Houve uma escola de música onde hoje está o Museu de História Natural

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O Real Seminário de Música da Patriarcal foi a mais importante escola de Música em Portugal antes da criação do Conservatório, em 1835 dr

O Seminário da Patriarcal perdeu as suas instalações no Terramoto e terá chegado à Quinta da Cotovia quatro anos depois. Foi de lá que saíram os primeiros bolseiros para Nápoles

Foi uma passagem temporária, mas que coincidiu com um momento importante da história da música portuguesa: na sequência do Terramoto de 1755, o Real Seminário de Música da Patriarcal (RSMP) funcionou no edifício do antigo Noviciado da Cotovia, no Príncipe Real, em Lisboa.

A mostra Memória da Politécnica: Quatro Séculos de Educação, Ciência e Cultura, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, recupera o percurso das quatro principais instituições que desde o século XVII ocuparam a Quinta da Cotovia. Mas o Noviciado dos Jesuítas, o Colégio dos Nobres, a Escola Politécnica e a Faculdade de Ciências não foram os únicos estabelecimentos de ensino a passar por ali. A mais importante escola de Música em Portugal antes da fundação do Conservatório, em 1835, funcionou no antigo noviciado após a expulsão dos jesuítas em 1759, informação em geral desconhecida fora do círculo restrito da musicologia histórica.

A passagem pelo edifício, na sequência das múltiplas mudanças de residência após o Terramoto, coincide com um importante período da escola anexa à Capela Real criada por D. João V em 1713 e responsável pela formação de compositores tão importantes como Francisco António de Almeida, João de Sousa Carvalho, Jerónimo Francisco de Lima, José Joaquim dos Santos, Leal Moreira ou Marcos Portugal.

As referências ao funcionamento do RSMP naquele espaço surgem em diversos documentos do fundo da Patriarcal, na Torre do Tombo. Um Aviso do patriarca datado de 28 de Outubro de 1759 refere que por sua ordem "se acha transportado o Seminário Patriarcal das casas em que se achava para a que foy do Noviciado dos Pes. Jesuitas no sítio da Cotovia", assim como um documento do tesoureiro de 13 de Novembro de 1759, que se guarda no Arquivo da Sé de Lisboa. Um ano depois, diversas obras voltam a referir a decisão do patriarca e a mudança para o Noviciado da Cotovia é também mencionada por António Pereira de Figueiredo no Diário dos Successos de Lisboa desde o terremoto até o extermínio dos Jesuítas (Lisboa, 1761).

Importar o Barroco

Criada três anos antes da promoção da Capela Real de Lisboa a Patriarcal, em 1716, o RSMP acompanhou o avultado investimento de D. João V na reforma das estruturas musicais da corte e a importação dos modelos do Barroco italiano. Foi precisamente da geração inicial de alunos que saíram os primeiros bolseiros a fazer estudos musicais em Roma, nomeadamente os compositores António Teixeira, Rodrigues Esteves e Francisco António de Almeida.

O Seminário começou por funcionar no Palácio dos Arcebispos, sendo depois transferido para o Convento de São Francisco, onde permaneceu até ao incêndio de 1741. Passou de seguida para a Rua da Calcetaria, próxima da Patriarcal do Paço da Ribeira, onde esteve até ao Terramoto de 1755. Depois, transitou para uma casa na Rua Nova de São Bento e, a partir de Junho de 1756, para a Rua Nova dos Cardaes.

Eram tempos difíceis, pois a escola tinha perdido os seus bens - restava um cravo e um clavicórdio já usados. O mestre Nicolau Ribeiro Passo Vedro faz sucessivos requerimentos para obter novos instrumentos, móveis e melhores espaços para as aulas. Em 1759, depois da expulsão dos jesuítas, a escola passou a ocupar o antigo Noviciado da Cotovia, nas proximidades da nova Igreja Patriarcal, construída no "sítio da Cotovia", actual Príncipe Real, e inaugurada em 1757.

Foi durante este período, em Maio de 1760, que alguns dos discípulos mais dotados foram enviados para Nápoles, a expensas da corte, com a finalidade de aperfeiçoaram a sua formação no Conservatório de San Onofrio a Capuana. É o caso de João de Sousa Carvalho, dos irmãos Jerónimo e Brás Francisco de Lima, de Joaquim de Santa Anna, Camilo Cabral e José de Almeida. Os dois primeiros contam-se entre os compositores mais importantes da época, sendo autores de óperas, serenatas e música religiosa. Depois de regressarem de Itália tornaram-se professores da instituição, tal como Brás Lima e Camilo Cabral. Os restantes foram cantores da Patriarcal.

Em 1761, na sequência da atribuição do edifício do antigo Noviciado da Cotovia ao Colégio dos Nobres, cujos estatutos datam desse ano, o RSMP passou para outra dependência deixada livre pelos jesuítas: o Hospício de São Francisco de Borja, poucas ruas mais abaixo, que foi objecto de obras de melhoramento coordenadas pelo arquitecto Matheus Vicente de Oliveira. Estas últimas instalações são referidas por Gustavo de Matos Sequeira na sua obra Depois do Terramoto e fundamentadas pela documentação da época.

Até à Revolução Liberal

Após o incêndio que destruiu a Igreja Patriarcal da Cotovia em 1769, esta viria a ocupar a Igreja de São Roque e a Igreja do Convento de São Bento, antes de ser instalada na Igreja de São Vicente de Fora em 1772, para onde passaria também o Seminário dois anos depois. Quando a Patriarcal foi reunida à Capela Real da Ajuda em 1792, a escola de música seguiu o mesmo caminho, vindo a localizar-se no actual n.º 18 do Largo da Ajuda.

O RSMP combinava o antigo modelo das escolas de Música ligadas às catedrais com influências dos conservatórios napolitanos. Um grupo selecto de colegiais vivia em regime de internato, mas as aulas da parte da tarde eram abertas a alunos externos - cerca de 50 em 1761.

Além das lições de Música e Gramática - e também de Latim e Italiano a partir dos finais do século XVIII -, as actividades diárias dos alunos internos incluíam a doutrina cristã, a assistência à missa e ao Ofício Divino e a colaboração em várias cerimónias da Patriarcal.

O plano de estudos centrava-se no canto, na composição e nos instrumentos de tecla, tendo em conta futuras carreiras na música religiosa e a formação de músicos para os quadros da Patriarcal. Todavia, o alcance da acção pedagógica acabaria por ser muito mais amplo. Muitos alunos distinguiram-se também na música profana e das suas classes saíram numerosos músicos que ocuparam cargos relevantes em múltiplas instituições luso-brasileiras.

Com as Invasões Francesas e a transferência da corte para o Brasil, o RSMP sofreu uma forte quebra. Apesar de algumas tentativas de actualização do sistema de ensino, como a reforma de 1824, acabaria por sucumbir com a Revolução Liberal, tal como muitas outras instituições do Antigo Regime. Em sua substituição, foi criado o Conservatório, por iniciativa de Almeida Garrett e João Domingos Bomtempo, passando a promover um ensino laico, influenciado pelo Conservatório de Paris.

Apesar de não ser estudada na exposição Memória da Politécnica, a passagem do RSMP pela Cotovia deverá agora ser tratada no catálogo.