Shakespeare na auto-estrada a olhar para nós

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Falemos de Portugal: "Medida por Medida", a nova criação de Nuno Cardoso, retoma uma reflexão sobre o poder, com vista para isto em que nos tornámos no ano da graça de 2012

Isto era uma festa.

Em nenhum momento do espectáculo ouvimos dizê-lo. O encenador Nuno Cardoso também não usa a expressão. Mas será o que veremos quando Medida por Medida começar: uma Viena desregrada e coberta de excessos, gozando o momento de fartura que vive, enquanto dura. Isto era Shakespeare no século XVII e é Shakespeare a olhar para nós em 2012. A nova produção do Ao Cabo Teatro, que se estreia amanhã no Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, agarra-se a um dos textos-problema do dramaturgo inglês para interrogar o que é Portugal hoje.

Escrito em inglês, passado na Áustria e a olhar para Portugal, Medida por Medida também é sobre a Europa. Neste caso, sobre aquilo que fizemos com o dinheiro da União. "Há uma ideia de reflexão sobre o que era antes, o momento do desperdício, e depois o abrandamento, com a austeridade e todas as consequências disso", resume Nuno Cardoso. E isso consegue-se pondo um clássico a olhar para hoje. Partindo de um peça de teatro que é também ela de transição na obra do dramaturgo inglês.

Medida por Medida é descrita como uma comédia, mas já não o é. Não chega também a ser um texto político. E por isso é um texto "dual e difícil de trabalhar", avalia o director do Ao Cabo Teatro. Mas um texto como este, que ganhou um "âmbito civilizacional", nunca morre; pelo contrário, ganha "acuidade contemporânea" em determinados momentos. Como este. "Peças como Medida por Medida são um espaço de reflexão para a prática de cidadania contemporânea, um espaço de pensamento do homem que vive agora", define Cardoso. É esse o repto que lança ao público na nova criação, que depois da estreia em Guimarães andará pelo Porto (5 a 13 de Maio, no Teatro Nacional São João) e Lisboa (17 a 20 de Maio, São Luiz).

O Ao Cabo Teatro espera que este seja um espectáculo sobre 2012 e sobre nós. Num duplo sentido: o nós que é o colectivo que faz a companhia, mas também o colectivo que faz o país. "Fizemos esta peça porque nos sentimos assim. É isto que estamos a viver agora", sublinha Nuno Cardoso.

A berma da auto-estrada

A cidade é Viena, como não se cansará de nos lembrar uma enorme placa de auto-estrada sobre o palco, mas é Portugal que aqui está. Basta olhar a cenografia - que volta a ser fruto da colaboração com Fernando Ribeiro - para nos sentirmos em família. Debaixo da indicação rodoviária, há um piso de betão, cadeiras e mesas de esplanada, uma arca frigorífica e um teatrinho no meio. "É o país", concede o encenador.

Há opções desta montagem que não disfarçam as referências à situação política actual. O Duque Vicêncio é um homem de fato justo e pose de político em campanha televisiva. Quando regressa à cidade, é recebido com bandeiras, dizendo o texto com a entoação de político em comício. No entretanto, abdica do poder em favor de Ângelo, homem com fama de incorruptível - e especialmente soturno na visão da Ao Cabo. O tecnocrata, que parecia o homem certo para aplicar medidas difíceis capazes de fazerem voltar a imperar alguma ordem em Viena, acaba por revelar-se mais corrompido do aqueles que governa.

Também a cenografia reflecte o momento que vivemos. A opção por materiais de baixo escalão, como cadeiras de plástico e um piso de cimento, cria um ambiente menos imponente do que os últimos espectáculos da companhia. E isso é gesto de criação, mais do que necessidade financeira, apesar dos cortes nos apoios da DGArtes que apanharam o Ao Cabo em contra-pé - "Agora que estávamos com uma programação estruturada a dois anos e com apoios para tudo, a crise abateu-se e isso serviu de justificação para não haver apoios à criação", desabafa o encenador.

Medida por Medida também é um regresso do encenador à obra de William Shakespeare, cinco anos depois da estreia de Ricardo II, no campo de futebol do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Nuno Cardoso reconhece um ponto em comum entre os dois textos, que se debruçam sobre o desuso do poder e as suas consequências. Mas se na peça encenada em 2007 se fazia uma anatomia de quem veste o poder, agora alarga-se o espectro e transportam-se os efeitos desse exercício do poder para a cidade.

É isso que lhe interessa em 2012, num momento em que "as decisões políticas têm um efeito devastador na vida das pessoas" - tão devastador que apenas em tempo de guerra somos capazes de encontrar paralelismos com isto que parece cair-nos agora em cima da cabeça.

Por isso Nuno Cardoso queria falar de raiva neste país encostado à berma - "Da raiva surda que há em todos nós".