Dois artigos históricos de Alan Turing desclassificados 70 anos depois

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Uma Enigma (em baixo) e a Bombe britânica (em cima) que permitiu decifrar as mensagens das Enigma Alessia Pierdomenico/Reuters

O "pai" dos computadores escreveu sobre criptografia no início da década de 1940, altura em que o seu contributo foi essencial para o esforço britânico que permitiu decifrar as mensagens secretas dos nazis e ganhar a guerra

Em plena II Guerra, num laboratório ultra-secreto do Governo britânico em Bletchley Park, foi construída uma máquina electromecânica capaz de decifrar as mensagens secretas criadas por outras máquinas, as Enigma, que os nazis utilizavam para comunicar com os seus submarinos e transmitir os planos de ataque. O matemático britânico Alan Turing esteve no centro deste feito, considerado como acelerador da derrota da Alemanha.

Mas só agora, 70 anos volvidos e por ocasião do centenário do seu nascimento, é que o Governo britânico considerou que dois artigos da autoria de Turing, escritos naquela altura e que descreviam abordagens matemáticas da decriptação de códigos secretos, já não continham informação "sensível" e podiam ser tornados públicos. "Estamos encantados por podermos divulgar estes artigos que revelam uma parte ainda maior dos trabalhos pioneiros de Alan Turing durante a sua estada em Bletchley Park", diz em comunicado o GCHQ (quartel-general das comunicações governamentais), a entidade oficial à qual cabe a protecção dos segredos de Estado no Reino Unido. "Foi este tipo de investigações que ajudou a mudar o rumo da guerra e é particularmente agradável termos conseguido partilhar estes artigos durante o ano do centenário."

O primeiro informático

Alan Turing foi o "pai" dos computadores, o primeiro informático. Num artigo publicado em 1936, teorizou que uma máquina muito simples seria capaz de resolver qualquer problema matemático, desde que ele pudesse ser representado sob a forma de um algoritmo. Nessa altura, ainda não havia computadores e a "máquina" de Turing não passava de uma abstracção. Mas as consequências práticas da sua criação teórica transformaram as nossas vidas.

A seguir à guerra, Turing também trabalhou na concepção dos primeiros computadores reais, tornando-se ainda o autor, em 1950, do célebre "teste de Turing", um trabalho pioneiro no domínio da inteligência artificial.

Mas a proeza talvez mais espectacular da carreira de Turing foi a construção daquela máquina electromecânica (em inglês designada Bombe) capaz de decifrar os complexíssimos códigos criptográficos criados pelas Enigma. As Enigma tinham três ou quatro pequenas rodas, ou rotores, que eram colocadas em determinadas posições (a chave secreta). Assim, cada letra de uma dada mensagem era substituída por outra segundo uma regra quase impossível de descobrir, dada a enormidade das combinações possíveis de posições dos rotores (da ordem dos milhares de triliões). No destino, o facto de conhecer a posição certa dos rotores (a chave) permitia recuperar a mensagem original. Incrivelmente, a Bombe construída por Turing conseguia testar todas as posições possíveis dos rotores e descartar os códigos impossíveis, o que fazia com que apenas fosse preciso verificar um número muito limitado de possibilidades para encontrar a mensagem escondida.

"Hitler tem agora 52 anos"

Os dois artigos agora desclassificados (na passada quinta-feira, 19 de Abril) intitulam-se "Artigo sobre as estatísticas das repetições" e "As aplicações da probabilidade à criptografia". O primeiro, explica ainda o comunicado emitido pelo GCHQ, é um "relatório informal em que Turing determina qual é o melhor teste estatístico para decidir se certas partes de duas mensagens cifradas utilizam a mesma chave", acrescentando que isso "foi muito importante na exploração destas mensagens em Bletchley Park".

O segundo artigo, mais longo, "mostra que Turing estava decidido a aplicar análises probabilísticas rigorosas a um amplo leque de problemas de criptoanálise" - ou seja, de problemas de decriptação de mensagens em código quando não se conhece a chave de encriptação. Precisamente o que a Bombe de Turing conseguiu fazer em relação às Enigma. "As técnicas descritas neste artigo estiveram sem dúvida na base das decriptações realizadas em Bletchley Park", salienta o GCHQ.

E estiveram também na base da datação do artigo. É que, a dada altura, para exemplificar o que quer dizer, Turing escreve: "Hitler tem agora 52 anos." O que significa que este segundo artigo foi escrito entre Abril de 1941 e Abril de 1942. Faz cerca de 70 anos.

Condenado por ser gay

Turing teve um fim trágico: a 7 de Junho de 1954, suicidou-se na sua casa engolindo cianeto. Reza a lenda que o seu gosto pelo conto da Branca de Neve o terá levado a encher de veneno uma maçã e a trincá-la para absorver o veneno.

O que o levou a pôr fim à vida? O facto de, dois anos antes, ter sido condenado em tribunal ao admitir ter tido relações homossexuais com um jovem. Ora, na altura (e até aos anos 1960), ser gay era ilegal no Reino Unido. Turing permaneceu em liberdade, mas com a condição de se submeter a um tratamento hormonal à base de estrogénios para reduzir a sua libido. E foi também proibido de continuar a trabalhar para o Governo do seu país.

Turing sofreu as consequências físicas e psicológicas desta "castração química", sofreu a exposição pública, sofreu a humilhação de ver os seus seios crescer, as suas formas tornarem-se mais femininas. Na altura da sua morte tinha 41 anos.

Em Setembro de 2009, um abaixo-assinado lançado pelo informático John Graham-Cumming e assinado por dezenas de milhares de britânicos exigiu a reabilitação da memória de Turing. Poucos dias depois, o então primeiro-ministro, Gordon Brown, lamentou o tratamento "revoltante" dado a Turing e pediu perdão pela discriminação sexual de que tinha sido alvo.

Mas há apenas dois meses, o Governo de David Cameron acabou por rejeitar o pedido de perdão oficial, argumentando, através das palavras de Tom McNally, ministro da Justiça, que "um perdão póstumo não foi considerado adequado na medida em que Alan Turing foi devidamente condenado por algo que na altura constituía um crime". E acrescentou ser "trágico" que Turing tenha sido condenado por uma ofensa que "hoje parece cruel e absurda - em particular (...) dado seu excepcional contributo para o esforço de guerra" (sic).