Portugueses nas Malvinas entre milhares de aves

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New Island é um santuário de aves marinhas, que a procuram na época de reprodução, como os albatrozes-de-sobrancelha MIGUEL LECOQ

Faz uma década este ano que uma equipa portuguesa procura desvendar o segredo do declínio dos albatrozes. O drama mundial destas aves, que passam anos no mar sem avistar terra, pode dar pistas sobre o estado dos oceanos

Há uma ilha do arquipélago das Malvinas que bem podia levantar voo de repente. Chama-se New Island e, com 84 quilómetros de costa, é um santuário para dois milhões de aves marinhas, que a enchem de asas e penas, em tons de branco e preto. Doze mil casais de albatrozes fazem lá os ninhos, assentes em pilares de lama, ao lado de corvos-marinhos e pinguins-de-penacho-amarelo.

Desde 2002 que uma equipa de seis cientistas portugueses viaja até New Island para fazer um estudo a longo prazo de uma das 22 espécies de albatroz, o albatroz-de- -sobrancelha (Thalassarche melanophris), classificada como ameaçada de extinção desde 2003 pela União Internacional de Conservação da Natureza.

"Todos os anos nos revezamos e passamos no total cinco a seis meses nas Malvinas, entre Outubro e Março", durante a época de reprodução do albatroz e num período em que as condições meteorológicas são mais clementes, diz o ornitólogo José Pedro Granadeiro, do Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

Agora está a chegar o Inverno a New Island. Centenas de crias de albatrozes estão a deixar o ninho e a voar sozinhas, pela primeira vez, para o mar. Só regressarão a terra três ou quatro anos depois.

Durante as temporadas científicas, os investigadores portugueses andam no meio de milhares de albatrozes para conhecer ao pormenor as colónias e descobrir se estes animais estão numa rota de declínio ou de recuperação a longo prazo. É este um dos maiores objectivos do projecto de investigação a longo prazo do albatroz-de-sobrancelha, que faz parte do Programa Polar Português, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, e que conta ainda com o apoio do Governo das Malvinas e do Fundo de Conservação de New Island.

"Os dias de trabalho são muito longos, para aproveitarmos a luz do Sol, das 4h às 22h", conta José Pedro Granadeiro. "Todos os anos marcamos aves com anilhas coloridas, como se fossem bilhetes de identidade para a vida, e contamo- -las para saber quantas não voltaram à colónia e ainda como está a correr a reprodução", acrescenta Miguel Lecoq, investigador do ISPA - Instituto Universitário, outro membro da equipa. Os albatrozes apenas põem um ovo por ano e só começam a reproduzir-se a partir dos dez anos de idade.

Outra área de estudo é a dieta destas aves, que têm uma envergadura de asas de mais de dois metros e pesam quase cinco quilos. "A quantidade de alimento disponível está muito relacionada com as oscilações nas temperaturas das águas do oceano", explica ainda Miguel Lecoq. "Isso ajuda-nos a perceber qual o impacto das alterações do clima no meio marinho. Há espécies que são adaptáveis e há outras que falham a reprodução, se a sua presa principal desaparece. O albatroz é uma espécie razoavelmente generalista."

O método para ver o que as aves têm no estômago é mais simples do que parece à primeira vista. "Escolhemos apenas os juvenis, porque, normalmente, quando são agarrados vomitam quase espontaneamente, numa atitude de defesa contra predadores exclusiva dos juvenis. Depois, com jeito, recolhemos as amostras", conta José Pedro Granadeiro.

Estudar a dieta dos albatrozes dá ainda pistas sobre se os animais estão, ou não, a seguir os navios-fábrica que operam na plataforma da Patagónia e a alimentar-se dos restos que são deitados fora. A morte acidental das aves, apanhadas nas artes de pesca, é de momento a maior ameaça à sua sobrevivência.

Actualmente, as aves marinhas são as mais ameaçadas de todas as aves do mundo, alerta um artigo da equipa de John Croxall, do British Antarctic Survey, na edição de Março da revista Bird Conservation International. E das aves marinhas, os albatrozes e os pinguins são os que estão em maior perigo.

Apanhados na rede

Paulo Catry, ornitólogo do ISPA, foi dos primeiros a trabalhar nas Malvinas: em 2002, fez as primeiras anilhagens de albatrozes-de-sobrancelha, para saber qual era o estado de conservação da população.

"Os albatrozes são aves espantosas e naquela ilha existem em grande número. Um dia, uma turista perguntou-me, genuinamente preocupada, como é que conseguíamos nós, cientistas, dar de comer a todos aqueles milhares de aves", recorda, a sorrir, no seu gabinete em Lisboa, semanas depois de mais um regresso de New Island. Mas não é esta a grande preocupação dos cientistas.

Nas últimas décadas, as populações de albatrozes, aves que habitam nas zonas mais ventosas do planeta e vivem mais de 40 anos, têm diminuído, principalmente por causa das mortes acidentais nas artes de pesca dos navios-fábrica.

Todos os anos, Paulo Catry e os colegas seguem a linha de trabalho de outros cientistas que já alertaram para o declínio dos albatrozes, como o australiano Nigel Brothers, do Departamento de Vida Selvagem e Parques da Tasmânia. Nigel Brothers foi o primeiro a ligar a diminuição do número de albatrozes à actividade dos navios pesqueiros. Em 1991, concluiu que os navios japoneses de pesca ao atum nas águas da Tasmânia matavam, pelo menos, 44.000 albatrozes por ano.

"As aves são atraídas pelos navios- -fábrica, porque, ao processarem o pescado a bordo, deitam borda fora aquilo que não aproveitam", explica Miguel Lecoq. E o albatroz-de- -sobrancelha "é muito susceptível" a esta ameaça.

"Milhares de aves seguem os navios e ficam presas em anzóis e redes ou colidem com os cabos cortantes dos barcos de arrasto", que lhes retalham as asas, acrescenta José Pedro Granadeiro. "Pensámos que este era um problema muito grande. Por isso, quisemos quantificar a importância dessa ameaça nesta espécie, cruzando informações obtidas por [aparelhos] GPS colocados nalgumas aves com os dados cedidos pelo Governo das Malvinas sobre a localização dos navios.

Num artigo publicado em Março de 2011, na revista PLoS One, a equipa portuguesa concluiu que o impacto das colisões é menos importante do estava à espera: "Os animais aproximam-se dos navios e utilizam- -nos, mas estão lá pouco tempo e não parecem depender muito dessas pescarias, o que, de certa maneira, são excelentes notícias."

Um laboratório vivo

Os 2011 hectares de New Island são reserva natural desde 2005, e toda a ilha é gerida pelo Fundo de Conservação de New Island, uma organização privada sem fins lucrativos. A equipa portuguesa trabalha, pois, neste laboratório vivo.

"Apostámos trabalhar tão longe de Portugal porque nas Malvinas estão reunidas condições que nos permitem avançar mais rapidamente na investigação científica", diz José Pedro Granadeiro. "As condições são bastante boas", acrescenta Miguel Lecoq. "Quando estudamos albatrozes, não é como ir passear a New Island e voltar. Seguir estas aves implica um esforço muito grande e uma infra-estrutura que é difícil encontrar em muitos locais. Ali existia essa infra-estrutura, e nós também ajudámos a melhorá-la."

Além disso, as Malvinas albergam dois terços da população mundial de albatrozes-de-sobrancelha. "Se alguma coisa estivesse a acontecer, ali era provável que isso afectasse a população global da espécie." O albatroz, que voa milhões de quilómetros ao longo da vida, em viagens épicas através de vários oceanos, é a prova de que todos os ecossistemas marinhos estão ligados e ajuda a avaliar o seu estado de conservação. Por isso, os cientistas portugueses acreditam que o seu trabalho não beneficia apenas a biodiversidade das Malvinas, mas também a de Portugal.

"Podemos beber da experiência que conseguimos lá e depois trazemo-la para cá." Muito do que aprenderam em New Island já está a ser aplicado, por exemplo, nas ilhas Selvagens. "Começámos a testar a utilização de tecnologia GPS nas Malvinas em aves grandes, mais fáceis de manipular e mais abundantes. Agora vamos aplicá-la em aves mais pequenas nas Selvagens, como as cagarras, para estudar as interacções destas aves marinhas com as pescas", diz José Pedro Granadeiro.

Mas nas Malvinas ainda há muito por fazer e, no final do ano, os portugueses vão voltar. "Queremos afinar os estudos com maior detalhe, nomeadamente os comportamentos dos animais", e talvez estendê-los a toda a plataforma da Patagónia, refere ainda.

Para Paulo Catry, um dos caminhos a seguir é o desenvolvimento de modelos que permitam identificar as áreas marinhas a proteger no futuro. "Em função das características no mar, como as temperaturas e os ventos, queremos prever onde vão concentrar-se os indivíduos."

As próximas novidades das Malvinas, a publicar este ano pela equipa, deverão revelar onde é que os albatrozes passam o Inverno, graças a pequenos aparelhos de localização colocados nas patas, e propor modelos sobre a forma como os albatrozes vivem no mar.

Esta temporada terminou mais cedo, com o regresso a Portugal dos últimos cientistas da equipa em Fevereiro. Até ao reencontro entre ornitólogos e albatrozes-de- -sobrancelha, a ilha ficará sem as suas asas e as penas que tanto a enchem de vida.