O Sul preguiçoso...

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Merkel sabe bem que a forma mais eficaz de conquistar apoio é a de apelar ao preconceito, às ideias feitas

Ovendaval de despudorado preconceito, para não dizer de racismo antimeridional, que se tem desatado por essa Europa fora contra os gregos e contra nós próprios, portugueses, é um evidente sinal de como as crises económicas podem trazer à superfície o que de mais profundo encerra a cultura tendencialmente xenófoba e classista da Europa contemporânea. Tornou-se moda a imprensa mainstream germânica e nórdica, da Alemanha à Finlândia, passando pela da sempre tolerante Holanda, apontar armas ao que descrevem como sendo o desleixo, a proverbial preguiça, o pretenso dolce far niente dos gregos, dos portugueses, dos espanhóis e dos italianos, que seriam coletivamente, enquanto povos, responsáveis pela sua própria crise. Os dislates sobre como são mandriões os europeus do Sul - como, de resto, tantos dos norte-americanos, japoneses, chineses e dos europeus em geral julgam ser os habitantes do Sul do mundo - podem ser lidos não apenas em jornais sensacionalistas (e, por isso mesmo, os mais lidos) como o Bild alemão, mas também pululam em muitos dos chamados "órgãos de comunicação de referência" que colecionam reportagens onde se recolhem detalhes sobre o que juram terem sido as 15 mensalidades dos salários gregos e os milhares de funcionários públicos excedentários concentrados em tarefas menores, para se concluir que a crise grega decorre exclusivamente desses detalhes, ou que nós, portugueses, todos!, andámos a viver anos acima das nossas possibilidades e que agora nos cabe pagar a dívida como quem expia um pecado...

A tal ponto estas ideias feitas têm aberto caminho entre nós próprios que, como seria de esperar, uma falange de políticos e comentadores das muitas direitas e daquilo a que descafeinadamente se tem vindo a chamar o centro-esquerda tem papagueado esta tese de que europeus meridionais todos, nós incluídos, longe de ser(mos) alemães, coitados ("temos de ser mais alemães que os alemães", diz Diogo Feio, eurodeputado CDS), andaram anos a gastar o que não tinham e que agora esperam que "os países ricos da União voltem a patrocinar incondicionalmente as idiossincrasias laborais dos indígenas" (Alberto Gonçalves, sociólogo [?!], DN).

Não é difícil perceber onde é que gente assim foi buscar esta tese peregrina das "idiossincrasias laborais" dos gregos, ou dos portugueses, já agora. Lembram-se como, há meses, a sra. Merkel se saiu em campanha eleitoral num dos estados alemães com a frase de que "na Grécia, Espanha e Portugal não se devia poder reformar mais cedo do que na Alemanha", ou de que "não podemos ter uma moeda única onde uns têm muitas férias e outros poucas" (Diário Económico)? A calinada da chefe do Governo alemão é tal que não pode ser senão propositada: se as alemãs se reformam e em média aos 60,5 anos e os alemães aos 61,8, em Portugal as mulheres reformam-se aos 63,6 anos e os homens aos 67.

É possível ter-se enganado assim, sem mais? É evidente que não: Merkel sabe bem que a forma mais eficaz de conquistar apoio é a de apelar ao preconceito, às ideias feitas, histórica e sociologicamente erradas, partilhadas por grupos habitualmente maioritários das sociedades. A prova dos nove faz-se através do cálculo do número anual horas de trabalho, e para tal usemos os dados da OCDE (OECD StatExtract 2010, 2012). Vejamos: quais são os dois países da UE onde menos se trabalha? A Holanda (1377 horas/ano) e... a Alemanha (1408), olha que surpresa! Já agora, entre os dez primeiros, não há um único do Sul da Europa (a menos que a França conte como tal). Quem mais trabalha? Os gregos (2017 horas/ano)! Os portugueses (1714) aparecem em 8.º lugar, atrás da Itália (1778) e de cinco países ex-socialistas, quase todos com o PIB inferior ao nosso.

Ao contrário da receita que, armado em moralista puritano, o nosso Governo nos propõe hoje, não é o aumento das horas de trabalho que tem produzido a diferença na riqueza das nações. Há 40 anos atrás, também os alemães trabalhavam, como os gregos hoje, cerca de 2000 horas por ano. Em 1990 já só trabalhavam cerca de 1550, e hoje já não mais de 1400. Desaforadamente mistificadora é a sra. Merkel (e os merkelianos de trazer por casa que povoam os nossos média), quando finge ignorar que os alemães beneficiam de mais férias, mais licenças por doença e por maternidade, por exemplo (em média, mais quatro semanas do que as gregas!- BBC News Magazine), do que os europeus do Sul.

Que pouco parecem ter evoluído estas luminárias da análise económica, esta gente que, como dizia Paul Krugman a este jornal há dois dias, tem uma "noção da economia como moral", o que é, como se vê, "sempre muito atrativo". Só um moralismo cínico e um preconceito racista podem negar as razões estruturais, a começar pela profunda desigualdade social, que explicam a menor produtividade das sociedades da Europa do Sul, confundindo pobreza com preguiça, vendo desleixo onde há esforço mal remunerado e, eventualmente, ineficaz, onde há trabalhadores desprezados. Pode a sra. Merkel querer captar o voto do turista alemão médio que viaja pela Europa do Sul. Não pode é fingir que ele seja um sociólogo ou um economista honesto, sobretudo quando filtra através de um preconceito muito antigo a compreensão da realidade daqueles que trabalham para ele no Sul, quando ele beneficia dessas férias. Um preconceito que julga que a inteligência, o brio profissional, o empenho, têm uma geografia própria: quanto mais se caminha para Sul, menos se manifestam.

É ridículo, é ofensivo discutir nestes termos. O problema está noutro lado, como sempre esteve. Sessenta anos depois do fim do racismo nazi e 50 depois do fim do colonialismo é inconcebível ainda aqui estarmos ou aqui termos voltado. Historiador (a pedido do autor, este texto respeita as normas do Acordo Ortográfico)