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Federação vai chumbar proposta de alargamento do campeonato

Mário Figueiredo argumenta que o campeonato não perderá competitividade
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Mário Figueiredo argumenta que o campeonato não perderá competitividade Nelson Garrido

A ausência de despromoções, método encontrado para preencher as duas vagas adicionais para a Liga 2012-13, gerou forte desagrado. Responsáveis federativos consideram que fica em causa a verdade desportiva.

Está condenado à nascença o projecto de alargamento do principal campeonato de futebol nos moldes em que foi aprovado na segunda-feira. A proposta que mereceu "luz verde" na assembleia geral da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) terá de ser ratificada pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF), mas esse é um passo que não vai ser dado. Ao que o PÚBLICO apurou, os responsáveis federativos preparam-se para inviabilizar esta intenção.

A aprovação do alargamento do número de clubes, de 16 para 18 (31 votos a favor, 15 contra e duas abstenções) já tinha merecido a contestação do Nacional e do FC Porto na reunião magna que decorreu no Porto. Mas foi o formato encontrado para atingir esse objectivo que gerou maior discórdia. Com o chumbo (29 votos contra, 17 a favor, duas abstenções) da proposta de uma "liguinha" a disputar entre o 15.º e 16.º classificados da Liga e o terceiro e quarto da Liga de Honra, a alternativa encontrada passou pela ausência de despromoções nesta época.

No final da assembleia, e já depois das críticas abertas do Sporting e do Nacional, eram baixas as expectativas de alguns dos dirigentes relativamente à ratificação da proposta por parte da FPF, que faz parte do protocolo que mandata a Liga para organizar competiç? ?es profissionais. Ontem, o PÚBLICO apurou que o veto federativo será inevitável.

Em causa, no entender dos responsáveis da FPF, não estará o alargamento em si, mas a alteração das regras do jogo já perto do final do campeonato. O presidente do organismo, de resto, tem sido um defensor da verdade desportiva, razão pela qual Fernando Gomes vê com maus olhos a manutenção dos dois últimos classificados da Liga por via administrativa.

Esta posição de inviabilizar a proposta da LPFP deverá ser oficializada ainda esta semana, depois de uma reunião com os sócios ordinários da federação (associações de futebol, de treinadores, de árbitros, Liga, sindicato de jogadores, entre outros), que serão auscultados relativamente a este tema. Após o encontro, haverá uma declaração pública sobre o teor da decisão final.

O presidente da LPFP, Mário Figueiredo, defendeu, já no final da assembleia geral, que os campeonatos fechados, como acontece na América do Norte, não perdem competitividade pelo facto de não haver despromoções: "Ninguém vai querer ficar em último lugar, tal como ninguém quer ficar em nono quando pode ficar em oitavo".

Recurso para o CJ

Mas este argumento não colhe junto dos dirigentes federativos. Nem junto dos responsáveis do FC Porto, que ontem criticaram, no site oficial, "um alargamento sem a mínima sustentabilidade, anulando as normais despromoções, que são um garante da integridade e estabilidade de uma competição desportiva".


Nesta linha, os campeões nacionais defendem o que designam por "normalidade competitiva": "O FC Porto espera que urgentemente a Federação Portuguesa de Futebol impeça que um pequeno e pouco representativo grupo de aventureiros destrua uma das actividades de que o nosso país mais se pode orgulhar". E anunciam o "recurso para o conselho de justiça [CJ] da FPF".

A intenção de não despromover os clubes que terminarem o campeonato nas duas últimas posições poderá ter, de resto, um forte impacto num dos campeonatos mais competitivos dos últimos anos. Não é só a luta pelo título que está acesa, mas também a fuga à descida de escalão: basta ver que apenas seis pontos separam actualmente o 10.º classificado da "linha de água".

Custos travam "liguinha"

Na origem de toda a polémica está o chumbo da proposta do líder da LPFP de avançar para uma "liguinha", com o objectivo de encontrar os dois emblemas que preencheriam as duas vagas em aberto. Em causa estaria a disputa de mais quatro partidas.


"A liguinha seria outra fórmula, mas é normal esta decisão [de não haver despromoções]. Os clubes entenderam que mais quatro jogos nesta fase da época só iriam aumentar as despesas", explicou António Fiúza, presidente do Gil Vicente, ao PÚBLICO.

A preocupação dos dirigentes com os custos, no actual contexto económico, tem sido uma prioridade em todas as frentes de negociação. E Fiúza vê na resistência à mudança uma forma de os clubes mais poderosos defenderem os seus interesses. "Os "grandes" não querem o alargamento para poderem fazer digressões no final da época que lhes rendem milhões de euros. Enquanto os pequenos e médios clubes têm de mandar os jogadores para casa, de férias, durante dois meses e continuar a pagar-lhes os salários", explica.

A favor do alargamento, proposta que, assinala, "venceu por uma margem esmagadora", o dirigente gilista deixa outro argumento: "Não podemos pedir aos sócios que paguem as quotas e não tenham jogos. Temos de treinar menos e jogar mais. Isto não é uma república das bananas".

Opinião diferente tem Francisco Silveira Ramos, presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol (ANTF), que fala numa "medida avulsa e baseada em fantasias". A posição pessoal do dirigente (o organismo a que preside só no dia 26 debaterá o tema) vai no sentido de exigir mais dados e políticas que combatam os problemas estruturais da modalidade.

"Não tenho nada contra o alargamento ou o encurtamento, mas enquanto não se fizerem estudos e propostas concretas, que resolvam os grandes problemas do futebol português, não me parece boa ideia", argumentou, em declarações à agência Lusa, lamentando que "vários agentes e intervenientes no futebol" não tivessem sido ouvidos ao longo deste processo: "Foi pena não termos dado o nosso contributo".

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