Genética

Doença de Parkinson partilha gene com uma forma rara de demência

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Há semelhanças no processo patológico de uma síndrome de Parkinson e de uma doença neurodegenerativa rara Phil Noble/Reuters (arquivo)

Investigadores portugueses no University College of London encontraram uma mutação genética comum a duas doenças que se pensava distintas.

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O ponto comum chama-se ATP13A2. Para que esta sigla de letras e números faça algum sentido falta dizer que se trata da designação para um gene cuja mutação já tinha sido associada a um tipo de doença de Parkinson e que agora foi também encontrada numa família com Lipofuscinose Ceroide Neuronal (LCN),uma forma rara de demência precoce. O resultado do trabalho dos investigadores do University College of London foi publicado este mês na revista Human Molecular Genetics.

O objectivo "era encontrar a causa genética de uma doença neurodegenerativa rara chamada LCN", explica Rita Guerreiro, uma das cientistas envolvidas no projecto, adiantando que, para isso, os investigadores apoiaram-se numa numerosa família belga que sofre desta forma rara de demência precoce e que tem sido alvo do interesse de muitos especialistas. "Esta família era seguida e estudada há mais de 20 anos, tendo dado origem a várias publicações, sem que alguém tivesse, até agora, conseguido decifrar qual o defeito genético que se encontra na origem da doença", explica a investigadora. A família era composta pelos pais e 11 filhos, quatro dos quais tinham LCN e os restantes sete eram saudáveis.

As Lipofuscinoses Ceróides Neuronais (LCN) formam um grupo de doenças neurodegenerativas, clínica e geneticamente heterogéneas, caracterizadas pela deposição de uma substância [lipopigmento autofluorescente] nos neurónios e noutros tipos de células. Estas formas raras de demência precoce podem manifestar-se na infância, na adolescência ou na idade adulta. Até ao momento foram identificados nove genes que estão associados a diferentes tipos de LCN, mas permanece por explicar a verdadeira causa desta doença.

Recorrendo à sequenciação de exomas (os exomas são pequenas fracções do genoma e esta técnica permite "sequenciar de uma só vez todas as regiões codificantes do genoma - todos os genes"), a equipa encontrou "uma mutação no gene ATP13A2 que estava presente nos indivíduos com a doença e ausente nos familiares saudáveis", refere Rita Guerreiro numa resposta ao PÚBLICO por email. "O gene encontrado está na base de uma síndrome de Parkinson, o que sugere etiologias semelhantes para doenças que se pensava serem completamente distintas", resume a investigadora.

O artigo descreve a associação feita "pela primeira vez" entre o ATP13A2 e esta doença (LCN) em humanos. "Em 2011 dois artigos encontraram mutações neste mesmo gene em cães com LCN, mas até agora não era conhecida qualquer associação em humanos", esclarece a cientista. Por outro lado, tendo em conta que as mutações neste gene tinham já sido previamente associadas a um tipo de doença de Parkinson raro (Kufor-Rakeb), os investigadores demonstraram que "há semelhanças no processo patológico destas duas doenças, o que nunca tinha sido descrito". Por fim, Rita Guerreiro conclui ainda que o estudo permite "validar estudos já feitos e iniciar novos estudos funcionais (de biologia celular ou com animais transgénicos), de forma a determinar o papel desta proteína codificada por este gene (ATP13A2) e do lisossoma [o lisossoma é uma componente celular onde ocorre a degradação de compostos que a célula já não necessita] não só nas Lipofuscinoses Ceroides Neuronais, mas também na doença de Parkinson."

O trabalho dos investigadores iniciou-se em Abril de 2011. "Fizemos a sequenciação de três membros desta família e a análise das variantes genéticas resultantes". A única variante que passou em todos os "filtros" usados para descartar as menos interessantes (as que não causam alterações na proteína; as que sabemos estarem presentes em indivíduos saudáveis, etc.) foi encontrada no gene ATP13A2.