Crise monetária

Banco central da Islândia: “Se tivéssemos um referendo amanhã à entrada na UE, ganharia o não”

O processo de adesão à UE teria de envolver uma consulta popular, diz Mar Gudmundsson
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O processo de adesão à UE teria de envolver uma consulta popular, diz Mar Gudmundsson Foto: Ints Kalnins/Reuters

O governador do banco central da Islândia admitiu hoje que, se o país tivesse um referendo à entrada na União Europeia (UE), a população recusaria esta ideia.

“A política oficial da Islândia continua a ser candidatar-se à União Europeia”, disse hoje o governador do Banco Central da Islândia, Mar Gudmundsson, que está em Lisboa a falar numa conferência sobre as lições da crise islandesa, no Banco de Portugal.

No entanto, acrescentou o governador, o processo de adesão à UE iria sempre envolver uma consulta à população e, “se tivéssemos um referendo amanhã, seria um não à União, por causa da crise da zona euro”.

Mar Gudmundsson adiantou que, talvez daqui a dois ou três anos, a tendência já seja outra, mas salientou que tudo vai depender muito da evolução da crise europeia.

O governador salientou que, apesar da Islândia ser frequentemente apresentada com o um bom exemplo, por ter deixado cair o seu sistema bancário e ter já voltado ao crescimento, “é possível um país ver-se envolvido em problemas sérios tanto dentro de uma união monetária como fora”.

Mar Gudmundsson admite mesmo que se a Islândia fizesse parte da zona euro teria conseguido prevenir a sua crise monetária e “reduzido parte do problema”. Além disso, a pertença à moeda única teria permitido aos bancos islandeses terem, à partida, acesso a liquidez em euros.

Apesar de admitir que a possibilidade de ajustar a taxa de juro e desvalorizar a moeda foi “parte da solução” para o país, o governador do banco central salienta que este processo não está a correr tão bem como seria de supor. “Não é uma panaceia”, afirma, dando como exemplo as exportações, que não estão a aumentar tanto como seria de esperar.

Mar Gudmundsson falou também sobre a decisão do Governo irlandês de ter deixado cair o seu sistema bancário e, ao mesmo tempo, proteger os depositantes domésticos. “Os bancos tinham muitos depósitos em moeda estrangeira, era impossível garantir isso”, explicou, salientando que “a Islândia não teve escolha a não ser fazer a distinção entre depositantes domésticos e estrangeiros”.

“Sabemos que pode parecer um incumprimento das regras de não discriminação da união económica europeia, mas situações de emergência são situações de emergência”, concluiu.

Mar Gudmundsson salientou, contudo, que o Estado islandês não entrou em default. “Não teríamos categoria de investimento [nos ratings] se o tivéssemos feito, não teríamos recuperado como recuperámos”, rematou.