Crítica

Tabu

Na sua curta de 2003, "31", Miguel Gomes anunciava que algo se movia por baixo dos escombros. Era um momento de crise de crescimento, o cineasta estava à beira da primeira longa, "A Cara que Mereces" (2004). Já tinha havido uma comunhão perfeita, o travelling puxado pela Ave Maria de Schubert sobre as figuras do presépio ("Inventário de Natal", 2000) e a partir daí os filmes passariam a assumir um rasgão ao meio, com primeira e segunda parte. Como se, finda a possibilidade de o mundo ser experimentado ao nível das miniaturas, nos escombros dessa felicidade (tal como se podia ser feliz nas miniaturas de Takeshi Kitano), nesse intervalo entre o desejado e o possível que se alargou cada vez mais, sobrasse espaço para os fantasmas. Os filmes passaram então a criar uma disponibilidade para eles. Não como horizonte de dissidência; como alternativa ao que se chama “a realidade” - é o manifesto político e cinematográfico no cinema de Gomes.


"Tabu" é um filme em que alguém sonha de olhos abertos (era o que fazia a personagem Nicolau em "A Cara que Mereces"). Está sempre à beira de ser tomado, invadido pela ameaça (macacos peludos, por exemplo) que sai dos olhos enormes de Laura Soveral, essa Aurora suavemente enlouquecida numa Lisboa de escombros e sombras, inerte como as florestas de plástico que decoram centros comerciais. A ameaça cumpre-se, paraíso reencontrado, uma África de King Kong: é ver um filme a sonhar com cinema, a deixar-se devorar pelos seus fantasmas (entrega que só encontra paralelo, hoje, em Apichatpong Weerasethakul.) E se dessa ameaça se vinha abeirando a obra do realizador, até aqui nunca se tinha encontrado, num cinema fixado nos calções de uma infância prolongada até ao insustentável (Kalkitos era já um esgar assumido), tamanha ternura para com os “velhos”. E há muito tempo no cinema português - talvez desde "Amor de Perdição", de Oliveira/Camilo (1978) - que uma voz off não atirava as histórias para o mundo, tornando-as irreversíveis. Miguel Gomes chama-as a si, encantando-as com uma dança do ventre - aquilo que do melifluo João César Monteiro deixou nele. Oliveira e César: sem pastiche, a partilha de uma idiossincrasia - uma forma pessoal, e orgânica, de sonhar de olhos abertos com o seu próprio património de fantasmas.