Crítica

O silêncio dos inocentes

Na tradição de Mark Twain, o Sul de Harper Lee é feito de contadores de histórias e de românticos aventureiros

Harper Lee (n. Monroeville, Alabama, 1926) é uma das escritoras mais amadas da literatura americana apesar de, ao longo da sua já longa vida - tem agora 87 anos -, ter publicado apenas alguns (muito poucos) contos e poemas dispersos por revistas e um único romance, este Mataram a Cotovia. Juntamente com Huckleberry Finn, de Mark Twain, e principalmente com À Espera no Centeio, de J.D. Salinger, a obra-prima de Harper Lee forma uma trilogia de cariz iniciático para a maior parte dos jovens americanos - e não só.

A acção de Mataram a Cotovia inicia-se no Verão de 1933 e desenrola-se no rescaldo da Grande Depressão, quando na América, mergulhada numa feroz recessão, qualquer incidente servia de rastilho para uma escalada de violência. Na sonolenta e escaldante Maycomb, um negro, Tom Robinson, é preso por ter alegadamente violado uma mulher branca. Atticus Finch, um proeminente e respeitado advogado de uma antiga família da terra, homem de princípios morais irrepreensíveis e grande autoridade - Gregory Peck, no filme de Robert Mulligan que se estreou em 1962; o pai da própria autora, na vida real - toma a si a responsabilidade de defender Tom. A decisão é pouco popular, dividindo a comunidade branca atrasada, ignorante e pobre representada por Bob Ewell, o pai alcoólico e racista da jovem violada, e a comunidade negra, não menos pobre, e constantemente vítima de abusos. Entre estes dois mundos tão diferentes, mas obrigados a conviverem estreitamente em permanente tensão, surgem personagens - o próprio Atticus, Dolphus Raymond, um homem rico que vive com uma negra e pretende ser alcoólico para “justificar” a sua estreita confraternização com “o outro lado”, ou Calpurnia, a empregada (também) negra dos Finch - que prefiguram um novo estado de coisas, mais humano e mais justo. Atticus é o pai de Scout, uma menina curiosa e impetuosa, (uma “maria-rapaz”, como a própria Lee) e de Jem que, com o estranho amigo Dill (Truman Capote afirmou peremptoriamente que a autora e amiga se tinha baseado nele para criar esta personagem), formam o trio de crianças aventureiras e corajosas desta saga moral em que as “cotovias” são o símbolo dos pobres inocentes sacrificados, como Tom, no altar da intolerância e do preconceito.

Mataram a Cotovia foi publicado no Verão de 1960, uma altura em que, na sociedade americana, os ânimos estavam ao rubro na luta pelos direitos civis. O romance de Lee foi muito bem recebido (Prémio Pulitzer, adaptação cinematográfica, honrarias para a autora) porque retrata, com admirável clareza, personagens e conflitos universais facilmente reconhecíveis pelos leitores da altura: um homem sábio e corajoso, representante de uma nação que se queria mais liberal e justa, um xerife que cumpre a lei, jovens impetuosos e criativos, (transformadores da sociedade), um marginal que todos supõem louco, e as marcantes figuras das mulheres sulistas, que tanto podem ser “histéricas”, à maneira de Tennessee Williams, como resistentes matriarcas, geralmente negras, como as heroínas de Zora Neale Hurston.

Na sua singularidade, Mataram a Cotovia é não só uma história “(i)moral” - uma mistura explosiva de sexo, calor, racismo e crime, com um final dramático -, mas também um romance de aventuras protagonizado por Scout, Jem e Dill, nas suas relações pungentes com o bizarro Boo Radley e a sua casa “assombrada”. O imaginário “gótico”, com os seus desastres e fantasmagorias - um fogo devastador, uma queda de neve anormal, um cão danado e uma noite de Halloween - prevalece, em múltiplas variantes, em autores sulistas como a popular Anne Rice ou a mais sofisticada e igualmente reclusa Donna Tart. (Espera-se para este ano o terceiro livro desta escritora que publica um romance em cada década: A História Secreta, em 1992, e o mais directamente influenciado por Lee O Pequeno Amigo, em 2002).

Embora tenha revelado, numa das suas raras entrevistas, que “só queria ser a Jane Austen do Alabama”, Harper Lee não chegou a publicar - até agora - o segundo romance que, ao que se sabe, permanece inacabado. A sua estreita colaboração com Truman Capote, com quem se deslocou na célebre viagem a Holcomb para investigar o assassínio de uma família local, tornou-se lendária e o material coligido por ambos acabou por ser publicado, primeiro no The New Yorker e, mais tarde, convertido no célebre A Sangue Frio de Capote, editado em 1966.

Lee, uma purista da linguagem, eternamente crítica em relação ao “desleixo” de muitos autores seus contemporâneos, continua a considerar-se a grande discípula de Faulkner e uma admiradora de Updike. No entanto, é mais pertinente referi-la como a herdeira de Mark Twain, não só no que diz respeito à linguagem, ao ambiente e às personagens, como no que se refere aos temas e à forma como são abordados. Sem esquecer a ironia, Lee ressalva sempre o “instinto tribal” da importância da tradição oral que marca fortemente a “sua” literatura sulista, feita de contadores de histórias e de românticos aventureiros(as), defensores do Bem e opositores do Mal.

Harper Lee afirmou que não sentia qualquer necessidade de continuar a escrever - embora, possivelmente o tenha feito toda a vida -, uma vez que dissera tudo neste romance: um retrato fiel da América profunda com todos os preconceitos, toda a hipocrisia, violência e irracionalidade que, ainda hoje, continuam a ser notícia.