Índia

Saroo volta a casa, 25 anos depois

Saroo Brierley com a mãe, Kamla, de quem esteve separado 25 dos seus 30 anos de vida
Foto
Saroo Brierley com a mãe, Kamla, de quem esteve separado 25 dos seus 30 anos de vida Foto: <a href="http://www.themercury.com.au/article/2012/03/10/308081_tasmania-news.html" target="_blank">The Mercury</a>

É uma incrível história de reencontro potenciado pela tecnologia do século XXI. Escritores e produtores têm-na em mira para uma adaptação ao cinema. O indiano Saroo tinha cinco anos quando se perdeu da família. Vinte e cinco anos depois, conseguiu voltar ao sítio onde nasceu, com a ajuda do Google Earth.

Em 1986, Saroo – de cinco anos – e o irmão mais velho já trabalhavam. Ambos limpavam o chão das carruagens nos caminhos-de-ferro indianos. Um dia, Saroo adormeceu numa estação e quando acordou não viu o irmão. Decidiu por isso entrar no comboio que estava à sua frente nesse momento, certo que iria voltar a encontrá-lo.

Uma vez dentro do comboio, Saroo voltou a adormecer e, quando acordou, estava a chegar a Calcutá, a terceira maior cidade indiana. Estava completamente sozinho e sem saber como voltar. Como era muito pequeno, não se lembrava do nome da sua cidade.

A partir desse momento Saroo entrou em modo sobrevivência numa cidade onde milhões de pessoas vivem miseravelmente. “Era um sítio assustador. Não creio que nenhuma mãe ou pai quisessem ter os seus filhos de cinco anos sozinhos naquelas favelas e estações de comboio de Calcutá”, recorda Saroo Brierley, agora já adulto, em declarações à BBC.

O rapaz depressa percebeu que, se quisesse sobreviver, teria de começar a pedir dinheiro e a fugir de problemas. Não confiava em ninguém. Uma vez foi abordado por um homem que lhe prometeu casa e comida, mas os seus instintos disseram-lhe para fugir. Assim fez. Finalmente conseguiu ir parar a um orfanato, cujos responsáveis o listaram como estando disponível para adopção.

Um casal que vivia na ilha da Tasmânia acabou por adoptar Saroo. “Aceitei o facto de que estava perdido e que não conseguiria voltar para casa, por isso achei que era bom ir para a Austrália”, recorda Saroo Brierley, citado pela BBC.

Porém, à medida que crescia, o desejo de Saroo voltar a ver a sua família biológica foi crescendo. Mas a tarefa era praticamente impossível. Saroo só tinha memórias visuais mas nenhuma informação textual válida que o ajudasse a procurar no sítio certo. Começou, por isso, a esquadrinhar a Índia com a ajuda do Google Earth. Passou horas em frente ao computador à espera de conseguir ver algum local que lhe parecesse familiar. Sem sucesso. Às tantas mudou de estratégia: “Multipliquei o tempo que fiquei no comboio [o que o levou até Calcutá] – cerca de 14 horas – pela velocidade dos comboios indianos e cheguei a uma distância aproximada: cerca de 1200 quilómetros.”

A partir daqui Saroo traçou um círculo com um raio de aproximadamente 1200 quilómetros em torno de Calcutá. Depressa o indiano identificou a palavra que há tantos anos desejava ouvir: Khandwa. O nome da sua terra natal. “Quando descobri esta terra, fiz zoom sobre ela e ‘bang’, lembrei-me de tudo. ‘Naveguei’ por toda cidade de Khandwa, até à cascata onde costumava brincar.”

Reencontro e perda

Depois de identificar o seu local de nascimento, Saroo fez-se ao caminho. Partiu para a Índia e deu por si diante da porta da sua antiga casa, no bairro de Ganesh Talai. Imediatamente percebeu que já não vivia ali ninguém e por isso começou a interrogar os vizinhos. À medida que se foram aproximando mais pessoas, as informações foram aparecendo. Às tantas, um vizinho disse-lhe: “Espere aqui uns segundos que eu já volto.” Quando voltou, disse-lhe: “Agora vou levá-lo à sua mãe.”

“Senti-me dormente e pensei: ‘Será que eu acabei de ouvir isto?’”, explica Saroo. Era verdade. Pouco depois estava na presença da mãe, que de início não reconheceu. “A última vez que a tinha visto ela tinha 34 anos e era bonita, tinha-me esquecido que a idade levaria a melhor sobre ela. Mas a sua estrutura facial não tinha mudado e eu reconheci-a. Disse-lhe: ‘Sim, és a minha mãe’. Ela agarrou-me pela mão e levou-me para casa dela. Não conseguiu dizer-me nada. Calculo que estivesse tão dormente como eu. Teve alguma dificuldade em perceber que o seu filho tinha reaparecido, como um fantasma, após 25 anos.”

Foi durante o reencontro com a mãe que Saroo foi informado que o seu irmão de quem se tinha separado em criança já não estava vivo. Um mês depois de se terem perdido um do outro, o irmão mais velho morreu atropelado por um comboio. “Nós éramos muito chegados e quando abandonei a Índia a coisa que mais me custou foi saber que o meu irmão tinha morrido”, recorda Saroo.

Agora que já conhece a sua família, com a qual mantém o contacto, o jovem adulto diz que está mais descansado. “Tiraram-me um peso das costas. Agora durmo muito melhor”, diz.