Margens de comercialização dos supermercados já chegavam a 70% há mais de dez anos

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As margens de comercialização da alface chegaram aos 82% em Março Foto: Nuno Oliveira

As margens de comercialização dos supermercados na venda dos produtos agrícolas têm-se mantido estáveis desde 2000, chegando aos 70%, segundo o Observatório dos Mercados Agrícolas e das Importações Agro-alimentares. Mas o aumento dos custos de produção tem encolhido os ganhos dos produtores, que não conseguem reflectir no preço a subida destes encargos.

A relação entre fornecedores e retalho tem sido quase sempre marcada por alguma tensão, mas o tema voltou à agenda depois da promoção feita pelo Pingo Doce no 1.º de Maio.

O Observatório, criado pela Assembleia da República, analisou as margens de comercialização da alface, cenoura, maçã e pêra à venda, em Março, nos supermercados, e lembra que os dados de um estudo anterior, entre 2000 e 2006, já apontavam para margens de comercialização das cadeias de distribuição naquela ordem.

“Desde que fizemos o último estudo, houve um agravamento maior para os produtores. Os custos de produção, como a energia, água, combustíveis, agravaram-se”, explica presidente do observatório, Maria Antónia Figueiredo. A tendência das margens das cadeias de distribuição mantém-se, “mas com agravamento dos custos que os produtores têm que suportar”, sublinha.

A Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) já veio criticar o estudo, acusando-o de falta de rigor por não ter em conta encargos assumidos pelos supermercados até o produto chegar à prateleira.

Para apurar as margens das cadeias de retalho na venda de produtos alimentares, o observatório tem duas pessoas a fazer a recolha de dados. Em Março, foram analisados quatro produtos – no caso da alface a margem chegou, na primeira semana contabilizada nesses mês, aos 82%.

O desequilíbrio nas margens de comercialização ao longo da cadeia de produção e distribuição que o observatório encontra na análise mais recente apontam para a mesma tendência sustentada nos registos de anos anteriores. Entre 2000 e 2006, o observatório analisou os preços da pêra rocha, maçã, cenoura e couve-flor, com base em números do Ministério de Economia, que deixou de fazer este levantamento em 2007.

Já nessa altura o preço final ao consumidor era 70% superior ao da produção. Só que, do lado do agricultor, o ganho é hoje menor, por causa do aumento dos custos de produção, nota a presidente do organismo.

O desequilíbrio nas margens há muito que divide os produtores e as grandes cadeias de retalho. A posição da APED, afirmou à Lusa a presidente da associação, Ana Isabel Trigo Morais, “é de rejeição destes dados da maneira como estão trabalhados e das suas conclusões”. Em causa, justificou, estão os custos suportados pelos retalhistas durante “o processo de transformação”, com as embalagens, encargos logísticos, de energia, a rede frio para garantir a frescura dos alimentos ou os custos com os recursos humanos.

A Autoridade Para a Segurança Alimentar e Económica (ASAE) está a investigar a campanha do Pingo Doce, para verificar se foi praticada, ou não, a venda de produtos abaixo do preço de custo. Sobre este caso, o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, limitou-se a referir que aguarda as conclusões da ASAE, sublinhando que “estas iniciativas são comuns em vários países do mundo”, segundo a Lusa.

Notícia e título corrigidos dia 10 de Maio às 13h20

: A expressão "margem de comercialização" substitui a expressão "margem de lucro". É clarificado que os 70% se referem ao preço pago pelo consumidor.

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