Crise vai atirar riqueza por habitante para pior posição mundial desde 1986

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FMI diz que redução da dependência externa vai ficar abaixo dos objectivos definidos pelo Governo de Passos ALEX WONG/AFP

Quando Portugal sair do programa de assistência financeira, o PIB per capita terá caído vários lugares no ranking mundial, prevê o FMI. Crescimento e emprego estarão entre os piores no euro

Dois anos de recessão, várias doses de austeridade e uma baixa taxa de crescimento nos próximos tempos vão fazer Portugal perder posição no ranking das economias mundiais. Em 2015, primeiro ano em que o país estará fora do programa de assistência financeira, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita português (ou seja, a riqueza produzida por habitante) vai descer para a pior posição desde que entrámos na União Europeia, em 1986.

As previsões são do Fundo Monetário Internacional (FMI) e constam do relatório World Economic Outlook (Perspectivas Económicas Mundiais), divulgado esta semana. Daqui a três anos, quatro países irão passar à frente de Portugal em termos de rendimento por habitante: Taiwan, Trindade e Tobago, Malta e Arábia Saudita.

Do 36.º lugar entre 184 países do mundo, no ano passado, passaremos para o 40.º lugar, a pior marca dos últimos 26 anos. Em 2017 (último ano para o qual o FMI tem previsões), recuperaremos uma posição, mas continuaremos aquém dos lugares ocupados antes da crise.

A deterioração deste indicador, frequentemente usado para analisar a qualidade de vida de um país, vai ser particularmente acentuada este ano, em resultado do forte ajustamento da economia. Num ano em que o PIB irá cair, pelo menos, 3,3%, na sequência dos cortes salariais e dos aumentos de impostos, o PIB per capita vai encolher 7,8%, a pior quebra desde que o FMI tem registo dos dados. Isto colocará a riqueza por habitante nos 20.661 dólares (cerca de 15.732 euros), o pior nível dos últimos oito anos.

Nos próximos anos, essa perda será recuperada, mas a um ritmo lento. Em 2017, o PIB per capita nacional ascenderá a 23.437 dólares, ou seja, será cerca de sete vezes superior ao que era em 1980. Neste ranking mundial, são o Luxemburgo, o Qatar e a Noruega a ocupar as posições cimeiras, ao contrário do do PIB, que é dominado pelos EUA, pela China e pelo Japão. Frequentemente usado para avaliar a qualidade de vida de um país, o PIB per capita tem a vantagem, face ao simples PIB, de levar em conta as variações da população, que, por exemplo, têm colocado países muito populosos como a Índia nos primeiros lugares do ranking das maiores economias do mundo.

Perspectivas sombrias

Mas não são só as previsões da riqueza por habitante que obscurecem as perspectivas da economia portuguesa. Em 2017, mesmo depois do programa da troika e com a crise da dívida (supostamente) para trás das costas, Portugal irá continuar a apresentar uma das taxas de crescimento mais baixas da zona euro. Nesse ano, o PIB deverá crescer apenas 1,5%, o terceiro pior desempenho entre os 17 países da moeda única, só superado pela Itália (1,2%) e pela Alemanha (1,3%).

Igualmente preocupante é a previsão para a taxa de desemprego. Depois de atingir este ano um nível recorde de 14,4%, o número de pessoas sem trabalho irá descer gradualmente nos próximos anos, mas, ainda assim, em 2017, 11% da população activa deverá estar desempregada - um nível que está consideravelmente acima dos valores registados antes da crise. Será, também, a terceira pior taxa de desemprego da zona euro, a seguir à Espanha (19%) e à Grécia (14,6%).

Outro indicador que continuará a ter um desempenho relativamente negativo é o défice externo. Apesar de o programa da troika ter por objectivo aumentar a competitividade e reduzir a dependência da economia portuguesa do exterior, as previsões do FMI apontam para que, em 2017, Portugal continue a apresentar o segundo pior défice externo da zona euro (-2,8% do PIB). Só o Chipre e a Estónia estarão pior.

J?? no que toca ao défice orçamental, as perspectivas são melhores. O FMI estima que, dentro de cinco anos, Portugal tenha conseguido praticamente eliminar o desequilíbrio das contas públicas, atingindo um défice de 1,8% do PIB e ficando, por isso, já a partir de 2013, dentro dos limites de Bruxelas.

O mesmo não vai, contudo, verificar-se com a dívida pública. Apesar de todos os cortes orçamentais previstos, a dívida pública manter-se-á num nível elevado nos próximos anos e bastante acima do limite de 60% consagrado no Pacto de Estabilidade e Crescimento. Daqui a cinco anos, o endividamento público ascenderá a 109% do PIB, o terceiro pior da zona euro, só ultrapassado pela Grécia e pela Itália. Este número, aliado às baixas perspectivas de crescimento, contribui para suportar a tese de que Portugal terá de proceder a uma reestruturação da dívida.

De acordo com um relatório divulgado ontem em Berlim, oito dos principais institutos de economia alemães, entre os quais o conceituado Ifo, consideram "muito duvidoso" que Portugal e a Grécia consigam sustentar as respectivas dívidas públicas.

Do mesmo modo, os economistas alemães manifestam reservas quanto à sustentabilidade das dívidas da Espanha, Irlanda e Itália, dizendo que só serão reduzidas de forma sustentável se todas as reformas estruturais e medidas de consolidação orçamental anunciadas forem implementadas.

Na mesma linha, o Citigroup divulgou ontem estimativas negras para Portugal, apontando para dois anos de forte recessão e prevendo que o país tenha de seguir as pisadas da Grécia e reestruturar a dívida no próximo ano. Segundo o banco americano, a deterioração do mercado de trabalho será mais acelerada do que o esperado e vai fazer o Governo falhar as metas orçamentais deste ano.

A taxa de desemprego vai atingir os 15,6% e subir para 17,3% este ano, números bastante superiores às previsões do Fundo Monetário Internacional, que aponta para uma taxa de 14,4% em 2012 e 14% em 2013. A contracção do PIB ficará, também, substancialmente acima das estimativas oficiais - 5,4% este ano e 3% em 2013, ano em que o Citigroup prevê que seja preciso tomar medidas de austeridade adicionais. A previsão do Governo e da troika é que, no próximo ano, a economia já esteja a crescer.