderrama, outro pelas suas proezas com a selecção dos Camarões, o excêntrico avançado Roger Milla.

Nessa altura, o Montpellier era um clube de estrutura simples e o treinador, de nome Pierre Mosca, veio a Espinho numa tarde de Verão, ver jogar o Benfica. Sentou-se tranquilamente num dos degraus da bancada de cimento ao lado dos outros espectadores e deu conta, sem quaisquer reservas, das observações que ia fazendo do seu futuro adversário. Quando perdeu em casa por 3-0, confessou que os jogadores não tinham percebido nada daquilo que lhes tinha dito, mas ele próprio reconheceu que a observação que fez em Espinho lhe serviu de muito pouco. Outros tempos. O passeio terminou na Luz. O Montpellier limitou-se a marcar um golo, sofrendo mais três, de Chalana, Ademir e Mozer.

Vinte e quatro anos depois, a equipa laranja e azul entra directamente na fase de grupos da Liga dos Campeões, seguramente aspirando a um outro tipo de discurso.

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