Eles poupam para viajar, mas guardam pouco para o futuro

Grande parte dos jovens (73,6%) poupa, mas metade deles fazem-no para viajar e são poucos (4,3%) os que guardam algum para o futuro. A crise está a forçar a uma relação diferente com o dinheiro

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As viagens, o fazer coisas e não ter coisas, é o que os define, diz Paula Mateus armincifuentes/ Flickr

O dinheiro é escasso, difícil de ganhar, contado e recontado, mas a relação com ele é “séria” e o conhecimento que a geração dos 18 aos 28 anos revelou sobre os bancos “foi surpreendente”, lê-se na análise do estudo "Vida Adiada ou Vida Libertada?", desenvolvido pelo Projecto C, que elegeu esta faixa etária como tema central de investigação em 2011.

Esta geração - algures entre os "quinhenteuristas" e os "mileuristas" e com grande dificuldade em  entrar no mercado de trabalho - não esbanja o dinheiro. A esmagadora maioria (73,6%) respondeu que sim à pergunta: “Está a poupar ou poupou para a compra de algum objecto ou actividade em particular?”. Então, para que é que poupam? Metade (49,2%) diz que o faz para viajar e fazer férias, em primeiro lugar, para assistir a concertos e festivais (18,2%) e comprar "gadgets" tecnológicos (13,9%). Guardar o dinheiro numa poupança, para o futuro ou para uma emergência, é coisa que poucos fazem (4,3%).

A "responsabilidade com que estes jovens olham para a vida" foi um dos aspectos que mais surpreendeu Paula Mateus, técnica responsável pelo estudo. "Abandonaram a lógica do 'quero comprar' e preferem a poupança", observa. O investimento nas viagens não é uma contradição em relação a essa responsabilidade: "As viagens, o fazer coisas e não ter coisas, é o que os define". 

À pergunta “tem hábitos de poupança quotidianos ou periódicos?”, 81,2% responderam que sim. Quando confrontados com a possibilidade de ganharem, de forma inesperada, 2000 euros, a maioria dos jovens do painel (71,7%) diz que faria uma poupança com esse dinheiro.

O impacto das crises

O Projecto C interpreta esta necessidade de poupança como um dos impactos que as crises têm na formação das gerações. “Tipicamente, esses jovens tornam-se adultos que investem de forma mais conservadora, que procuram trabalhos mais estáveis, que acreditam na importância da distribuição equitativa da riqueza e na maior intervenção governamental”, pode ler-se no estudo.

É uma geração crítica em relação ao que é bom ou mau no serviço dos bancos, está atenta aos asteriscos, informada quanto às comissões cobradas e focada na disponibilidade de canais remotos. Uma realidade que se desenha como um desafio também para as entidades bancárias: "Criar uma relação com indivíduos que têm como objectivo minimizar o contacto pessoal".

A realidade paradoxal que estes jovens enfrentam – têm mais necessidade de poupar, mas menos rendimentos – é um dos grandes desafios do presente. A incerteza quanto ao futuro, defende o estudo, “parece estar a definir uma relação diferente com o dinheiro: mais consciente e mais planeada”.