Pires da Fonseca, ex-administrador da CP

“A minha primeira missão na CP foi fechar linhas”

O potencial turístico da linha do Douro foi sublinhado pelo deputado Helder Amaral
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O potencial turístico da linha do Douro foi sublinhado pelo deputado Helder Amaral Foto: Paulo Ricca

Antigo administrador da CP diz que foi um erro ter-se encerrado a linha do Pocinho a Barca de Alva porque 25 anos depois redescobre-se que o vale do Douro é a melhor ligação ferroviária de Leixões à Europa. No congresso dos transportes, que hoje se encerrou em Lisboa, carpiram-se as indecisões e os investimentos mal feitos nos últimos anos e deram-se sugestões para a sustentabilidade de um sector endividado.

José Pires da Fonseca, ex-administrador da CP, contou que a primeira coisa que fez quando entrou na empresa como jovem quadro foi ajudar a fechar a linha do Douro, do Pocinho até à fronteira de Barca de Alva. Mas reconhece que, à luz do debate actual das ligações a Espanha e à Europa, isso foi um erro.

“Abandonar infra-estruturas de ligação ao país vizinho é o pior que se pode fazer”, disse, estimando que se aquele troço custasse 1 milhão de euros por ano, 25 anos depois, os 25 milhões de euros gastos teriam valido a pena porque Portugal manteria aberta uma ligação ferroviária de Leixões à Europa pelo caminho mais curto.

O agora administrador da Transdev diz que a linha do Douro é decisiva para a exploração do minério de Moncorvo porque, para as empresas mineiras, a logística do escoamento do minério é mais importante do que as minas propriamente ditas. Daí a sugestão para que se estudasse a reabertura daquela linha.

Houve mais sugestões. Numa mesa redonda que procurou responder à pergunta “É possível uma ferrovia sustentável?”, os especialistas referiram que há investimentos relativamente baratos que podem ter grande impacto na rede ferroviária nacional. É o caso da modernização dos troços Nine – Viana do Castelo e Caíde – Marco de Canavezes, bem como, na perspectiva das mercadorias, a eliminação de rampas que limitam a capacidade de carga dos comboios.

Helder Amaral, deputado do CDS/PP, perguntou como era possível o Algarve ter um caminho-de-ferro em tão mau estado e completamente divorciado do aeroporto de Faro que gera cinco milhões de passageiros por ano. E, enquanto deputado por Viseu, perguntou como é possível ser esta uma das maiores cidades da Europa que não está ligada a rede ferroviária, lamentando que, em vez da automotora que em tempos servia aquela cidade, haja agora na linha onde esta circulava uma ecopista.

Referindo-se à importância do turismo no país, disse não entender por que motivo os estrangeiros compram material circulante aos portugueses para os seus caminhos-de-ferro turísticos e Portugal não aproveita para tal as potencialidades do Douro.

A “coragem do Governo” em encerrar linhas não rentáveis foi saudada pelos administradores da Refer e da CP, respectivamente, Castanho Ribeiro e Cristina Dias, e também pelo próprio Helder Amaral, mas houve no debate algum consenso em que o Plano Estratégico de Transportes terá sido muito radical ao fechar linhas que, com pouco investimento, poderão ser potenciadas e resolver problemas de mobilidade. É o caso do Vouga, que poderá, afinal, sobreviver entre Espinho e São João de Madeira e entre Aveiro e Águeda.

Cristina Dias, da CP, referiu que nos últimos 30 anos a sua empresa gastou 3,4 mil milhões de euros em material circulante e bilhética “e mesmo assim não se conseguiu estancar o flagelo da quebra da procura” (só em 2011 a CP perdeu mais 6% de passageiros). Mas lembrou que “foi também neste período que proliferaram as redes de auto-estradas no país”.

Uma constatação partilhada pelos vários oradores, tendo o economista Avelino de Jesus destacado que nos últimos 15 anos houve um subinvestimento na ferrovia em comparação com a rodovia e que se chegou a um ponto em que “os acréscimos de dinheiro gastos em mais infra-estruturas de transportes tendem a gerar resultados negativos porque esses recursos podem ser melhor aplicados noutros sectores”.

Penalizar o transorte individual

Consensual foi também a ideia de que é necessário penalizar o transporte individual, sobretudo em meio urbano, para “obrigar” as pessoas a usar os transportes públicos. Mas nesse caso não dá jeito o aumento dos preços, como lembrou o professor universitário Carlos Paz: “o mesmo documento [PET] que propõe o aumento tarifário dos transportes públicos também contempla uma rede de combustíveis low cost e isso é um perfeito disparate”.

Divergente, o presidente da Carris, Silva Rodrigues, disse que esse “ajustamento tarifário” tinha de ser feito e fez notar que um passe social de 35 euros não é caro (admitindo contudo que devam existir mecanismos de ajuda para quem não o pode pagar). Mas concorda também na necessidade de penalizar o transporte individual.