Barros Basto, o herói judeu, pode ser reintegrado no Exército

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Barros Basto DR

Arthur Carlos Barros Basto foi um herói da I Guerra Mundial e o militar que hasteou a bandeira da República no Porto, mas a sua conversão ao judaísmo e liderança de uma campanha nacional e internacional pela busca e conversão dos descendentes dos judeus portugueses marranos ditou o seu afastamento do Exército em 1937.

Em causa está agora uma petição para a sua reintegração no Exército, uma forma de o reabilitar historicamente, já que o requerimento interposto pela sua viúva a seguir ao 25 de Abril foi recusado.

O militar foi afastado em 1937, num processo com origem em cartas anónimas que o acusavam de homossexualidade, que deu por provado que ele tinha “comportamentos carinhosos” com os seus alunos e praticava a circuncisão.

Apesar de no dia a seguir ao 25 de Abril ter sido determinada a reintegração dos servidores do Estado, militares ou civis, que tivessem sido afastados por motivos políticos, a resposta ao requerimento interposto pela viúva de Barros Basto baseou-se nas acusações de homossexualidade, que, na altura, eram ainda motivo para banir um militar das Forças Armadas.

Em 1975, a recusa em integrar o antigo militar no Exército foi ainda mais longe que o processo de 1937, dando como provados factos que 38 anos não o tinham sido.

A petição para a reintegração no Exército de Barros Basto destinou-se à comissão de Defesa, que pediu parecer à comissão de Assuntos Constitucionais, e informações ao ministro da Defesa, Aguiar Branco, que ainda não deram entrada na Assembleia, mas PS e PSD manifestaram disponibilidade para legislarem sobre a matéria.

O deputado comunista António Filipe considerou “prematuro” partir do pressuposto que as Forças Armadas não decidirão no sentido de reintegrarem Barros Bastos, no que foi apoiado pelo democrata-cristão Telmo Correia.

Contudo, do PS e do PSD ficou a disponibilidade para, em último caso, o Parlamento recorrer a uma iniciativa legislativa semelhante à usada para o caso de Aristides de Sousa Mendes, que enquanto cônsul de Portugal em Bordéus salvou milhares de judeus do extermínio nazi durante a II Guerra Mundial, no que resultou o seu afastamento da carreira diplomática.

Depois de se converter à religião dos seus antepassados, Barros Basto deu início a uma revitalização da comunidade israelita, criando as sinagogas do Porto e de Braga e um instituto teológico e, partindo daí, para o estabelecimento de novas comunidades por todo o Norte de Portugal.

Empenhou-se em “resgatar os critptojudeus, bem como aqueles que se consideravam descendentes dos antigos judeus portugueses há vários séculos forçados à conversão”, lê-se no parecer de Carlos Abreu Amorim.

Natural de Amarante, Barros Bastos foi condecorado por bravura pela sua participação na I Guerra Mundial, em que comandou um batalhão do Corpo Expedicionário Português, e foi o militar que hasteou a bandeira da República no Porto.

O caso tem sido acompanhado na imprensa norte-americana e israelita, onde tem sido descrito como “caso Dreyfuss português”, mencionou o deputado Carlos Abreu Amorim que referiu também aos jornalistas o empenhamento no caso da atriz Daniela Ruah, sobrinha bisneta de Barros Basto.