Sem heroísmos

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Enric Vives-Rubio

Entre uma ideia abstracta e as pessoas concretas, escolhia as pessoas. Gostava de pessoas novas e lançou várias para a actividade política. Perdia horas em contactos e detestava rupturas. Não sabia desistir e às vezes era exasperante por isso. Um retrato por Ivan Nunes, que o acompanhou na fundação da Política XXI

Com 12 anos, Miguel Portas saiu de casa da mãe, porque (segundo reza a lenda) ela não o deixava ir à missa. "Entre Deus e a mãe, eu escolho Deus", escreveu o Miguel no bilhete para Helena Sacadura Cabral, jornalista e católica. Mas não se use esta frase para epitáfio: militante comunista, combatente por ideais políticos uma vida inteira, entre uma ideia abstracta (como Deus) e as pessoas concretas, o Miguel Portas escolheu sempre, invariavelmente, as segundas.

Talvez desse episódio precoce lhe tenha ficado uma marcada aversão a rupturas. Conheci o Miguel em Setembro de 1991, no mês em que ele deixou de ser membro do PCP, ao cabo de quase 20 anos. Mas lembro-me, desde as primeiras conversas, da preocupação que tinha, não em diabolizar o PCP, mas, com a emoção de quem durante tanto tempo tinha feito parte do partido, defender os seus aspectos meritórios, ver o que se podia salvar, criar pontes e instrumentos para o futuro. Miguel Portas estava em divergência aberta com a direcção desde pelo menos o congresso do Porto, de 1988. Mas penso que teria gostado que o lembrassem também como um antigo militante comunista, a organização política a que afinal pertenceu durante mais tempo. Continuou a cultivar amizades entre os comunistas, e dentro do partido continuou a haver pessoas que o respeitavam e gostavam muito dele.

O Miguel foi também o elemento fundamental para a formação do Bloco de Esquerda. Vinha da corrente menos significativa em termos de organização e de militância (a Política XXI, de que eu fazia parte), mas era o único capaz de criar pontes entre todos. Quando o Bloco foi lançado, em 1999, os outros membros do núcleo fundador (Luís Fazenda, Fernando Rosas e Francisco Louçã) fizeram questão de sublinhar em público o papel que o Miguel Portas tinha tido. Não exagero se disser que, até aí, a UDP e o PSR, os partidos que Fazenda e Louçã dirigiam, se odiavam, com um ódio fraterno.

Não era por ser bonzinho e dócil que o Portas tinha esta capacidade. Sabe Deus que ele não era dócil. Mas tinha uma grande dose de tolerância para o erro (o próprio e o dos outros), que talvez lhe tivesse vindo da matriz católica e progressista dos pais.

A aversão a rupturas nem sempre era uma qualidade. Ele, eu e outros ficámos demasiado tempo numa organização de triste memória, a Plataforma de Esquerda (1991-1993), quando já era evidente que pessoas como Pina Moura, José Luís Judas ou Barros Moura não tinham outro horizonte a não ser transitar para o PS. O Miguel detestava romper com pessoas com quem tinha feito caminho. E não me engano se disser que até hoje, no quadro dos conflitos que têm atravessado o Bloco de Esquerda, a aversão do Miguel às rupturas foi fonte de grande frustração para pessoas como o Rui Tavares ou o Daniel Oliveira.

O Miguel tentava seguir o que ele pensava ser uma dose sábia de cálculo, e por vezes esse cálculo ofendeu-nos ou magoou-nos: os compromissos não se fazem sem um preço. Mas o cálculo do Miguel Portas não era um cálculo de interesse ou de glória pessoal. Tinha uma dedicação absoluta à política, mas num sentido que seria incompreensível para as actuais "elites". Nunca calculou em termos de carreira, ou mesmo de saúde. Tinha o seu trabalho, para pagar as contas, mas estava nisso sempre "por empréstimo", porque a vida dele era o envolvimento com os outros, a actividade política. Podia ter tido superioridade moral, e eu penso que ele era de facto moralmente superior a muitas das pessoas com quem se cruzou, mas essa atitude era coisa que também não tinha.

Depois de sair de casa da mãe aos 12, viveu na prática sozinho a partir dos 15, quando o pai se mudou para Madrid. Muitos o referem nas lutas políticas antes da revolução; talvez tenha sido essa também a sua família. Muitos anos depois, lembro-me de o Miguel querer encontrar-se comigo num dia de Natal, à tarde, para falar sobre um documento político que estávamos a preparar. Não tinha os mesmos esquemas familiares do que nós. Para o Miguel, tudo era uma extensão de tudo, a política uma extensão do instinto gregário, o convívio uma forma de juntar mais pessoas, de alargar o círculo.

Mesmo em alturas em que o grupo a que pertencia teria, nos dias bons, umas dezenas de pessoas, a ambição dele era sempre "maioritária", como então se dizia. Não lhe interessava a seita. Perdia horas incontroladas a fazer contactos, a deslocar-se pelo país, a ouvir pessoas - como perdeu comigo, quando eu tinha 18 anos, e nenhuma espécie de influência ou de "importância" política.

Gostava particularmente de pessoas novas. Lançou para a actividade pública a Ana Drago, a Joana Amaral Dias, o José Guilherme Gusmão, a Marisa Matias, o Rui Tavares. Do Daniel Oliveira foi um grande camarada, na política e no jornalismo. Para nenhum de nós foi uma figura paternal. Era uma espécie de irmão mais velho, com muitas fraquezas, para as quais cada um tinha maior ou menor tolerância. De certa maneira, foi sempre o miúdo de 13 anos, "sardento, louro, espigado e irrequieto" que o Francisco Louçã conheceu em 1972 e recorda agora num texto no Facebook.

No meu caso, não sei quando fui tomado pelo vírus do cepticismo, mas desde então tivemos sempre posições contrárias. Eu não queria fazer uma lista de independentes às eleições europeias de 1994, nem queria ser cabeça de lista: achava que não tínhamos pernas para isso. O Miguel convenceu-me de que conseguiríamos juntar a nós muitos independentes de esquerda (Boaventura Sousa Santos, Miguel Vale de Almeida, Nuno Grande, muitos dos dirigentes estudantis da época) e que teria de ser eu a dar a cara pela Política XXI. Eu não queria, depois disso, que nos metêssemos a fazer um jornal semanário: uma revista de ideias já era uma grande coisa. O Miguel quis e fez o . Eu não acreditava, no final dos anos 90, que ainda se pudesse criar algo a partir dos restos de organizações esquerdistas. O Miguel quis e fez o Bloco.

As mulheres perceberam-no melhor do que eu. O Miguel era um homem bonito (como a Ana Sá Lopes assinalou num texto para o i), em especial no início dos anos 90, aos trinta e poucos anos. Mas não se cuidava nada, fumava muito e bebia - Cutty Sark depois do almoço, com muito gelo. Teve muitas namoradas, mas não era nenhum dandy. Tinha a fraqueza de um miúdo afectuoso, o mesmo sangue na guelra, a famosa jugular que saltava quando ele se exaltava na discussão política. Entre as dúzias de homenagens que lhe vi prestadas no Facebook, uma quantidade desproporcional veio de mulheres.

Na manifestação do 25 de Abril, os seus camaradas evocaram-no transportando uma faixa que dizia: "Não desisti de nada - Miguel Portas." Nem sequer sabia desistir, e era às vezes exasperante por isso. Também disse: "Quem não se arrepende de nada ou é parvo ou é santo." Não era parvo, nem era nenhum santo. Não tinha qualquer espécie de heroísmo. Mas, numa vida muito intensa, tocou uma quantidade extraordinária de pessoas e era - isso é verdade, e é raro - um tipo sem maldade nenhuma.

Ivan Nunes é doutorando em Estudos de Cinema na Universidade de Kent