Cientistas descobrem que Madeira teve um mocho que se extinguiu

Mocho d'orelhas de Maul (à esquerda), comparação desta espécie (ao centro) com o mocho d’orelhas actual (à direita)
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Mocho d'orelhas de Maul (à esquerda), comparação desta espécie (ao centro) com o mocho d’orelhas actual (à direita) Pau Oliver

O estudo de 27 pequenos fósseis, recolhidos há cerca de 30 anos, permitiu descobrir uma nova espécie de mocho que viveu na na Madeira. A ave extinguiu-se depois da chegada dos humanos, segundo um estudo publicado na revista “Zootaxa”.

O mocho d’orelhas de Maul (Otus mauli) esteve 28 anos escondido no meio dos 50.000 espécimes do Museu de História Natural do Funchal. De 1984 a 1994, o investigador alemão Harald Pieper explorou zonas de dunas fósseis, muito antigas e consolidadas, na Ponta de São Lourenço (ilha da Madeira) e na Fonte da Areia e no Porto dos Frades (na ilha de Porto Santo). Recolheu 27 pequenos fósseis, quase completos, pertencentes a asas e patas de uma ave de rapina nocturna. Só em 2011 se descobriu a que espécie pertenciam. Um grupo de investigadores - liderado por Juan Carlos Rando, da Universidade de La Laguna, Tenerife, Canárias – estudou essa série de fósseis e concluiu que pertenciam a uma nova espécie, o mocho d'orelhas de Maul, que se tornou na primeira ave extinta a ser descrita na Madeira. Ainda assim, não foi a única, como o prova o pombo-torcaz-da-madeira (Columba palumbus maderensis), extinto nos anos 30 do século XX.

O mocho d’orelhas de Maul seria uma espécie endémica que evoluiu como população isolada, a mais de 600 quilómetros da Europa e da África e longe das rotas migratórias entre aqueles continentes. A ave teria sido morfologicamente muito semelhante ao actual mocho d’orelhas (Otus scops) continental.

“Deve ter pesado um pouco mais que o actual mocho d’orelhas. É provável que pesasse 25% mais”, disse ao PÚBLICO Josep Antoni Alcover, do Instituto Mediterrâneo de Estudos Avançados e um dos autores do estudo. Os investigadores calculam que o seu peso oscilaria entre os 152 e os 174 gramas. Teria as patas um pouco mais compridas e esguias e as asas ligeiramente mais curtas do que o mocho d’orelhas actual.

Já para os fósseis encontrados nos depósitos calcários de Porto Santo, em piores condições, os investigadores não têm tantas certezas de se tratar da mesma espécie.

Uma ave no chão da floresta

O Otus mauli – cujo nome escolhido é uma homenagem a Gunther Edmund Maul, director do Museu de História Natural do Funchal (1940-1981) – teria sido uma ave de hábitos terrestres. “Os nossos resultados parecem indicar que o Otus mauli teria fracas capacidades de voo”, escrevem os autores do estudo. A ave, numa ilha sem predadores terrestres, viveria no chão da floresta laurissilva, cujo coberto arbóreo cerrado a protegia das aves de rapina predadoras, como a águia-de-asa-redonda ou o peneireiro-vulgar. Os investigadores acreditam também que se alimentava de invertebrados, em grande variedade naquela floresta, e ocasionalmente de lagartos e de pequenas aves.

Mas a história deste mocho não chegou aos nossos dias e hoje a única ave de rapina nocturna que nidifica no arquipélago é a coruja das torres. “É provável que tenha desaparecido depois da chegada dos seres humanos à Madeira”, disse Josep Antoni Alcover. Segundo o artigo publicado na Zootaxa, ocorreram, então, alterações profundas naquele arquipélago, como as queimadas da floresta e a introdução de ratos e gatos, que predaram os ovos e ninhos da ave.

Ricardo Araújo, director do Museu de História Natural do Funchal, felicitou a descoberta. “Este trabalho é uma prova da importância das colecções de história natural”. Em breve “é natural que apareçam coisas novas”, tanto mais que “nas nossas colecções há espécimes recolhidos recentemente e que ainda não temos a certeza do que sejam”.