O tempo, esse brutamontes

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O Prémio Pulitzer de 2011 foi para "A Visita do Brutamontes", romance de queda e redenção que acompanha uma enorme trupe de personagens ao longo de 40 anos: inclui genocidas, suicidas, groupies, rock e muitas drogas. Não é o Great American Novel à antiga: Jennifer Egan inventou o Great American Novel 2.0

Não é difícil de perceber por que razão A Visita do Brutamontes, o quarto romance de Jennifer Egan (cuja obra inclui ainda uma colecção de contos), recebeu o Prémio Pulitzer de 2011. Ao centrar-se na indústria de entretenimento, Egan encontra carta branca para colocar uma imensa galeria de personagens nas mais improváveis situações: entre rapazes a morrerem num rio e assessoras de imprensa que vêem estrelas de Hollywood a serem encarceradas por genocidas no Médio Oriente, a quantidade de peripécias trágicas, delirantes ou emocionalmente extremadas é imensa.

A Visita do Brutamontes percorre cerca de 40 anos na vida de pessoas ligadas à comunicação de massas, olhando para elas em diferentes momentos da sua vida, o que acentua a quantidade de vidas extraordinariamente diferentes que cada um deles encerra: vemos produtores musicais darem cabo de casamentos envolvendo-se com raparigas mais novas e muitas drogas (omnipresentes) e vemos a tragédia que isso acarreta na vida dos filhos. Mas também vemos músicos que passaram uma vida inteira ao lado de uma carreira séria conseguirem, in extremis, salvar-se.

Apesar de, por várias vezes, o livro saltar longos arcos temporais que deixam muita coisa em aberto, há um raro olho para o detalhe - ora cómico, ora trágico - que nos faz crer nestas personagens. A esse título, a abertura do livro é exemplar: acompanhamos Sasha, que, a meio de um encontro com um homem, rouba uma carteira numa casa de banho. Volta para casa com ele, ele repara na mesa em que ela deposita os seus roubos, têm sexo e ele vai-se embora. Ela mantém os frutos dos seus roubos, que só lhe dão um prazer momentâneo, mas é incapaz de manter aquele homem. A cena, diz-nos Egan ao telefone, "acaba por funcionar como um símbolo da perda que atravessa o livro". Mas há mais: de imediato, este simples detalhe cria uma empatia com o leitor - e Egan assume que isso lhe é necessário: "A empatia é fundamental para escrever ficção. Sem ela só há alienação". Nota-se bem: estamos perante uma católica americana.

O livro desenvolve-se depois segundo uma estrutura ardilosa: cada capítulo centra-se numa personagem, num determinado momento da sua vida. Nunca há dois capítulos com o mesmo narrador, pelo que quando uma personagem ressurge é vista noutra época e de outro ângulo, amplificando o contraste em relação ao que lhe conhecíamos. Quando se chega ao fim fica-se com a sensação de que Egan é uma maníaca do plot, dos truques narrativos que mantêm o leitor agarrado. Contudo, ela rejeita por completo essa ideia.

"Para ser honesta, eu não queria sequer escrever este livro - simplesmente descobri que estava muito pouco interessada no outro livro que andava a escrever", explica Egan, que confessa ainda que a ideia inicial para A Visita do Brutamontes lhe surgiu durante um jantar com a mãe, que a veio visitar a Nova Iorque, onde reside.

"Eu estava no restaurante com ela, fui à casa de banho e vi uma mala. Fiquei ansiosa, porque já fui roubada muitas vezes - inclusive em Portugal. Pensei ‘Estamos em Nova Iorque, quem é que deixa a mala aqui?'. Comecei a imaginar, como experiência mental, o que seria roubar uma mala. Não escrevo sobre mim, mas adoro imaginar outros pontos de vista que são opostos ao meu. E aí decidi escrever sobre uma mulher que roubava a carteira de outra mulher", conta a autora. Isto, que acabou por tornar-se no primeiro capítulo, foi o suficiente para começar: "Muitas vezes não tenho mais do que um sítio e um momento. Depois parto à descoberta".

Rebolar no futuro

Conversadora nata e de riso fácil, Jennifer Egan não é uma pessoa a quem tenhamos de arrancar respostas à bruta. Discorre com à-vontade sobre o seu percurso como contista - com textos publicados na New Yorker, entre outras revistas - e assume que inicialmente planeava apenas fazer uma pausa no romance que estava a escrever para dar forma ao que pensava ser um conto. Mas durante a escrita desse conto começou "a descobrir muitas coisas sobre a Sasha: que ela não roubava por pobreza mas sim por compulsão, por exemplo. Que andava em terapia". Quando acabou o conto havia uma frase em que Sasha menciona que o patrão, Bennie Salazar, punha flocos de ouro no café. Egan pensou: "Quem é este gajo?" Pelo que decidiu escrever mais uma história, que se tornou o segundo capítulo. Egan ficou agradada com certos detalhes dessa nova história: "Adorei que se passasse antes, e que nele a Sasha fosse uma personagem secundária".

Este mecanismo é fundamental, porque estabelece que as relações entre as personagens mudam com os anos: a admiração transforma-se noutra coisa, a intimidade devém afastamento. As relações, mesmo as que parecem vinculativas, são próximas, mas simultaneamente frágeis. Egan começou a sentir "um certo prazer" em aproximar-se "de uma pessoa para logo a seguir dar um passo atrás e olhar para outra pessoa".

Escreveu um capítulo dedicado a Stephanie, a ex-mulher de Bennie (que acabou, na ordem final do livro, por não ser o terceiro), e continuava a querer brincar com a ordem temporal e saber mais sobre estas personagens. Foi aí que percebeu que ia continuar com o livro. Criou três regras: "Cada capítulo tinha de ser acerca de uma pessoa diferente da do capítulo anterior; tinha de ter um tom diferente, ser tecnicamente diferente; cada história tinha de valer por si própria.

Manteve-se fiel às regras: o terceiro capítulo, por exemplo, apanha Bennie em São Francisco na década de 70, quando era um punk em início de carreira - mas o capítulo é narrado por Rhea, que está apaixonada por ele; o quarto apanha Lou, um produtor musical muito mais velho que dormia com a melhor amiga de Rhea, anos antes, durante um safari.

Apesar de Egan fincar que a sua escrita nada tem de autobiográfica, há uma ou outra semelhança entre o percurso das suas personagens e o seu. Ela esteve de facto em São Francisco na década de 1970, e conhecia a cena musical da cidade. Mas, faz notar, não foi punk, "apenas observadora". "Tinha acesso à cena, mas estava menos envolvida do que os putos que descrevi. Mas tenho boa memória para sítios e lugares, pelo que foi fácil lembrar-me dos detalhes".

Em termos estilísticos, o seu cuidado em encontrar o tom adequado a cada personagem resulta num capítulo narrado, anos mais tarde, pela filha de Sasha - em PowerPoint. As soluções técnicas de Egan parecem nunca acabar: o quarto capítulo, Safari, dedicado a Lou, o produtor musical que descobre Bennie e se torna seu protector, é narrado na terceira pessoa - a dada altura, o narrador começa a antecipar o que vai ser futuro daquelas personagens, criando um autêntico vendaval de destruição. Quando se lê, fica-se com a impressão de que Egan se tinha zangado com as suas personagens e queria puni-las, ideia que ela recusa.

"Não, não, nunca", diz, enfaticamente. "Identifico-me sempre com a minhas personagens. Tenho de me identificar, se não não escreveria sobre eles. O Lou é muito difícil e muita gente detesta-o, mas eu gosto dele". A autora explica que internaliza "a maneira de pensar das personagens", o que a leva a descobrir nelas aspectos em que nunca tinha pensado. "É muito interessante conviver com uma lógica que não é a nossa. O que eu queria era defender as minhas personagens - mas nem os filhos podemos defender". (Egan tem dois filhos, um de nove anos e outro de 11.)

"Quando escrevi esse capítulo", continua, "já tinha escrito o outro que surge mais à frente, em que se resolve a vida de Lou e do seu filho, Rolph. Já tinha escrito o capítulo da vida de Bennie enquanto punk em São Francisco. Foi, aliás, nesse capítulo que me perguntei quem seria o Lou quando não está a ser um maníaco que dá coca a adolescentes. Como é que ele é quando está com os filhos?"

Segundo Egan, as versões iniciais desse capítulo eram "demasiado pesadas". "Quando se está a escrever sobre um presente que está carregado de conhecimento sobre o futuro, que encerra a sombra do futuro, tem de se ter cuidado para não sobre-escrever, porque isso distrai o leitor. Tinha mais saltos para o futuro e tive de os retirar. O narrador parece tornar-se sádico, como se rebolasse no seu conhecimento do que vai acontecer".

A técnica já foi usada antes, nomeadamente por Edna O'Brien, mas Egan diz ter estado mais interessada em filmes como o Pulp Fiction de Quentin Tarantino. Isto de certa forma confirma o seu fascínio pela cultura pop e os seus mecanismos narrativos - que parece ser maior do que o fascíno pela literatura na sua versão psicologizante e pesada. "Quando vi o Pulp Fiction fiquei muito excitada com os resultados de brincar com a linha temporal... Quando já sabemos que alguém vai morrer e depois volta a estar vivo - é muito entusiasmante. E de repente ele está para morrer e essa cena está cheia de tensão: como é que ele morre? Interessava-me o impacto emocional de saltar no tempo. Veio muita coisa desse filme".

Tragédia e redenção

Este prazer de brincar com técnicas, um prazer lúdico que se sente em muitas das páginas de A Visita do Brutamontes (o Brutamontes é o tempo) é particularmente notório no capítulo Almoço de quarenta minutos: os desabafos de Kitty Jackson sobre o amor, a fama e o Nixon!. É o relato que Jules, cunhado de Bennie, faz da sua entrevista a uma estrela de Hollywood, uma entrevista que acaba com ele a tentar violá-la. E é, notoriamente, um pastiche de David Foster Wallace.

"Esse capítulo pretende brincar com a escrita do David. Mas foi escrito no fim dos anos 90, e o David estava muito bem na altura. Gozar não gozei". Egan considera que o suicídio de Wallace "altera o peso de parodiá-lo". "Não o faria, agora", diz ela. "Mas na altura ele estava no auge da sua não-ficção, a fazer obra-prima atrás de obra-prima. E foi divertido imaginar o Jules a escrever aquilo".

À data do seu crime, Jules era um jornalista que se dedicava a entrevistar celebridades. Desengane-se o leitor tentado a encontrar nos capítulos sobre ele uma crítica à vacuidade da cultura pop. Egan diz não estar interessada em fazê-lo, pelo menos "conscientemente": "Escrevo sobre o que me parece interessante, e a vacuidade não é interessante. Mas a cultura de massas interessa-me muito, porque toca-nos de forma muito profunda - sejam através dos media ou mesmo da publicidade, que sugere significado profundo e tem impacto no nosso comportamento, mas, claro, por definição é muito superficial".

A tarefa a que se dedicou era mais simples: "Mostrar que as coisas não são eternas numa pessoa", que as pessoas "são produto de uma época e de um contexto" e "mudam muito durante a vida". Ela coloca uma simples questão, com a qual toda a gente pode confrontar-se diariamente: "Quem sabe o que o avô foi quando era miúdo? Ele não parece ter alguma vez sido um puto, mas, sabes que mais?, foi". Egan afirma ter querido "mostrar as mecânicas das atitudes de cada um".

Após as mais rocambolescas reviravoltas, algumas personagens salvam-se (passe a expressão). Para Egan, a possibilidade de algumas personagens se redimirem é mais real do que a de todas acabarem em tragédia. "É muito fácil exibir as ruínas da tragédia e da destruição. Mas depois pergunto-me: e a seguir à tragédia? O que é que acontece? E nem sempre acontece as pessoas permanecerem em tragédia".

Mas isto pode muito bem ter a ver com o facto de Jennifer Egan ser uma católica praticante que acredita na redenção. "Gostaria que todos fôssemos redimidos. Mais: gosto disso como leitora. Se alguém dá um murro a uma pessoa, essa pessoa cai. Mas o mais complexo é mostrar como é que se levanta. Talvez eu seja uma optimista".