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"Kilombos": os herdeiros dos escravos africanos no Brasil já têm documentário

Paulo Nuno Vicente dedicou aos herdeiros de escravos africanos no Brasil um documentário. “Kilombos” foi filmado sobretudo no estado do Maranhão e apresentado pela primeira vez na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa

Sentado em cima de um panelão que, desde os tempos do seu avô, serve para preparar comida, Gildázio Costa recorda as suas palavras: “Meus filhos, esse panelão, vocês tem de ter cuidado com ele. Isso aqui vai ter grileiro que vai querer tomar isso de vocês”. De voz trémula, Emília Moreira assume que “é muito difícil falar de uma briga de um povo...”.

Estes são dois dos muitos testemunhos de quilombolas que relatam a luta e resistência das comunidades dos estimados 3000 quilombos espalhados pelo Brasil. É essa luta, de gentes com heranças culturais absolutamente enraizadas num “Brasil invisível” ao resto do mundo, que o jornalista e realizador Paulo Nuno Vicente pretende captar, "saindo fora de um certo registo visual e narrativo, que necessita realmente de quem saiba para ele olhar". 

O documentário “Kilombos”, filmado sobretudo no estado do Maranhão, com testemunhos recolhidos também em Cabo Verde e Guiné-Bissau, e apresentado pela primeira vez na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, no âmbito do projecto “O percurso dos Quilombos: de África para o Brasil e o regresso às origens”, é um registo que extravasa o formal e o narrativo.

Os quilombolas são herdeiros de escravos africanos vindos especialmente da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, durante os tempos em que as senzalas eram enchidas de negros, há mais de 400 anos. Estas gentes, desde há muito tempo, vêm os seus direitos humanos e legais postos de lado por aqueles que teimam em desapropria-las das suas terras, às quais têm direito por lei, desde 1988, cem anos após o fim da escravatura no Brasil.

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Uma questão de continuidade

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Mas opressores com diferentes agendas, num desrespeito contínuo à lei e à humanidade, fazem com que milhares de quilombolas desocupem as suas terras, onde construíram e organizaram comunidades inteiras, vivendo da terra e para a terra, sem nada mais pedir dela porque, como diz Teresa Nascimento, do quilombo Santa Joana, “nós estamos lutando por essa terra, aí eu já entendi que aqui não é para vender, não é para negócio, é para nós viver até ao fim da nossa vida, criar nossos filhos e nossos netos”. Poderemos dizer, como lhe chama Teresa, de uma maneira muito simples, uma questão de continuidade. 

O documentário está disponível online aqui, ao qual se juntam as entrevistas realizadas e outros conteúdos que nos transportam até aqueles sítios, que escondem, ainda, histórias de persistência e amor à cultura, que são urgentes conhecer.