Bem-vindos a bordo do novo Titanic

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O Titanic Belfast voltou a pôr a cidade no mapa turístico mundial PETER MUHLY/AFP

Belfast, com um passado turbulento, ficará para sempre associada à construção do palácio flutuante que na noite de 14 de Abril de 1912, há precisamente 100 anos, embateu num icebergue, provocando a morte de mais de 1500 pessoas. Viagem pela capital da Irlanda do Norte, com escala, no dia da inauguração, no Titanic Belfast, o novo espaço interactivo que conta histórias da maior lenda da história marítima.

Peter Rogers, 65 anos, barba e cabelo da cor da neve, olhos protuberantes e mortiços, segura nas mãos um livro antigo sobre a história do Titanic, olhando com uma certa indiferença o formigueiro humano que se move, como um tumulto das ondas, pelos corredores de St. George, mercado a funcionar desde 1896 e hoje, dia em que o visito, cheio de cor, de vida, de cheiros.

- O meu avô, Joe Simpson, que Deus o tenha, trabalhou na construção do Titanic.

O sol banha de luz os telhados envidraçados e lança madeixas sobre homens e mulheres que fitam preguiçosamente, enquanto tomam o pequeno-almoço, a banda que agora toca uma música alusiva ao transatlântico.

- Diz-se tanta coisa, inclusive que o acidente pode ter sido provocado por um acto de sabotagem. A verdade, quer se queira, quer não, é que o Titanic ficará para sempre associado à história de Belfast e continuará a atrair, ano após ano, um grande número de visitantes. E sabe o que é curioso para a sua história?

Uma jovem bela, com um vestido azul e um olhar dócil, recorta-se de pé no centro do mercado, como se estivesse vestida para embarcar no Titanic. Eu olho o olhar de frialdade de Peter Rogers, que cofia a barba desalinhada, e aguardo a resposta:

- Foi construído por irlandeses e afundado por ingleses. Não deixe de escrever o que lhe digo.

A manhã desponta repleta de luminosidade e eu dirijo-me para a May Street, depois para a Oxford Street, àquela hora mergulhada no silêncio, lanço um olhar furtivo ao edifício neo-clássico que abriga as Cortes Reais da Justiça, bombardeado pelo IRA em 1990, e de imediato desaguo na renovada zona ribeirinha, detendo-me por instantes a observar um barco ancorado no cais que oferece à contemplação, numa pequena janela lateral, uma miniatura do Titanic.

As águas do rio Lagan, prateadas pelo sol, correm suavemente e, no horizonte, sobre o fundo azul do céu, destacam-se as gruas amarelas da Harland and Wolff, uma espécie de farol, visível de diferentes pontos da cidade, que guia os turistas com menos sentido de orientação. São as famosas Sansão e Golias, com 106 e 96 metros de altura, respectivamente, um reflexo de um passado glorioso que teima em perpetuar-se no tempo, dois braços tão fortes que eram capazes de erguer até 840 toneladas e de vital importância para a construção de barcos de grande porte - mas não o Titanic, já que apenas foram elevadas aos céus em 1970.

Atravesso a Queen"s Bridge, com os seus candeeiros ornamentados, apreciando languidamente a primeira importante contribuição do arquitecto inglês do século XIX, Charles Lanyon, para a renovação da paisagem urbana de Belfast, caminho junto ao rio ouvindo o marulho das águas, até me embrenhar no Quarteirão Titanic, um projecto de regeneração orçado em mil milhões de libras cujo plano passa por transformar, em 20 anos, esta área das docas durante tanto tempo votada ao abandono.

Dois viandantes fotografam a escultura do Titanic, legitimamente na sua posição vertical, e meia dúzia de crianças brinca com os skates nos passeios asseados, enquanto uma jovem, sentada na esplanada do café, desenha com um olhar sonhador que por vezes se perde no infinito. De repente, dobrada a esquina dos novos prédios de apartamentos, avista-se ao fundo o que parece ser a proa de um navio, reluzindo à luz do sol que sobe e lança os seus raios resplandecentes. Apresso o passo, ao longo da Queen"s Road, como se de repente fosse abanado por um frémito de vida e, incapaz de resistir ao magnetismo que aquela luz prateada que fulgura nos meus olhos exerce sobre mim, chego em poucos minutos ao local onde se concentra uma multidão que observa, sem conseguir desprender o olhar, aquela beleza harmoniosa.

- O meu tio-avô, Hugh Rooney, trabalhou nos estaleiros da Harland and Wolff, na construção do Titanic - enfatiza Martin McGuinness, número dois do executivo de Belfast e anterior candidato às presidenciais pelo Sinn Féin, antigo braço político do IRA, agora inactivo.

A fita azul é cortada por Martin McGuinness e pelo primeiro-ministro, Peter Robinson, inaugurando oficialmente o Titanic Belfast, obra desenhada por Eric Kuhne que demorou seis anos a ser concluída e que teve um custo de 97 milhões de libras (aproximadamente 120 milhões de euros).

Eu desvio-me um pouco daquele cerimonial, até uma parte lateral, sentando-me num banco ao lado de uma senhora que parece meditar de olhos postos naquela jóia arquitectónica.

- Não, não vou entrar. Vim aqui apenas pela curiosidade. Foi precisamente neste lugar, antigamente uma doca seca, que construíram o Titanic. Há 22 anos, trabalhei aqui próximo, naquele edifício que se vê ao fundo (nas traseiras do Titanic Belfast), na altura um armazém de móveis, o Upholstery Department, e passava aqui quase todos os dias de autocarro.

Joan Boyd, 80 anos, desvia os olhos dos meus olhos e pousa-os novamente naquela espécie de Ópera de Sydney. Já não tanto pela curiosidade mas mais para esconder uma lágrima que lhe assoma às pestanas.

- Peço desculpa, este é um momento que me provoca uma profunda nostalgia. Desculpe - desabafa Joan Boyd, antes de me falar um pouco da sua vida solitária, sem marido, sem filhos, apenas próxima de uns primos afastados.

Construção

O sol lança os raios estilhaçados sobre aquele gigante de prata em cujo interior a alegria dos primeiros visitantes e o sorriso de mulheres vestidas como na época, no início do século passado, contrasta com a tristeza de Joan Boyd, que acabo de deixar mergulhada na sua melancolia e em recordações agridoces. Um mar de gente, revolto, acotovela-se na loja das recordações, no piso térreo, ao lado do restaurante, e sofre nova onda de agitação quando a música gospel inunda aquele espaço e transporta o presente para o passado. A primeira sensação, que apenas se desmorona no primeiro andar, na antecâmara de entrar no museu interactivo, remete-me para um barco, como se também eu, num período diferente, me preparasse para uma viagem a bordo do transatlântico que é - e provavelmente continuará a ser por muitos anos - a maior lenda da história marítima.

- Esperamos receber, só no primeiro ano, mais de 400 mil visitantes -, confidencia uma das jovens responsáveis pela imprensa, representada em bom número e vinda das mais distintas proveniências.

Olho a fila que enche parte do hall, serpenteando por aqui e por ali, e deixo-me conduzir pelas escadas rolantes para obter uma panorâmica daquela gente aparentemente tão elitista mas que se move sem qualquer pretensiosismo, como se estivesse no Mercado de St. George e não tomando parte num acontecimento histórico que esgotou a lotação de muitos dos hotéis de Belfast.

Sinto que a viagem vai começar, uma viagem futurista que não despreza o passado e que começa por me mostrar, na primeira galeria, retalhos da vida da próspera Belfast há cem anos. Logo reconheço a Torre do Relógio, mais conhecida por Albert Memorial Clock Tower, erguida em 1867 em homenagem ao falecido marido da Rainha Victoria, a mesma torre por onde passara, no dia anterior, no extremo leste da High Street, interpretando a sua inclinação para sul - a Torre de Pisa não tem o exclusivo - como se de uma vénia à minha pessoa se tratasse. Perscruto os lugares e os sons de uma cidade então virada para a indústria, com uma população que ascendia a 400 mil habitantes, contra os apenas 25 mil no início do século XIX - e os números são ainda mais relevantes se pensarmos que o país viveu em declínio durante meio século, devido à fome da batata e à consequente emigração, a maior parte tendo os Estados Unidos como destino.

Este crescimento demográfico ficou a dever-se, em larga escala, ao advento da indústria e especialmente da indústria naval, um boom que atraiu dezenas de milhares de católicos irlandeses do mundo rural - e se em 1784 não constituíam mais de 8% da população, em 1911, ano do lançamento do Titanic, a percentagem triplicara, motivando uma tensão entre católicos e protestantes que foi sendo exacerbada até aos acordos de paz em 1998.

Aos mais desatentos pode parecer que nada tem a ver para o caso. Mas tem. À minha frente, na galeria 2, desenham-se os estaleiros da Harland & Wolff, onde nasceu o Titanic, a maior entidade empregadora de Belfast nos primórdios do século passado, com 14 mil trabalhadores, três mil dos quais envolvidos na construção do transatlântico durante dois anos. Os empregados obedeciam a regras rígidas e os prevaricadores eram não raras vezes penalizados com multas - por fumarem, por aquecerem água para o chá durante as horas de trabalho (dez minutos antes do intervalo equivalia à perda de metade do que ganhavam num dia) e em locais interditos ou até por jogarem futebol com rebites - que agem como uma cola segurando toda a estrutura dos navios. Esta última proibição, verdadeiramente bizarra, ganhou há relativamente poucos anos uma explicação que, de acordo com alguns cientistas, pode ajudar a perceber a tragédia. Para dar vida ao Titanic foram utilizados três milhões de rebites e, face aos planos colossais de construção e à carência de material, os responsáveis da Harland & Wolff foram obrigados a recorrer a pequenas fundições que tendiam a oferecer menor qualidade; ao mesmo tempo, em vez de utilizar rebites de aço, como fez a grande rival Cunnard com o Lusitânia, a Harland & Wolff apenas os usou na parte do barco onde eram esperadas maiores pressões (o corpo central), optando pelos de ferro para a popa e a proa do navio - e foi a proa que o icebergue atingiu, aventando-se a tese, prontamente refutada pelos estaleiros de Belfast, de os rebites terem perdido as cabeças, permitindo a entrada de toneladas de água gelada.

Não era fácil a vida dos trabalhadores dos estaleiros, sujeitos a condições precárias e a uma carga horária desumana num tempo em que grassava a miséria e a maior parte das mulheres se dedicava apenas a tarefas domésticas. Cada empregado tinha na sua posse um número estampado num pedaço de madeira, um cartão pessoal do tamanho de um maço de tabaco mas mais estreito. Se, por qualquer razão, um trabalhador se dirigia à casa de banho durante o horário de expediente, era abordado por um escriturário que lhe solicitava a identificação ou, como era conhecido nos estaleiros, o board. Para um aprendiz, este procedimento, no primeiro dia de trabalho, poderia parecer normal mas rapidamente assimilava a anormalidade da sua decisão quando ouvia, logo de imediato, da boca do escriturário que apenas era permitido ir aos lavatórios durante sete minutos no período da manhã e outro tanto à tarde. Nos estaleiros da Harland & Wolff, na altura a maior construtora naval do mundo, ninguém, entre a classe operária, dizia que ia à casa de banho - antes que ia aos minutos.

De repente, ouve-se um barulho enorme e um segurança manifesta o seu nervosismo, correndo para a zona onde opera um elevador. Por instantes, recupero uma imagem daquela manhã, quando questionei um polícia sobre os motivos de algumas ruas estarem cortadas ao trânsito e vedadas à circulação pedonal.

- Um alerta de segurança - e mais não disse.

Neste templo futurista evoco as sombras de um passado turbulento nas ruas de Belfast e sinto-me capaz de citar as palavras do primeiro-ministro no discurso que precedeu a abertura oficial do Titanic Belfast.

- Juntos, seremos fortes; divididos, seremos fracos -, afirmou Peter Robinson, aludindo ao processo de paz.

Nada se passara e, sem receios, encontro-me agora, na companhia de um casal irlandês, à espera de experimentar o Arrol Gantry, um impressionante elevador atmosférico em metal que é uma versão do pórtico original de aproximadamente 70 metros, essencial para a construção do Titanic.

- Esta é uma visita imperdível, não acha?

Respondo afirmativamente à senhora e na minha imaginação pinta-se o espectáculo proporcionado por 15 cavalos puxando pelas ruas de Netherton, até à estação de comboios de Liverpool - e daí embarcou para Belfast -, uma âncora de 15 toneladas para o Titanic (teve um custo total de 1,5 milhões de libras num tempo em que o comandante, Edward Smith, então com 62 anos, auferia um salário mensal de 105 libras). O transatlântico, desenhado nos escritórios da Harland & Wolff, uma enorme sala abobadada de tecto alto que ainda hoje pode ser visitada, pesava 46.328 toneladas, 18 metros de altura desde a linha de água, 28 metros de largura e quase 270 de comprimento - colocado na vertical, o Titanic media quase o dobro da Grande Pirâmide de Gizé, no Egipto, ou da Basílica de São Pedro, em Roma, ao mesmo tempo que superava os prédios mais altos da época, como o New Woolworth, em Nova Iorque.

Da terra para o mar

- Os meus pais levaram-me pela mão até às docas de Workman and Clark para assistir ao lançamento porque havia muita gente na Harland & Wolff. Lembro-me de uma enorme multidão, tinha eu na altura quatro anos e meio, e de ver aquela massa de metal a deslizar.

Hoje com 105 anos, Cyril Quigley, convidado de honra no dia da inauguração do Titanic Belfast, é seguramente a única testemunha de um momento sem paralelo na história marítima. A 31 de Maio de 1911, uma quarta-feira, um dia quente e cheio de sol, o Big "Un (diminutivo de unsinkable, que significa inafundável), como era afectuosamente conhecido entre homens e mulheres que o construíram e o dotaram de todos os luxos, fez a transição entre a terra e a água. "O navio deslizou sobre o rio (Lagan) com uma elegância e uma dignidade tais que, no momento, deu a impressão de estar consciente da sua própria força e beleza, e ouviu-se um rugido de aplausos quando as vigas em que esteve apoiado cederam à pressão que sobre elas foi colocada. O Titanic entrou em contacto com a água como se estivesse ansioso pelo baptismo e em 62 segundos ficou completamente liberto da doca seca."

Este momento épico, ricamente descrito nas páginas do Belfast News Letter, foi testemunhado por mais de 100 mil pessoas que, precisamente um quarto de hora depois do meio-dia, tal como estava previsto, pousaram os olhares naquele palácio flutuante, a excelência do luxo e do conforto. Como se de um prenúncio se tratasse, o 401, como era designado antes do primeiro contacto com a água, começou por fazer logo uma vítima. James Dobbins, ocupado a retirar maciças traves de madeira por baixo do casco para facilitar a entrada do barco na água, foi atingido por uma viga e ficou preso debaixo dela. Os companheiros ainda tentaram resgatá-lo mas as lesões sofridas acabariam por provocar a sua morte, horas depois, no hospital - na construção do navio foram contabilizados 246 feridos, alguns com tal gravidade que ficaram incapacitados para o trabalho, e oito mortos.

Entre aquele mar de gente, ébrio de alegria e de orgulho, ninguém se apercebeu da tragédia e muitos dos trabalhadores não estavam sequer presentes - aquele era um acontecimento histórico que, mesmo num tempo de miséria e de fome, justificava o sacrifício inerente à perda de um dia de trabalho.

Deambulo por mais uma galeria do Titanic Belfast, depois por outra, confronto-me com o requinte com que foi concebido, observando atentamente as reproduções das cabinas de primeira, segunda e terceira classes, as zonas comuns, os restaurantes, o ginásio, os banhos turcos, as salas das máquinas, tanta opulência; detenho-me para tentar perceber como foram criados certos mitos, os filmes que motivou (aquele que foi realizado por James Cameron, em 1997, agora de volta às salas, foi o mais caro de sempre da história cinematográfica mas rendeu até finais de 2010 qualquer coisa como 1,8 milhões de dólares, cerca de 1,4 milhões de euros), as histórias de vida e de morte que ficarão para a eternidade.

Percorro os espaços como se também eu vivesse na angústia de partir a bordo daquele gigante dos mares, aquela verdadeira cidade que se julgava estéril de perigos, que tanto abrigava uma elite endinheirada como humildes trabalhadores em busca do sonho americano - e é bom não esquecer, para melhor se perceber o projecto da White Star Line, a empresa que mandou construir não apenas o Titanic mas também o Olympic e o Britannic, que só na primeira década do século XX oito milhões de emigrantes da Europa desembarcaram em Nova Iorque. Comparo as incomparáveis ementas da terceira e da primeira classe para 14 de Abril de 1912, o dia fatídico, e deixo que o olhar se demore um pouco mais na extensa lista com que o Titanic foi sendo abastecido nos diferentes portos onde fez escala (depois do primeiro contacto com a água, a 31 de Maio de 1911, o transatlântico permaneceu na capital da Irlanda do Norte até 2 de Abril do ano seguinte, para que os trabalhos no interior fossem concluídos). Os números são, uma vez mais, impressionantes e reveladores da grandiosidade do navio e de que como era a vida no Titanic antes de encontrar a morte: 34 mil quilos de carne, 5000 quilos de peixe fresco, 3400 de bacon e fiambre, 40 mil ovos, 1130 quilos de salsichas, 1600 quilos de cebolas, 36 mil maçãs, 1250 quilos de ervilhas frescas, 2750 quilos de tomate, 40 mil de batatas, 20 mil cervejas, 15 mil garrafas de água mineral, 1500 de vinho e oito mil cigarros.

Numa quarta-feira, dia de partida dos navios da White Star Line, à uma da tarde, o povo erguia os braços para se despedir do palácio flutuante que se preparava para deixar Southampton. Estávamos a 10 de Abril de 1912.

A meio de uma manhã de uma luz mitigada, chego ao portão principal do porto desta cidade inglesa. Vou ao encontro de um agente que me tira as medidas, como anteriormente tirei as do Titanic para informar o leitor, e identifico-me.

- Benfica?

O escocês, adepto do St. Mirren, olha-me nos olhos com um sorriso:

- Vou chamar o meu supervisor.

Daí a uns breves minutos, o responsável, com problemas de locomoção, aborda-me:

- Caminhe até àquele edifício que vê à sua direita e diga o que pretende ver e fotografar.

Antes de chegar aos Estados Unidos, o Titanic ainda tinha escalas previstas em Cherbourg, em França, e em Queenstown, na Irlanda - actualmente rebaptizada Cobh, transportando a partir daqui 1316 passeiros e 882 membros da tripulação, num total de 2208.

Deixo que os meus passos percorram aquele curto trajecto. Fico à espera, não muito tempo, e uma senhora simpática, até essa altura oculta num gabinete, cruza o olhar com o meu no momento em que assoma à porta e sorri. Preencho um documento e recebo na mão direita um colete reflector que ela me estende com a mão esquerda. E, juntos, caminhamos, recebendo na face a brisa do mar.

- Está a ver aquelas carrinhas brancas à sua esquerda?

Olho e vejo um barco sulcando as águas na direcção do porto. E vejo também as carrinhas brancas.

Lorrane Nottley fita-me para se certificar de que vira mesmo.

- Foi precisamente dali que partiu o Titanic.

Depois de deixar Queenstown, e numa altura em que deslizava a uma velocidade superior à que registara até aí, o Titanic atingiu as águas geladas da costa de Newfoundland. Estávamos a 14 de Abril, a escassos 20 minutos da meia-noite, uma noite em que o mar estava manso. O icebergue, avistado pouco antes, não pôde ser contornado e a colisão tornou-se inevitável, danificando a parte direita do navio. A água infiltrou-se em alguns dos compartimentos dianteiros e a proa não tardou a inclinar-se, numa altura em que muitos passageiros dormiam. Thomas Andrews, que desenhara o barco, informou o capitão Edward Smith de que ao Titanic restava entre uma hora e meia a duas horas de vida. Não mais. Cinco minutos após a meia-noite, foram dadas ordens para preparar os barcos salva-vidas. Alguns dos passageiros mostraram-se relutantes em abandonar o conforto do navio, preterindo a única solução de recurso. Muitos dos barcos salva-vidas, escassos face ao número de passageiros, partiram com metade dos lugares por preencher. Mulheres e crianças tinham prioridade mas, contrariando o estabelecido, Bruce Ismay, presidente da White Star Line, saltou para o penúltimo a partir. Eram duas e dezoito quando as luzes desapareceram, dois minutos depois o mar engolia a cidade flutuante e com ela tantos sonhos. A frieza dos números desta vez quase podia ser dispensada. Mas o leitor exige saber: 705 sobreviventes e 1503 mortos.

Abarco com um olhar global o porto de Southampton e recordo o sorriso, um dos últimos, numa fotografia, de Millvina Dean, apenas dois meses de idade quando entrou, precisamente neste lugar, no Titanic. Era a última sobrevivente do rei dos mares (contava 97 anos) quando morreu, em 2009. A 31 de Maio, ironia do destino, o mesmo dia, 98 anos depois, em que o Titanic tocou pela primeira vez as águas do rio Lagan, em Belfast.

Vejo o barco, cada vez mais próximo do porto, outra vez as carrinhas e por momentos julgo ver, voando ao sabor do vento, as cinzas de Millvina Dean, que aqui, nestas águas, viu cumprido o último desejo (os restos mortais foram lançados ao mar pelo seu companheiro de muitos anos, Bruno Nordmanis). O Titanic descansa no fundo do mar, a quase quatro mil metros de profundidade, Milvina Dean descansa em paz. Ela não tinha uma única memória do Titanic mas o Titanic haverá de ficar por muitos anos na memória de tantas famílias. Ao inafundável ninguém acreditava que acontecesse o impensável.

É como se a banda continuasse a tocar "Mais perto, meu Deus, de ti."