"Down Here", a sexualidade é cheia de cinzentos

A curta-metragem do português Diogo Costa Amarante venceu a última edição do Festival Internacional de Cinema Gay e Lésbico de Barcelona e está a espalhar-se pelo circuito internacional

Há uma carta escondida nesta ficção. Na vida real, o miúdo homossexual suicidou-se e escreveu “não contem à minha avó”. Só isso. Ficou muito por contar. “A sexualidade é cheia de cinzentos”, assume Diogo Costa Amarante, realizador do filme “Down Here”, melhor curta-metragem do Festival Internacional de Cinema Gay e Lésbico de Barcelona, Espanha — e pronto para o Festival Internacional de Cinema Gay e Lésbico de Turim e para o Festival Internacional de Sofia.

Tudo começou com o contacto do jovem realizador, nascido e criado em Oliveira de Azeméis, com o projecto It Gets Better, uma forma de se combater a alta e crescente taxa de suicídio entre jovens homossexuais norte-americanos. “Calma, as coisas melhoram. É uma questão de tempo”, tradução livre de Diogo Costa Amarante durante a conversa com o P3. Mas a questão é mais cifrada.

O português licenciou-se em Direito, Coimbra, tirou o curso de Cinema Documentário na Escola Superior de Cinema e Audiovisuais da Catalunha, em Barcelona. Só depois se aventurou no mestrado em Realização na Tisch School of Arts, em Nova Iorque, onde encontrou o excerto de uma carta de suicídio. O miúdo quer que toda a gente conheça a causa (o facto de ser homossexual) menos a avó.

“O mais interessante e impactante desta carta é que é o resumo de todo o conflito. Tem a ver com um preconceito que é bilateral: o preconceito de quem não conhece, que é o caso da avó, e o preconceito de quem antecipa que vai ser julgado pela pessoa que não conhece. Daí surgiu a ideia de imaginar como seria a reacção e a história da avó dele após o suicídio”, conta o realizador desta ficção de 13 minutos que acompanha a introspecção de uma “avó conservadora do interior dos Estados Unidos”.

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Acompanhamos uma avó conservadora do interior dos Estados Unidos Down Here

“Down Here” é esse exercício. “Qual seria a reacção dela? O que é que ela poderia fazer para dar uma resposta simbólica a este tipo de missiva do neto? Este universo passou-lhe ao lado e agora está a tentar conhecer por se sentir culpada” Foi isso que Diogo Costa Amarante pediu à actriz Bari Hyman. “Tens que encontrar o gesto correcto. É como escrever uma carta para ele de volta. Sem escrever, sem falar”.

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Diogo Costa Amarante

A comunidade homossexual e os estereótipos

Descemos com esta mulher ao submundo de Nova Iorque. Sentimos o baque. “Quando não tens um embate emocional que te abrigue a mergulhar nesta tal cinzento, tens uma tendência para te fechares neste preto e branco. Quando ela vê esta relação desaparecer porque o neto se suicidou, o sistema de valores subverte-se e já não cabe em pretos e brancos. Ela própria tem que procurar o cinzento para resolver um conflito interno”.

Este é também o universo desalinhado em que se move o realizador de curtas como “Jumate/ Jumate” (2008), “En Enero, Quizás (2009) — estes dois considerados Melhor Documentário Espanhol pelo Documenta Madrid — ou “We Have Legs/ Time Flies” (2009) e até “O Vento que Passa”, a sua primeira aventura no imaginário queer. “Os temas que me interessam, mais do que a sexualidade, têm a ver com uma questão de género”, explica Diogo no momento em que prepara a sua primeira longa-metragem.

Retratará um miúdo “que acha que é transsexual”. “Pretendo quebrar o cliché do miúdo que na adolescência acha que é feminino, que pertence ao corpo errado e que vai ser mulher. O percurso da sexualidade é rico e cheio de cinzentos. Esta personagem chega a um ponto em que percebe que tudo aquilo que aparentemente a levaria à transformação em mulher não leva. Consegue viver com os dois géneros”.

Nova Iorque ou Lisboa?

Isto porque, na opinião do realizador, a comunidade homossexual “vive com base em estereótipos”: “Isto é isto, a mulher é isto, o homem é aquilo, o transexual é isto, o homossexual é aquilo, o heterossexual é aquilo... A sexualidade é cheia de cinzentos. Esta riqueza é o que eu quero trazer para a personagem que vai crescer nesta história”.

E Nova Iorque é assim tão diferente de Lisboa? “Por cá temos uma forma diferente de lidar com a homossexualidade. Existe mais o recalcamento e a depressão, há mais uma tendência por esconder e viver uma vida encoberta e frustrada ou uma coisa ainda mais assustadora que é adoptar um comportamento que seria socialmente aceite pela maioria e que esconde um bocadinho que pertence a uma minoria. Aí a pessoa consegue sentir-se mais ou menos enquadrada e viver uma vida supostamente normal dentro de critérios que a longo prazo se reflectem numa maneira de estar deprimida, opressiva e revoltada. Nota-se muito. Às vezes o discurso é mesmo amargo”.