Presidenciais em França

Alemanha deixa Hollande “salvar a face”, mas espera que mantenha compromissos

Schaeuble falava ontem em Colónia
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Schaeuble falava ontem em Colónia Foto: John MacDougall/ AFP Photo (arquivo)

O Governo alemão vai permitir ao candidato à Presidência francesa François Hollande “salvar a face”, mas espera que ele mantenha os compromissos assumidos em nome da França, nomeadamente o tratado orçamental, disse o ministro das Finanças germânico.

As declarações de Wolfgang Schaeuble são o sinal mais claro, até agora, de que a Alemanha, cujo Governo apoia oficialmente o candidato Nicolas Sarkozy, está a antecipar uma vitória de Hollande nas eleições de domingo, de acordo com a análise feita pela agência financeira Bloomberg.

“Dissemos ao senhor Hollande que o pacto orçamental foi assinado e que a Europa funciona na base do pacta sunt servanda”, ou seja, os compromissos são para serem cumpridos, independentemente do governo que os assina, disse Schauble num discurso em Colónia, na sexta-feira.

“Sempre disse que todos os governantes eleitos têm de poder ‘salvar a face’, por isso vamos discutir isto de forma amigável, mas não vamos mudar os nossos princípios”, enfatizou o governante alemão.

O candidato socialista às eleições francesas de domingo tem defendido um passo atrás face à austeridade preconizada pela Alemanha para combater a crise da dívida soberana, que começou por afectar a Grécia no final de 2009, e tem afirmado que pretende renegociar o pacto orçamental acordado por quase todos os países europeus, de forma a dar-lhe também uma dimensão de crescimento.

Direita alemã ameaça com pressão dos mercados

A chanceler alemã, Angela Merkel, tem dito que o pacto não pode ser renegociado, ainda que apoie os planos para reformas estruturais que potenciem o crescimento económico.

Se Nicolas Sarkozy for reeleito em França, a chanceler alemã, Angela Merkel, não terá razões para recear uma sublevação no país vizinho contra o Tratado Orçamental e o “travão” à dívida, de acordo com fontes governamentais em Berlim.

Mas se a escolha recair em François Holande, o candidato socialista, favorito nas sondagens, Berlim terá de rever a sua estratégia em alguns aspectos, mas não alterará nada do essencial, segundo os mesmos responsáveis.

Uma vitória de Holande colocará imediatamente a França sob mira dos mercados financeiros, e por isso a chanceler alemã não terá de recear uma revolta contra a política de austeridade na União Europeia, escreveu o Westdeutsche Allgemeine.

“Os mercados não darão tréguas a Hollande”, disse ao mesmo jornal um político democrata cristão que participou recentemente numa conversa com Merkel sobre a Europa.

É convicção de Berlim que Hollande não pode pôr em risco o crédito da França junto dos mercados, e que ele saberá que o Tratado Orçamental – destinado a impor uma maior disciplina financeira aos 25 países subscritores, incluindo a França –, não pode ser renegociado.

“Como acontece em todas as campanhas eleitorais, nem tudo o que se diz vale ouro”, resumiu o presidente da comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros, Ruprecht Polenz.

Para facultar uma rápida aproximação entre Paris e Berlim, e permitir a Hollande “salvar a face” perante o seu eleitorado, Merkel está a estudar a hipótese de reforçar os capitais do Banco Europeu de Investimentos (BEI) para apoiar países em crise, admitiram as fontes alemãs.