Crónica

O que tinha o saco branco de Marcelo Bielsa?

Bielsa num momento de reflexão em Alvalade
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Bielsa num momento de reflexão em Alvalade Foto: Francisco Leong/AFP

O argentino é uma personagem. Isso já toda a gente sabe ou o treinador do Athletic não carregava consigo a alcunha de “El Loco”.

A sala de imprensa do Sporting estava cheia de jornalistas, muitos deles bascos. O técnico argentino foi o primeiro a entrar, levava um saco plástico na mão e uma mala preta na outra. Sentou-se no primeiro lugar da mesa que ficava de frente para as cadeiras.

O assessor sentou-se ao seu lado, depois Iraola, o jogador escolhido para falar do jogo com o Sporting, e na ponta oposta a tradutora.

Enquanto Iraola falava sobre o jogo, as primeiras perguntas foram em basco, Bielsa ia descascando as pontas soltas de umas folhas A4 que levara – fê-lo demorada e minuciosamente durante largos minutos. Os óculos postos e presos por um fio davam maior carga ao ar de intelectual. Com a caneta ia escrevendo. O quê? As perguntas dos jornalistas, as respostas do seu jogador?

Quando chegou a sua vez manteve-se impávido, seráfico e recolhido no seu fato-de-treino cinzento do qual sobressaíam as letras Umbro e o símbolo do Athletic.

Não levantou a cabeça a nenhuma pergunta, manteve-a baixa. Bielsa é tímido, provaram-no as mãos fechadas uma na outra, os dedos apertados e os braços hirtos.

As respostas saíram secas. Esperava pela tradução para o português, parecia analisar. Interrompia e voltava atrás para acrescentar algo que lhe parecia em falta. Como quando um jornalista espanhol lhe perguntou em castelhano sobre a Repsol e a posição da Argentina.

Não respondeu. E quando o repórter insistiu, foi seco: "Pensei que o silêncio tinha servido como resposta". "A pergunta não é do âmbito do jogo e é absolutamente tendenciosa". Voltou atrás e, sem levantar os olhos, atirou: “É uma parte económica importante nas mãos do país”, disse referindo-se à posição argentina de não pagar a indemnização de 8 mil milhões exigida pela Repsol pela nacionalização da YPF.

Sendo impossível, só a uma tartaruga hábil, Bielsa encolheu-se ainda mais quando lhe disseram que Sá Pinto o colocara no mesmo patamar de Guardiola e Mourinho. “Agradeço o elogio, mas não sou comparável a nenhum desses treinadores, não tenho esse mérito”.

Foi tão ao lado quando foi instado a comentar o jogo ente o Barcelona e o Real Madrid do próximo sábado. “Uma resposta dessas exige intuição sobre algo a que esteja atento e neste momento estou concentrado no jogo com o Sporting”, afirmou. Voltaria atrás, claro, para acrescentar que não tinha capacidade para responder. Pediu desculpa. E levantou-se. Antes, esteve a conversar com Kidi Gomes de Segura, a tradutora de 29 anos que se mostrou muito atenta às tiradas do argentino.

Foi agradecer-lhe e dizer-lhe que, embora não sabendo português, o esforço empregue pareceu-lhe de louvar. Kidi disse que o tempo que Bielsa demora a responder e a elaborar as repostas permite-lhe traduzir mais fluidamente. É uma ajuda.

Marcelo Bielsa levantou-se e pegou no saco branco. Tinha jornais, muitos. De cada vez que viaja, mal sai do avião adquire todo o material jornalístico desportivo com o qual se cruza. Chegam-lhe diariamente cinco publicações de todo o mundo e pela Internet é assinante de uma dezena mais. É um leitor assíduo do espanhol “El País”. Era isso que carregava.

Depois foi para o treino, onde no relvado já estavam dezenas de marcas que obriga os seus adjuntos a colocar para administrar mais um treino. Agora, em Alvalade.

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