Crítica

Exaltação da noite

Um clássico da literatura latino-americana. Romance irreverente que o regime castrista considerou “contra-revolucionário”

A obra-prima do cubano Cabrera Infante (1929-2005), Três Tristes Tigres (publicada em 1968, e escrita já no exílio londrino do escritor), foi agora por cá reeditada com nova tradução. O romance é um corpus que se vai organizando a partir do caos literário, composto por pequenos livros num patchwork narrativo, uma colecção de mosaicos que vão completando o grande painel, naqueles tons que dominam toda a obra do autor cubano: a oralidade, a paródia, a citação e o pastiche; sem faltarem, claro, as obsessões e paixões de sempre: o sexo e o amor, o cinema e a música, tudo isto numa Havana de sonhos agitados, de esplendores nocturnos que emergem, noite após noite, dos intensos e eternos boleros cubanos. É o retrato de uma Havana quase toda centrada no bairro boémio de La Rampa, em 1958, antes da queda do ditador Batista, esta que as várias personagens - todas elas, de alguma forma, ligadas à música, à dança, ao canto, ao cinema ou à literatura - percorrem. As várias tramas, amorosas e outras, que se vão desenvolvendo - quase em jeito de “educação sentimental” à maneira dos trópicos, a que não faltam as suas “noites de putaria” - parecem, por vezes, funcionar para Cabrera Infante como uma espécie de motivo para recriar uma Havana perdida algures no tempo, numa cuidada reflexão lúdica sobre a memória de uma cidade que já não existe, ou talvez como um exercício que tenta demonstrar, “por absurdo”, como a geografia e a cartografia urbanas condicionam, ou podem alterar para sempre, de um momento para outro, toda uma vida, toda uma cidade. A nostalgia (mas de onde a ironia e o sarcasmo não estão ausentes) é o tom que domina todo o romance.

Três Tristes Tigres foi considerada pelo regime castrista uma obra contra-revolucionária, e Cabrera Infante expulso da Unión de Artistas. Mas há no romance uma distopia revolucionária que se anuncia logo no prólogo, com ironia e sarcasmo, quando um apresentador de cabaré (“um empório do amor e da vida risonha”) vai alternando a língua do discurso entre o castelhano e o inglês para agrado dos muitos turistas americanos presentes: “Quero falar, se a proverbial amabilidade do Respeitável cubano mo permite, à nossa Enorme assistência americana: cavalheiros e radiantes turistas que visitam a terra das gay senyoritaes and brave caballeros... For your exclusive pleasure, ladies and gentlemen our Good Neighbours, you that are now in Cuba, the most beautiful land human eyes have ever seen, as Christofry Columbus (...)”. É na parte intitulada A morte de Trotsky narrada por vários escritores cubanos, anos depois - ou antes (pág. 201) que a distopia atinge o cume, pois são geniais os pastiches dos estilos literários, entre outros, de Lezama Lima e de Alejo Carpentier, autores apoiantes do regime de Fidel Castro e por quem Cabrera Infante nutria pouca, ou mesmo nenhuma, admiração a nível pessoal (apesar de reconhecer as suas virtudes literárias).

O recurso a intertextualidades, à paródia dos mitos literários cubanos, à desconstrução da linguagem (querendo com isto mostrar a desorganização mental das personagens, ainda como elemento da distopia), fazem-se notar ao longo de todo o romance. O autor, com erudição e um sentido de humor bastante singular e inteligente, vai-nos levando num quase perpétuo exercício de deliciosos diálogos feitos de citações, de cacofonias, de gíria, de distorção de frases feitas, de jogos de palavras, de alusões a filmes e a personagens literárias. Mas é com o magistral recurso à oralidade que Cabrera Infante subverte as normas, e ele próprio adverte: “O livro está em cubano. Isto é, escrito nos diferentes dialectos do espanhol que são falados em Cuba, e a escrita não passa da tentativa de capturar a voz humana no voo, por assim dizer.” É este sábio recurso à oralidade que o ajuda a promover o “fluxo de consciência” que enche a primeira parte (com vários narradores) e o solilóquio, apresentado em várias sessões pontuando o romance, feito por uma mulher num consultório de psiquiatria. “O doutor nunca se ri. Não ri nem chora nem diz nada. Limita-se a ficar para aí sentado a tomar notas. Sabe o que diz o meu marido? Que o doutor é o Édipo e eu sou a Esfinge, mas que eu não pergunto nada porque já não me interessam as respostas. Agora limito-me a dizer, Ouve ou devoro-te, e conto, conto, conto. Conto tudo. Até conto o que não sei.” (pág. 63)

Este romance irreverente, narrado a vários ritmos, que tem por tema a exaltação da noite e que ressuscita alguns mitos, ocupa - a par de Rayuela, do argentino Julio Cortázar - um lugar muito singular na literatura latino-americana. Alguém lhe chamou, talvez de maneira um pouco exagerada, “o Ulisses latino-americano”.