Reportagem

Uma barragem de sorriso amarelo

A intervenção de Pedro Cabrita Reis escondeu parte do betão
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A intervenção de Pedro Cabrita Reis escondeu parte do betão Paulo Rica

Intervenção artística na Bemposta traz descontente a população. Mas também há quem goste da iniciativa. Uns dizem que o amarelo é "demasiado berrante", outros que é "maravilhoso".

Em Bemposta, no concelho de Mogadouro, muitos dos 600 habitantes andam com um sorriso amarelo, por estes dias. Desde que a EDP mudou a cor a parte do paredão da barragem, ali a meia dúzia de quilómetros, no Douro Internacional.

Há quem goste da originalidade da iniciativa, mas, na sua maioria, os habitantes da freguesia não se revêem no amarelo escolhido, que muitos consideram mesmo uma ofensa às gentes da terra. A nova cor, alargada a alguns dos muros de contenção de terras, resulta de uma intervenção do artista plástico Pedro Cabrita Reis, que coincide com o aumento de potência na Bemposta (ver caixa).

"Custa-me ver estas coisas", garante Alberto Costa, que trabalhou na construção da barragem, em 1956.

Cláudio Casado, da aldeia da Bemposta, conta que a ideia surgiu por causa de uma máquina, amarela, que está à vista de todos (o pórtico, uma espécie de guindaste).

À margem da polémica está agora o presidente da junta de freguesia. Em Dezembro, António Martins considerou a iniciativa "uma aberração" e chegou mesmo a ponderar manifestações para fazer a EDP mudar de ideias. Entretanto, foi para Angola. E foi de lá que, ao telemóvel com o PÚBLICO, se escusou a comentar o assunto. Já Moraes Machado, o presidente da Câmara de Mogadouro, também não achou piada à pintura "porque se desenvolve numa zona protegida do Parque Natural do Douro Internacional". Mas acredita que dentro de dois ou três anos a cor já desbotou.

A Quercus resolveu denunciar a situação. Diz que "causa um impacto na paisagem", que devia ser protegida.

O Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), que não respondeu ao PÚBLICO devido à demissão da sua direcção, disse à Lusa, em Dezembro, que não tinha sido consultado pela EDP. O então presidente, Tito Rosa, admitiu que o ICNB não tinha de emitir parecer sobre a obra, mas que inquiriu a eléctrica sobre a pintura, ficando sem resposta.

Agora, apesar do desgosto, nota-se uma certa resignação na alma desta gente, encravada ali bem perto das arribas do Douro, num lugar de vistas privilegiadas mas que agora as amaldiçoa. "Claro que não gosto", diz, meio zangado, Carlos Gomes, habitante da Bemposta. Em 2011, a população levantou-se por não haver uma placa a sinalizar a aldeia no IC5. Mas agora diz que, "depois de estar feito", não adianta mais nada. Mesmo assim, mantém a convicção de que "deviam tirar aquilo dali": "Não traz mais visitantes e ainda gozam connosco." Uma revolta partilhada por Ema, outra moradora. "É horrível.Imagine o que dizem as pessoas de fora. Antes, aos domingos, ainda ia lá gente. Agora não vai lá ninguém".

Mas Luciano Moura veio de Mogadouro, de propósito, ver com os seus olhos. E não desgostou. "Não causa muita confusão. Mas também é exagerado considerarmos que é uma obra de arte", atira, entre sorrisos.

Do outro lado da travessia estão dois casais espanhóis, já reformados. Contemplam uma paisagem que, por esta altura, devia estar verde, mas está mais agreste do que no Verão. Mesmo assim, dividem-se nas opiniões. Vieram dos arredores de Zamora. Cândido, por exemplo, torce logo o nariz. "Não, não gosto. É demasiado berrante", defende. Ao lado, as duas espanholas não se cansam de admirar a obra: "É maravilhoso. Só é pena que também não tenham feito o mesmo do lado espanhol. Deve ser porque vocês, portugueses, são mais asseados. Nós somos os sujos de sempre", comentam.

Tiago, um português que trabalha em Espanha, passeia pela barragem e até gosta do que vê. "Não me parece mal. Devia haver mais assim", propõe.

Da parte espanhola do Parque Natural das Arribas do Douro também veio a garantia de que não foram consultados.