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Tablets e smartphones deram um  novo fôlego à leitura de textos longos
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A próxima geração de redes móveis deverá surgir por volta de 2020 Brian Snyder/Reuters

O artigo que está a ler tem cerca de 1400 palavras. É muito maior do que a esmagadora maioria dos artigos que lê num jornal diário ou num site noticioso. Mesmo assim, ficaria na categoria dos mais curtos no site Longreads.

O site

selecciona trabalhos jornalísticos para quem gosta de ler em profundidade. Aqui, os artigos mais curtos são os que não chegam às 3750 palavras. Na categoria dos mais longos estão os que têm mais de 15 mil palavras. Um leitor médio precisa de mais de uma hora para atravessar estes lençóis de letras de uma ponta a outra.

O Longreads pode parecer de pouca utilidade na era em que um dos mais populares destinos na Web limita os pensamentos a 140 caracteres. Mas o Longreads (um dos vários sites do género que surgiram ao longo dos últimos dois anos) quer resolver um problema simples, explicou o fundador, Mark Armstrong, no seu blogue: “Quando clico num título do NYTimes.com, nunca sei se vou parar a um post de 200 palavras num blogue ou a uma epopeia de dez mil palavras. No trabalho quero o primeiro, em casa quero o segundo.”

Há razões para crer que textos longos não fazem sentido na Internet, onde as distracções são tantas que chega a ser irritante. É difícil resistir ao impulso de ver, pela enésima vez, o email, o Twitter, o Facebook ou os sites de notícias.

Este ciclo de microdistracções deixa uma sensação desagradável de falta de concentração e de pouca produtividade. Há mesmo quem argumente, como é o caso do autor americano Nicolas Carr, que escreveu um best-seller sobre o assunto, que este fenómeno de atenção saltitante está a alterar o nosso cérebro e a retirar-nos a capacidade de pensar em profundidade – o tipo de pensamento que se consegue ao mergulhar num longo texto.

Carr diz haver uma tendência para o encurtamento da informação e entretenimento. Num texto publicado no seu influente blogue, Rough Type, escreveu: “Se olharmos para as estatísticas de consumo de informação, vemos indícios consideráveis desta tendência de décadas (...). A duração média de basicamente qualquer produto cultural – revistas, artigos de jornal, segmentos televisivos, soundbites, livros, correspondência pessoal, anúncios, filmes – revela uma compressão de tamanho constante (...). Estudos sobre leitura e investigação comportamental também sugerem que estamos a gastar cada vez menos tempo com cada objecto que passa pela nossa atenção.”

Entre a parafernália de solicitações do mundo digital, diz a teoria, não há lugar para tarefas demoradas e menos ainda para leituras aprofundadas. Muitos jornalistas e bloggers que escrevem online vivem sob a máxima de que tudo tem de ser curto, para ser consumido em minúsculos pedaços de informação facilmente digeríveis. Em parte, é por isto que tantos artigos são feitos sob a forma de lista: “Os dez cães mais corajosos”; “Cinco formas de ser mais produtivo no trabalho”; “Dez operações plásticas que correram mal” (todos exemplos verídicos).

A prática, porém, parece contrariar a teoria. Pelo menos desde que sugiram os smartphones, o iPad e o Kindle. Para além destes aparelhos (e por causa deles) há mais sites como o Longreads e há muitas aplicações concebidas para procurar e guardar artigos longos, que depois podem ser lidos no computador, no telemóvel ou em qualquer outro ecrã.

O erro dos media

As empresas de media e os jornalistas têm estado equivocadas na leitura que fizeram dos hábitos de leitura – a avaliação é de Ken Doctor, um ex-jornalista americano que é hoje analista de media e autor do livro Newsonomics: Twelve New Trends that Will Shape the News You Get (tradução livre: Economia das notícias: 12 novas tendências que vão dar forma às notícias que recebe).


Doctor argumenta ao PÚBLICO que o Google foi um dos culpados: “Na era da dependência do Google, entre 1998 e 2011, o Google parecia o centro do mundo noticioso, graças à pesquisa rápida e eficaz de notícias. Do sucesso do Google, concluímos que as pessoas só queriam ler excertos, histórias curtas ou resumos. Muitas vezes usamos o Google dessa forma, apenas para encontrar uma explicação rápida.”

Agora, observa, a tecnologia finalmente tornou-se apropriada a um tipo de leitura que nunca se perdeu. “Ler histórias longas nunca desapareceu, especialmente para os que gostam de entender as notícias, como os leitores tradicionais de jornais. O surgimento dos tablets veio prová-lo. Há sessões de leitura em papel em paralelo com a leitura digital. Gasta-se mais tempo a ler notícias e a ler histórias mais longas.”

Aaron Lammer, um dos dois jovens que em 2010 criaram um site chamado Longform (semelhante ao Longreads), concorda. “Sobretudo o iPhone, o iPad e o Kindle tiveram um enorme impacto” na forma como as pessoas hoje lêem. “O browser sempre foi uma ferramenta má para ler artigos longos. Pelo contrário, os tablets são excelentes suportes”, afirmou ao PÚBLICO.

Para todos os gostos

Em 2007, um informático dos arredores de Nova Iorque chamado Marco Arment, hoje com 29 anos e uma minicelebridade em alguns círculos de tecno-entusiastas, decidiu criar uma ferramenta que lhe permitia guardar artigos e lê-los mais tarde, com tranquilidade, quando fazia longas viagens de comboio a caminho do trabalho. Em Janeiro de 2008, resolveu lançá-la para o resto do mundo.


Naquela altura, o mundo era diferente. Ainda não havia o conceito de descarregar aplicações para o iPhone e os utilizadores tinham de se contentar com o punhado de aplicações básicas que a Apple pré-instalava no aparelho. O Instapaper começou, por isso, por ser um site muito simples.

Em meados de 2008, quando a Apple abriu a loja de aplicações, Arment decidiu criar uma. Foi um enorme sucesso.

Hoje, o Instapaper funciona no computador, no iPhone, no iPad (custa 3,99 euros) e ainda serve para enviar artigos para o Kindle. Tem dois milhões de utilizadores registados. O negócio é rentável o suficiente para ser o trabalho de Arment a tempo inteiro.

O serviço é extraordinariamente simples. O utilizador pode arrastar um botão, disponível no site do Instapaper, para a barra de favoritos do seu browser. Ao clicar no botão, é guardado o conteúdo da página que esteja aberta.

Os artigos podem ser lidos com uma grande vantagem: são despidos de anúncios publicitários e de outras distracções.

Com excepção do Kindle, onde o software da Amazon limita as funcionalidades ao dispor dos leitores, é possível escolher o tipo e tamanho de letra, se o fundo é escuro ou claro, qual o espaçamento entre linhas – há um cuidado tipográfico que muitos sites não têm.

Para além do Instapaper, há ainda o Pocket – que até esta semana se chamava Read It Later, mas que agora decidiu focar-se noutros conteúdos para além de texto – e o Readability. Este decidiu partilhar receitas com os produtores dos textos. Os utilizadores podem optar por pagar uma assinatura mensal e o site envia 70% para os autores e publicações que tenham aderido ao sistema. Há muitos outros serviços para além destes três, mas até os leitores mais exigentes deverão encontrar aqui algo que se ajuste aos seus gostos.

Envelhecer bem

Para completar este sistema de consumo de textos longos, faltavam os sites de agregação, como o Longreads e o Longform. Foi precisamente o Instapaper de Marco Arment que inspirou o lançamento de ambos, quando os criadores perceberam que estavam viciados em textos longos, mas já não tinham material suficiente para ler no Instapaper enquanto andavam de metro.


Navegar pelo vasto repositório destes sites é um mergulho quase exclusivo na imprensa anglófona (o Longform, disse Aaron Lammer, está a ponderar incursões noutras línguas, entre as quais o português.) E aquilo que as listas de artigos mostram é que não são apenas os textos longos que são apelativos.

Uma das surpresas é que os artigos nem sequer têm de ser sobre temas actuais para agarrar leitores. É frequente encontrar entre os mais lidos alguns textos escritos há décadas. E já há publicações que se aperceberam do valor dos respectivos arquivos. Recentemente, entre os mais populares no Instapaper, estava um artigo republicado no mês passado pela revista Fortune. Eram 6500 palavras sobre o retomar da indústria de vinho nos EUA após o fim da Lei Seca. Tinha sido escrito em 1934.

Lammer aponta um factor social que torna este tipo de leitura popular, incluindo entre jovens: estes artigos são bons assuntos de conversa: “Ler histórias longas e falar sobre elas é muito mais interessante do que ler posts em blogues e falar sobre eles.”