Continuamos sem saber por que quis Angola comprar a Tobis mas há pistas

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Antes de ser comprada, a Tobis assinou um acordo com Luanda para tratar arquivos e rentabilizar equipamentos

Desde 2004, a Tobis investiu pelo menos cinco milhões de euros em equipamento especializado para a área do cinema digital numa tentativa de se modernizar, tentando assim travar a crescente perda de clientes, o que não aconteceu: em 2011, facturou 600 mil euros, quando precisava de cerca de 100 mil por mês para assegurar os salários dos 53 trabalhadores.

A situação de insolvência levou à procura de interessados. No final de Fevereiro, as áreas de pós-produção digital e recuperação de arquivo da Tobis foram compradas pela Filmdrehtsich, empresa de capitais 100% angolanos, por um valor que ronda os quatro milhões de euros, menos do que apenas os investimentos mais recentes. 

Já em 2009, Angola tinha mostrado interesse nos serviços da Tobis, assinando um acordo com a empresa através do seu Ministério da Comunicação Social. O objectivo de Angola era preservar o património histórico em filme, vídeo e áudio da Televisão Pública de Angola, Rádio Nacional Angolana, Cinemateca Nacional de Angola e alguns arquivos conservados nas instalações do partido no poder, o MPLA. O preço dos serviços foi fixado em cerca de 12 milhões de euros, segundo souberam os quadros da Tobis na altura. Três anos depois, Angola acaba por comprar a parte da empresa que pode prestar os serviços previstos nesse acordo.

Investir para rentabilizar
O material adquirido pela Filmdrehtsich foi mais caro na altura em que foi comprado pela Tobis, em 2004 e 2007, do que o valor por que a própria Tobis foi agora adquirida, sendo, contudo, difícil estimar quanto terá desvalorizado esse material sem uma lista exaustiva.

Entre o material fundamental estão três telecinemas, entre eles um HD, que em 2004 terá sido comprado num pacote com outros materiais por cerca de quatro milhões de euros. Na altura, a Tobis explicou que o investimento tinha como objectivo desenvolver novos trabalhos, por exemplo em publicidade.

Mais tarde, em 2007, ano em que a empresa comemorou 75 anos, foram investidos ainda cerca de 800 mil a um milhão de euros em equipamento para trabalhar em 2K, formato específico do cinema digital.

"A empresa foi investindo em materiais, mas não tinha, nem tem, dinheiro para a sua manutenção, ou seja, se alguma máquina avariasse, ficava parada por falta de meios para o seu arranjo", disse ao PÚBLICO Tiago Silva, da comissão de trabalhadores.

Cessação de contratos
Ao longo da semana passada, os 53 trabalhadores foram ouvidos pela administração, sabendo-se que apenas metade serão transferidos para a Filmdrehtsich. Há trabalhadores que já foram informados sobre a cessação de contratos e outros que optaram por rescindir. Sobre as tarefas que vão desempenhar ou quando passarão oficialmente a pertencer à nova empresa ainda não tiveram respostas. Certo é que, para quem fica, as condições de trabalho são as mesmas, ou seja, mantêm os anos de serviço e o mesmo vencimento.

No entanto, ao contrário do que inicialmente se pensava, o facto de alguns trabalhadores estarem nas áreas compradas pela Filmdrehtsich não significa que continuem na empresa. O PÚBLICO falou com um trabalhador da área do digital, que já foi informado da sua dispensa, apesar de não lhe terem sido dadas mais informações, nem mesmo quando cessa o contrato. Também não foi dito aos trabalhadores quem detém a empresa compradora.

A identidade da Filmdrehtsich, criada especificamente para o negócio, continua por esclarecer. Segundo o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), isso ocorre porque os responsáveis não querem dar a cara. O nome da empresa ainda não consta do Portal da Justiça.

Em Outubro do ano passado, o semanário angolano Novo Jornal escreveu que o MPLA, liderado pelo Presidente, José Eduardo dos Santos, se preparava para comprar a Tobis. E acrescentava: "O interesse na compra foi formalmente manifestado por uma delegação do MPLA, encabeçada por Rui Falcão, secretário para a Informação." 

Na altura, nem o director do ICA, José Pedro Ribeiro, nem a Secretaria de Estado da Cultura confirmaram ou desmentiram a notícia, como também não comentaram a informação que o PÚBLICO avançou há uma semana de que a empresa será composta por um conjunto de investidores, num consórcio liderado pela Sonangol, que tem funcionado como um fundo soberano de Angola. 

O PÚBLICO tentou contactar o director do ICA sobre estas questões, mas não obteve nenhuma resposta.