Crítica

Lágrimas de crocodilo

África takes over. Sobram despedidas furtivas, cartas que ninguém lerá, silêncios lancinantes. Como este filme

Toda a gente chora em Tabu. Por si e pelos outros. É mesmo o vínculo maior entre as personagens, como se fosse pelo choro que se estabelecesse o contacto entre as da primeira parte e as da segunda. Senão, reparem naquele momento, já na segunda parte, quando os amantes (Carloto Cotta e Ana Moreira) estão separados, pelas circunstâncias e pela geografia, e há um plano de Ana Moreira em lágrimas, depois outro de Carlotto em lágrimas, enquanto na banda sonora passa a canção (uma versão espanhola do Be My Baby de Phil Spector e das Ronettes) que nesse plano vemos Carloto, à bateria, a tocar.


Lembramo-nos então que já antes tínhamos ouvido essa canção, na mesmíssima castelhana versão - durante a primeira parte, numa cena numa sala de cinema vazia, com a doce Pilar (Teresa Madruga), o amigo/namorado (Cândido Ferreira) adormecido a seu lado, em lágrimas perante imagens que só ela vê.

Percebemos então que era já Tabu que ela via, a primeira parte a olhar a segunda como se a segunda fosse o filme que a primeira anseia por acolher - para enfim, perceber por que tem vontade de chorar. Não perde pela demora; a emoção difusa e elíptica da primeira parte flui rumo a uma cascata (há água - leia-se “lágrimas” - que cheguem para todos) na segunda, como se do fundo do tempo se destapassem as razões da tristeza - e o “paraíso perdido” (título do primeiro capítulo de Tabu) tivesse finalmente uma visão clara e precisa do que tinha sido o “paraíso” (título do segundo capítulo).

Coisa espantosa de Tabu: reencontra a pujança emocional do melodrama, no primeiro grau e na flor da pele, através de um sistema que aparentemente não pára de colocar “filtros” entre o espectador e a acção - a estrutura bipartida, o flash-back, a narração off, a mudez das personagens do “Paraíso”.

É longo e labiríntico o caminho para o “cinema extinto”, mas Tabu encontra-o de facto: no fim, choramos como o espectador do tempo em que os espectadores acreditavam, em primeiro lugar, na sua capacidade de chorar. Ou ainda: Tabu personifica um cinema que, sabendo-se inapelavelmente moderno por inerência e condição, tem a loucura frankensteiniana de se auto-injectar uma ampola de sangue do cinema clássico. Proeza: vemos esse sangue a espalhar-se pelo corpo (do filme), e nenhuma das cicatrizes de Frankenstein.

Passemos à descrição. é um filme em duas partes reconhecíveis (como nas outras longas de Miguel Gomes, A Cara que Mereces e Aquele Querido Mês de Agosto, que aliás podem ser vistas este fim-de-semana no ciclo que o Nimas dedica ao cineasta), mas agora anunciadas de maneira explícita. Há um preâmbulo, antes da primeira parte lisboeta e contemporânea, onde ficamos a saber que, por desgosto de amor, um explorador de uma África de BD emprestou a alma a um crocodilo, doravante melancólico, testemunha silenciosa do resto de uma história onde os crocodilos (até na primeira parte há um, um crocodilo-brinquedo de centro comercial) terão papel inadvertido mas essencial.

Daí passamos a Lisboa e a Pilar, mulher católica (reza muito), contestatária (manifesta-se contra a ONU) e solitária (tem como único amigo um pintor de “mão bruta e alma sensível”, Cândido Ferreira), progressivamente preocupada com a vizinha, uma velhota chamada Aurora (Laura Soveral), cuja saúde mental parece dissolver-se entre sonhos com macacos peludos, jogatanas no casino, e suspeitas de que a sua criada africana, Santa (Isabel Cardoso), faz macumbas contra ela. São os últimos dias de Aurora, vividos entre memórias desconexas de “crocodilos” e de um tal de Sr. Ventura. O Sr. Ventura (Henrique Espírito Santo) aparece quase a tempo - e numa selva recriada no kitsch plastificado de um centro comercial qualquer, onde para além do crocodilo há um tucano empalhado, começa a contar a história de Aurora: “ela tinha uma fazenda em África”.

Não mais abandonaremos a narração do Sr. Ventura, ou só temporariamente, nos segmentos “epistolares” do filme, quando a voz da Aurora de Laura Soveral reaparece para dizer o texto das cartas (é por uma carta que o filme acaba, depois dela o silêncio, o fim de tudo: Murnau, com certeza, mas Tabu não exclui, et pour cause, um sombreado de Amor de Perdição, Oliveira e Camilo). E pela narração de Ventura, como num sonho a preto e branco de super 8, recria-se uma colónia portuguesa em África, no sopé do fictício Monte Tabu, no princípio dos anos 60, com os primeiros indícios da agitação independentista em fundo (paraíso/paraíso perdido: o filme inventará o seu próprio link com a guerra colonial).

Nesta espécie de museu imaginário do colonialismo português, que casa a memória portuguesa com uma memória universal do colonialismo (é uma África aventurosa e idealizada, “exótica” como a de um filme americano, da RKO por exemplo), Aurora e Ventura vivem uma história de amor ilícito e terminal, um filme mudo narrado a posteriori, sem voz (excepto a voz das canções) mas com muitos sons (os sons da selva, cuidadosa e arbitrariamente colocados - o trabalho de som é espantoso, a fotografia é extraordinária). Tudo está condenado desde o princípio, o no future deles é o mesmo no future de Portugal em África. Correm para lado nenhum, em caminhadas pela savana, em movimentos de câmara que parecem querer encontrar os travellings de Murnau no Sunrise - às vezes param para fitar o espectador olhos nos olhos, misto de desafio e pedido de compaixão, como nenhuma personagem de cinema clássico ousaria.

Outras vezes ficam quietos a desenhar animais nas nuvens, como personagens de um filme japonês. Anunciada pela neblina que desce pela encosta do Monte Tabu (essa neblina que a mitologia local associava aos “maus espíritos”), a tragédia acelera, para rebentar no plano subjectivo do olhar de um morto, e no contracampo acusatório de dois miúdos negros de mirada gravíssima. Na banda sonora, a música e os ritmos africanos tomam o lugar das Ronettes e das cançonetas italianas: África takes over. Sobram despedidas furtivas, cartas que ninguém lerá, silêncios lancinantes.Como este filme.