Saúde

Mais de metade dos portugueses sofre de falta de sono

Trabalhar menos, comer melhor e ter horários para jantar e dormir são receitas para dormir melhor
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Trabalhar menos, comer melhor e ter horários para jantar e dormir são receitas para dormir melhor Miguel Madeira (arquivo)

Se este artigo ajudar alguém a dormir melhor esta noite, Teresa Paiva terá cumprido o seu objectivo. A especialista admite que o alucinante ritmo de vida agravado pela crise pode estar a tirar, cada vez mais, o sono aos portugueses. Mas a neurologista prefere desdramatizar e aponta soluções, até porque, se não dormirmos bem, tudo o que está mal só pode ficar pior.

A estratégia passa, entre outras coisas, por "parar o desassossego", ir para casa mais cedo, ver poucos telejornais, ter horários para jantar e dormir e por nos agarrarmos a uma "atitude positiva". Teresa Paiva está amanhã no simpósio Aquém e Além Cérebro, organizado pela Bial no Porto, onde desde quarta-feira se discute o Sono e Sonhos.

Mais de metade dos portugueses tem "queixas de insatisfação com o sono" - cerca de 20% da população terá insónia grave, que se pode caracterizar por insónias em cerca de três noites por semana, durante pelo menos seis meses - e metade das crianças e dos jovens apresenta sinais preocupantes de sonolência. Os dados são avançados por esta especialista no estudo do sono, que falará no Porto sobre as relações mútuas entre sono, sonho e sociedade.

"Há estudos feitos em todos os continentes que provam que dormir pouco tem um aumento de risco de hipertensão arterial, diabetes, obesidade, insónia, depressão, cancro, morte mais precoce e riscos cardiovasculares. Mas depois vemos que há imensas influências sociais no sono." E o que é que o momento social actual está a fazer ao nosso sono? "Não há estudos epidemiológicos. O que posso dizer é que mudaram os desencadeantes. As pessoas estão desempregadas, ou têm os filhos desempregados, têm pouco dinheiro e muitas contas para pagar."

Ou seja, há razões para perder o sono, concorda Teresa Paiva. Mas contrapõe: "As coisas sempre foram difíceis. O sentimento de medo existe mas também é criado por nós - pomos esta crise negríssima. Temos de parar este desassossego. Há muita coisa entre o céu e a terra, além da economia e das finanças. Se as pessoas tiverem uma atitude mais optimista, tudo melhora."

O sono também. A solução, defende, está em aproveitar esta crise para uma mudança de hábitos - uma mudança de vida. E se as pessoas trabalharem menos, forem para casa mais cedo, tiverem horários regulares para comer e deitar, escolherem uma alimentação equilibrada e desenvolverem actividade física, vão dormir melhor.

O optimismo e a ideia-chave de que "tudo se resolve" será a receita para o sono anticrise. Porém, Teresa Paiva frisa que a insónia não é uma entidade única. "Há muitos subtipos de insónia", nota, acrescentando que o diagnóstico tem de ter em conta "todos os bocadinhos da vida daquela pessoa", considerar outros factores (depressão, tensão alta, etc.) e, só depois, fazer "um tratamento desenhado para cada um". "O problema não é não dormir. O não dormir é uma consequência."

Segundo a neurologista, as terapias mais eficazes para a insónia são cognitivas e comportamentais. O recurso a fármacos que "fazem dormir" tem de ser cauteloso. "Há um estudo recente com 20 mil pessoas que prova que os indivíduos que tomam cronicamente hipnóticos têm um risco aumentado de cancro e de morte mais precoce", avisa.

Crianças mais sonolentas

A atitude optimista de Teresa Paiva desvanece quando o assunto é o sono das crianças. "Os níveis crescentes de sonolência diurna entre crianças e adultos jovens são preocupantes", refere, adiantando que os resultados preliminares de um estudo que fez com cinco mil crianças e jovens portugueses concluíram que a sonolência atinge quase 50% do total. Nos estudos populacionais mundiais, apenas cerca de 15% têm sonolência a mais.

"Um centro comercial à noite está cheio de miúdos que deviam estar a dormir", nota, sublinhando que a falta de sono nas crianças "tem graves riscos para a saúde, como hipertensão, diabetes, obesidade, insucesso escolar, hiperactividade" e tendência a desenvolverem depressões. Um pesado fardo de doenças crónicas que o nosso sistema nacional de saúde poderá não aguentar, alerta. Uma das medidas elementares passa por banir a televisão, o computador e o telemóvel - "há jovens que passam horas na cama a mandar SMS" - do quarto dos mais novos.

No resumo da apresentação que fará no simpósio da Bial, Teresa Paiva também é menos optimista. E deixa o aviso: "A sociedade e os serviços de saúde são obrigados a prestar atenção aos números actuais. No caso de não ser desencadeada qualquer acção, as actuais influências entre sociedade, sono e sonhos podem resultar num cenário dramático: os indivíduos esforçados e lutadores podem tornar-se depressivos, esquecidos e doentes e transformar-se em cidadãos incapazes de agir e cooperar de modo eficiente com as circunstâncias das sociedades actuais altamente exigentes."