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"Jogadores do Leiria foram abandonados e alguns só comem sandes e sopa"

Depois de rescindir contrato, Alcântara regressa ao Brasil
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Depois de rescindir contrato, Alcântara regressa ao Brasil Foto: Rafael Marchante/Reuters

Há quatro meses que não recebe salário. Teve de deixar a casa em que morava, por causa do atraso no pagamento da renda, e foi viver com um amigo. Não passou fome, porque esse amigo o ajudava a comprar comida. As últimas semanas da vida de Hugo Alcântara tiveram pouco a ver com o glamour e o bem-estar que fazem normalmente parte do dia-a-dia dos futebolistas profissionais.

Hugo Alcântara é apenas mais um dos jogadores da União de Leiria com salários em atraso. Cansado de "promessas por cumprir" e sentindo-se "perseguido", o central brasileiro rescindiu unilateralmente contrato com o clube e, antes de regressar ao Brasil, falou ao PÚBLICO, para denunciar as dificuldades por que ele e os agora ex-companheiros têm passado.

"No Leiria, os jogadores foram abandonados. Praticamente na época toda, só podíamos contar com a equipa técnica. Às vezes, precisávamos de apoio e os dirigentes estavam de férias noutros países", resumiu ao PÚBLICO Hugo Alcântara, em entrevista telefónica.

"Há dez dias, saí de casa, porque tinha rendas em atraso e fui morar com um outro jogador do clube. O Elvis é que comprava a comida para cozinhar. Se não fosse o apoio dele, teria passado mais dificuldades", conta o defesa, de 32 anos, revelando que alguns companheiros de equipa "tiveram de mandar a família embora" e outros já têm poucos meios para se alimentarem. "Há jogadores que comem uma sandes ou uma sopa antes de ir para o treino, que não é comida digna de um atleta", denuncia Hugo Alcântara, que é o quarto jogador, em poucas semanas, a rescindir com a U. Leiria, depois de Jô, Obradovic e Luís Leal.

Hugo Alcântara, que se lesionou e só fez cinco jogos pela equipa, é um dos jogadores com quatro meses de salários em atraso. A maioria do plantel ainda recebeu o mês de Dezembro, mas daí para cá nada foi pago. Os jogadores vão estar sábado em Guimarães, mas ponderam faltar ao jogo da jornada seguinte, com o Feirense, se nada for resolvido até segunda-feira.

V. Guimarães sem treino

O Vitória de Guimarães é outro dos clubes com atrasos graves. Os jogadores também têm quatro meses de salários em atraso e tinham a promessa de receber até esta quarta-feira. Isso não aconteceu e os futebolistas vimaranenses não se treinaram.

Estes atrasos são, para Hugo Alcântara, o retrato de um futebol em dificuldades cada vez maiores. "No V. Setúbal já tive salários em atraso, mas a diferença é que as pessoas do clube foram mais sinceras e honestas. Não nos viravam as costas", diz o jogador, acusando os dirigentes leirienses de "mentiras": "Sabemos das dificuldades, mas sejam honestos. Não é mentir e andar a dizer que pagam na próxima semana." O PÚBLICO tentou ouvir João Bartolomeu, mas o presidente demissionário da SAD não atendeu o telefone.

Nos últimos dias, Bartolomeu tem acusado alguns futebolistas de só pensarem em dinheiro. Hugo Alcântara responde: "Os jogadores são profissionais, trabalham e merecem ser pagos. E se só pensassem em dinheiro, já tinham ido todos embora ou não entravam em campo."

Sem esperança de que o atraso venha a ser resolvido e dizendo que esta situação está a gerar muita tensão entre os jogadores, o central brasileiro retira uma lição deste caso: "Se um clube faz um orçamento baixo - e o Leiria tem um orçamento baixo - e não consegue cumprir, o melhor é fechar e não fazer futebol desse jeito. Os jogadores não merecem o que foi feito, nem outros merecem que isto se repita no próximo ano."