The Wire deu algo a Baltimore - e não foi só má fama

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Hector Emanuel

Uma das melhores séries de televisão de sempre mostrou a dor e a estagnação de Baltimore, onde os polícias não são os bons e o crime parece ser a única hipótese. Sonja Sohn, a detective Kima Greggs em A Escuta, viveu assim. Agora dá algo em troca a Baltimore, sob a forma do projecto ReWired, para ajudar jovens em risco.

Sonja Sohn estava frente ao seu público, confiante para a sua actuação. O que não é surpreendente, tendo em conta a sua carreira de actriz, acabada de sair de cinco anos como detective Shakima "Kima" Greggs na série da HBO A Escuta, uma das mais aclamadas da história da televisão. Para projectar profissionalismo, tinha puxado o cabelo para trás e vestido calças engomadas e camisa. A sua motivação era clara, tinha-se documentado e, depois de muitos meses, estava pronta.

No entanto, não havia guião. O seu "palco" era uma sala de aulas na Escola de Trabalho Social da Universidade de Maryland e o seu "público" - constituído por adolescentes e jovens adultos cujas vidas podiam ter servido de base para A Escuta - não estava disposto a dar-lhe nada de bandeja só por causa dos seus créditos passados. Não Tyrea Daniels, 18 anos e que estima ter sido detido oito ou nove vezes por vender droga e roubar carros; nem Latavia Cornish, de 16 anos, que diz que passou a vida "cá fora, a roubar e a ser presa"; ou Sean Hawkins, de 21 anos, que vive "a mitrar" desde que abandonou o liceu, "a vender drogas, a curtir, a roubar, a roubar tudo o que estiver à vista". Eles e cerca de outras 15 pessoas com histórias similares estavam enterrados nas suas cadeiras, entreolhando-se e olhando cautelosamente para Sohn.

Tudo isto aconteceu no final de 2009, durante a primeira sessão de ReWired for Life, programa que Sohn concebera anos antes e a que se dedicou depois do final de A Escuta. Não estava pronta para deixar a série, nem o que ela representou e muito menos as ruas de Baltimore em que foi filmada, para trás. Era mais do que isso, pensou. "Tive um sentimento extraordinariamente forte de que tinha ali um objectivo", diz, na mesma voz sussurrada e gutural tão familiar aos fãs de A Escuta. "Toda a minha vida passou a girar em torno disto."

Isto significava pouco para Daniels, Cornish e Hawkins. Era fixe conhecer Kima porque adoravam a série e adoravam ver a sua realidade no ecrã. E receber comida à borla não era mau. Para além disso, não esperavam muito. Tinham sido instigados a estar ali pelos seus orientadores, pais e agentes de liberdade condicional.

"Estamos a falar de uma população descartável que os adultos há muito deram como perdida", diz Sohn mais tarde. "Estamos a falar de miúdos de que as pessoas desistiram vezes sem conta. Eles sentem que não podem contar com ninguém. Podem ter pais que os amam, mas têm dependido apenas de si mesmos durante tanto tempo que se lhes aparecemos à frente a falar e não acompanharmos isso com actos, tornamo-nos apenas em mais uma dessas pessoas que os desiludiram."

Sohn, então com 40 e poucos anos, tinha a certeza de que, se as pessoas certas encontrassem o ReWired na altura certa, poderiam beneficiar muito do programa e até mesmo transformar as suas vidas. Não esperava que isso acontecesse na primeira sessão, mas acreditava em si, no seu plano e que essa transformação era possível. Mesmo ali, em Baltimore.

Hawkins, por seu turno, não acreditava. Cresceu perto do cemitério de Green Mount, na zona oriental da cidade, depois em Walbrook Junction, na zona ocidental. O pai estava preso. A mãe e o seu namorado encorajavam-no, mas as suas vozes iam-se dissipando quando saía de casa e passava por uma e mais outra casa abandonada. Era claramente inteligente, mas deixou a escola porque as pessoas que via subir na vida - a ganhar dinheiro, miúda e respeito - eram os que viviam entre vigarices e esquemas. Depois de uma série de detenções que o pôs perante a possibilidade de uma pena de prisão longa, começou a ver as coisas de forma diferente. Estava prestes a ser pai e a sua namorada já tinha outro filho, o que significava que estava em vias de abandonar os seus filhos, tal como o seu pai. Resolveu mudar, mas os programas de equivalência do diploma do secundário e a procura de emprego fizeram-no sentir como "um cego numa sala às escuras à procura de um chapéu preto".

Sohn oferecia ajuda, mas Hawkins achou que ali havia esquema. Senão, por que é que ela ali estaria?

"Muito da minha forma de viver nada tem a ver com a lógica", diz Sohn. Mas Hawkins não sabia isso. E talvez nem Sohn se conhecesse. Mas acreditava, isso sim, que sabia aquilo por que estes miúdos tinham passado - porque ela também tinha passado por isso.

A infância violenta de Sohn

Conseguir o papel de Kima foi uma grande oportunidade, mas, quando as filmagens começaram em 2002, Sohn estava mergulhada em ansiedade, esquecia-se de falas e sentia-se desorientada. Era uma actriz profissional de 30 e tal anos. Já tinha experiência. Não devia ser tão difícil.

Mas A Escuta não era uma série de TV normal. Ao longo de cinco temporadas, fez a crónica dos esforços desiguais e por vezes quixotescos da polícia, dos drogados, dos professores, dos estivadores, dos miúdos e dos ex-reclusos para melhorarem a sua vida. A equipa de argumentistas, chefiada pelo ex-jornalista do Baltimore Sun David Simon e que incluía o professor e ex-detective de Baltimore Ed Burns, não estava a tentar criar entretenimento no sentido estrito da palavra, diz Simon. Mas sim "uma dialéctica sobre questões urbanas e pobreza, a guerra às drogas e a economia".

Pugnavam pela autenticidade acima de tudo, recusando implacavelmente dar finais felizes e usando a linguagem, o local de filmagens e a narrativa para levar os espectadores para um mundo em que, como diz Simon, "as pessoas foram separadas económica, social e politicamente do resto da América" - e, depois, insistindo que todos partilhemos a noção do que está em causa e a responsabilidade pelo futuro que estamos a construir.

Sohn, no entanto, estava "a balançar toda" com aquele material de trabalho. Crescera em Newport News, no estado da Virginia, numa zona muito parecida com os bairros de Baltimore em que se passava A Escuta. Na terra dela, os polícias não eram os bons, por isso só o facto de agir como tal era perturbador.

A mensagem geral da série tornava-a saborosa, diz Simon. "Penso que isso a aliviou bastante, porque acho que estava horrorizada, de forma latente, com o facto de desempenhar um polícia numa série de polícias", mas as vidas fracturadas nos guiões despertaram recordações espinhosas. O seu pai era um veterano do exército dos bairros pobres de Winston-Salem, na Carolina do Norte, a sua mãe uma coreana que ele conheceu em missão e que cresceu nos piores momentos da Guerra das Correias. Sohn foi criada num bairro social parecido com os prédios baixos de West Baltimore que a brigada antidroga controlava na primeira temporada de A Escuta. Tanto nas ruas quanto na sua casa havia bastantes lutas. O pai era dado a surtos violentos durante os quais batia na mãe de Sohn, ameaçando fazer-lhe ainda pior.

O seu lar tornou-se um lugar de pura infelicidade, ainda mais quando uma babysitter começou a molestá-la. Quis fugir mas não queria deixar a mãe sozinha com os abusos do pai. Agachada num beco próximo, escrevia os seus pensamentos nas paredes com um pedaço de tijolo partido. Ou ia até ao pátio da escola, trepava um escorrega em forma de foguetão e dizia, vezes sem conta, "vai melhorar". Até que um dia melhor não era suficiente. "Vai ser óptimo", anunciou.

"Não fico impotente por muito tempo", diz. Mas na escola, com o desporto e a poesia a mantê-la a mexer na sua juventude, também começou a consumir e a vender erva e cocaína. Ainda assim, conseguiu manter as boas notas e um emprego durante o liceu e depois foi para Nova Iorque, onde começou, sem acabar, um curso superior de Design. Contudo, apaixonou-se e casou-se com um homem que descreve como simpático, estável e de classe média. Tiveram duas filhas e viveram confortavelmente em Brooklyn, mas o caos nunca estava longe. Continuava a consumir drogas e o seu irmão, que tinha os seus próprios problemas com drogas na Carolina do Norte, foi morto a tiro depois de se ter aproximado de uma mulher com um namorado violentamente ciumento.

Sohn percebeu que tinha de mudar muita coisa. A terapia intensa e uma dolorosa auto-reflexão ajudou-a a deixar a droga e a recalibrar a sua vida. O casamento não sobreviveu, mas aquilo a que chama a sua "cicatrização" envolveu o remendar de dores que ela tanto tinha sofrido como infligido. Com o tempo, estabeleceu bons relacionamentos com o seu ex-marido, com as filhas e até com os pais - que, acabou por pensar, fizeram o seu melhor apesar dos seus próprios passados tumultuosos.

E estava grata pela devoção da mãe (que já morreu) e pela protecção que tentou dar-lhe. Sohn também estava grata pelo incentivo do pai e pelos seus ensinamentos sobre justiça social. Ele sempre discutiu os temas da actualidade com a jovem Sonja, sempre apontou os líderes políticos e cívicos que admirava por tentarem melhorar a vida dos outros. A violência, acredita Sohn, provinha de uma doença mental não diagnosticada ou mal tratada, um aflorar da sua juventude - durante anos, não o deixaram tocar na sua mãe, tuberculosa - e do tempo de missão na Coreia. Décadas depois, foi tratado, encontrou uma igreja para o apoiar e tornou-se novamente numa parte positiva da vida dela.

Baltimore, cidade estagnada

Kima e Sonja perseveraram juntas: a personagem sobreviveu a um tiroteio e a actriz ajustou-se ao seu papel e interessou-se cada vez mais pelas narrativas da vida real à sua volta.

Simon e Burns, que tinham passado um ano a escrever sobre um quarteirão repleto de drogas para o livro The Corner, conheciam intimamente o doloroso desespero e a resignação estagnada que afectava muita da cidade alcunhada como Charm City. Jamie Hector, o actor de Brooklyn que fazia o papel do barão de droga em ascensão Marlo Stanfield, dirigia um grupo teatral sem fins lucrativos dedicado a jovens em risco em Nova Iorque. Gbenga Akinnagbe - ou Chris Partlow, o atirador a soldo de Stansfield - era filho de imigrantes nigerianos e passou parte da sua juventude em abrigos antes de usar os seus dotes na luta livre para conseguir ir para a universidade. Para eles e para outros, o material de A Escuta era pessoal e importante, parte de algo maior.

Em 2008, depois da temporada final, Sohn, Hector e Akinnagbe foram até à Carolina do Norte para fazer campanha por Barack Obama. Sohn ficou estarrecida ao descobrir que tinham herdado do seu trabalho em A Escuta uma plataforma que lhes permitia ser ouvidos. "Aconteceu-lhe algo", diz Hector. "Acho que se apercebeu da mudança que conseguia provocar na vida dos jovens."

Sohn começou a perguntar-se: e se levassem A Escuta às escolas, dissecassem como as personagens transpunham o seu ambiente e pusessem os miúdos a falar de como faziam o mesmo nas suas vidas? Será que isso podia ajudá-los a sair de si e ver como estavam a tomar decisões, que podiam existir outras possibilidades?

Partilhou a ideia com Simon, dizendo que gostaria de criar uma organização chamada ReWired for Change (ReWired for Life ainda é um programa piloto). "Fiquei surpreendido", diz Simon. A maior parte das pessoas da TV e do cinema que adoptam uma causa, acrescenta, "dizem umas coisas, vão a um jantar, doam algum dinheiro, mas isto tratava-se de tempo. O tempo é o derradeiro gasto." Deu-lhe a sua bênção, mas ficou preocupado. Como iria Sohn angariar dinheiro? Conseguiria ser bem sucedida onde até os mais bem intencionados cidadãos de Baltimore tinham falhado? "Havia uma parte de mim que queria abraçá-la e dizer-lhe: "Estás prestes a embarcar numa viagem"."

Sohn reuniu conselhos e apoio nas conferências e salas de aulas das universidades para que os actores da série eram frequentemente convidados. Cultivou contactos locais e pediu a Simon e aos colegas de elenco para integrarem a comissão e doarem dinheiro. Alguns cidadãos de Baltimore angariaram fundos. Para cobrir as faltas, pensou Sohn, "posso secar as minhas poupanças até arrancarmos".

ReWired for Life, pensou, deve basear-sena comunidade, justiça social e teoria académica. Os seus colaboradores tinham de ter credibilidade. Recrutou Ted Sutton, que no final dos anos 1980 tinha sido um dos maiores nomes (e armas) do gangue de Melvin Williams, um barão da droga de Baltimore, e que agora aconselhava membros de gangues que queriam abandoná-los; e Greg "Shamsuddin" Carpenter, um muçulmano convertido que passou duas décadas preso e que agora ajudava ex-reclusos a adaptar-se à vida fora da prisão.

Ambos estavam presentes quando Sohn conheceu Hawkins, Daniels, Cornish e os outros na sessão inaugural para explicar que iam embarcar em quatro "módulos" de 12 semanas. Inicialmente, diz Sohn, focar-se-iam na auto-reflexão, em formas de "se tornarem mais cientes de si e da sua história para perceber como chegaram ao ponto em que estão". O segundo módulo iria versar sobre "como pensam e como a forma de pensar influi nas decisões que tomam". O que foi saudado com um encolher de ombros colectivo, mas ela continuou. "As peças seguintes giram em torno da vossa compreensão do mundo à vossa volta" - relacionamentos e ligações com amigos, família, grupos e polícias - e depois "levar esse modelo de pensamento crítico ao mundo à vossa volta, para que possam dar algo em troca."

Dos episódios para a vida

Encontravam-se duas vezes por semana, duas horas por dia. Viram partes da primeira temporada da série, centrada no tráfico de droga. Depois, Sutton, Carpenter e Sohn tentaram fazer com que os participantes discutissem o que tinham visto e relacioná-lo com as suas vidas. Nos primeiros tempos, a conversa era abafada. Isso mudou depois de verem excertos da temporada 4, nos quais quatro alunos do 8.º ano - Naimond, Dukie, Randy e Michael - lidavam com o crescimento e tentavam vingar nas ruas. As personagens começavam a perceber o que queriam, do que precisavam e até que ponto estavam sozinhos. Nesse dia, lembra Hawkins, "começámos todos a falar".

Motivados por outros episódios e exercícios nas semanas seguintes, começaram a partilhar histórias de vidas domésticas fracturadas, amigos mortos, situações-limite e encontros com a polícia. Falaram sobre moralidade, causa e efeito, decisões e consequências. Sohn nunca ignorou a sua responsabilidade, mas sabia que eram pessoas moldadas por acontecimentos em várias gerações, que desenvolveram as aptidões de que precisavam para sobreviver, mesmo sendo destrutivas. Daniels, por exemplo, viveu sempre com famílias de acolhimento, de casa em casa, sem dinheiro, sem uma verdadeira sensação de segurança. "Tyrea não tem família", espanta-se Hawkins. "Nunca conheci alguém que diga "não tenho família" e isso seja mesmo a sério." "Comecei a cometer crimes porque queria, porque me apetecia. Ele fá-lo porque tem de o fazer. Ele rouba porque tem de o fazer."

Daniels lembra-se de ter sido intimado a ficar na escola, mas a escola era apenas mais um sítio em que tinha de se proteger. "Quando vou à escola, tenho de olhar sempre por cima do ombro." E depois da escola, "quando ando na rua, tenho de olhar por cima do ombro."

O grupo passou de 20 a 15, depois a dez. Os que ficaram, contudo, estavam cada vez mais empenhados. Sabiam que Carpenter, Sutton e especialmente Sohn não tinham de ali estar. Hawkins diz que desenvolveu confiança. No final das sessões, Sohn e Carpenter conduziram uma visita de grupo à Carolina do Norte, com uma paragem no caminho em Newport News. "Ela mostrou-nos o bairro pobre de onde vem, a escola em que andou", recorda Daniels. Para ele, foi como se ela lhes dissesse: "Eu passei por isto e reorganizei a minha vida." E eles também o poderiam fazer.

O grupo tornou-se na sua própria rede de apoio. Quando Cornish viu o seu tio ser morto a tiro num churrasco e, quando o meio-irmão mais novo de Hawkins e outro amigo foram assassinados nuns degraus em East Baltimore, puderam contar com outros que percebiam aquilo por que estavam a passar. Noutros tempos, Hawkins teria procurado vingar-se, mas tinha levado a peito a lição de que "as escolhas que fazemos têm consequências".

Este não foi o último desafio de Hawkins. Sohn nomeou-o para uma iniciativa da autarquia contra a violência dos gangues, pela qual iria receber um prémio na câmara. No dia da cerimónia, enquanto esperava pela boleia de Sutton, Hawkins recebeu um telefonema. Um grupo tinha ido à casa da sua mãe em busca do namorado da sua irmã gémea. Hawkins não sabia a história toda. Mas "a minha irmã gémea é tudo para mim", diz, enraivecendo-se com a recordação. "Quando ela liga, eu vou a correr, porque ela não me chama por uma coisa de nada."

Sutton, um homem imponente conhecido como "Crazy Ted" nos seus tempos de gangster, tinha passado por algo parecido quando estava a sair da rua. Na véspera de se licenciar, o seu grupo quis a sua ajuda para tratar de um rival. Ele recusou e no dia seguinte tinha terminado o curso. Canalizou essa experiência para aconselhar Hawkins, cuja raiva conseguia ver. Sutton lembra: "Eu disse-lhe: "Olha, esta é aquela encruzilhada. Já podes ver o cenário na tua cabeça como um jogo de xadrez"." Haveria um confronto, depois retribuição e alguém ia acabar preso ou morto.

"A possibilidade de fazer as coisas de forma diferente - isso é a chave", diz Sutton. "Muitos deles nem sequer vêem outro caminho."

Reincidências

O segundo grupo era um pouco mais velho e tinha necessidades diferentes. Nikita Brady estava exausta depois de anos passados nas esquinas a passar droga, a lutar e a roubar. A sua melhor amiga tinha sido morta a tiro. Tinham-lhe dito que podia jogar basquetebol na universidade se conseguisse entrar, mas "não tinha aquele empurrão extra, aquela motivação, até conhecer a Sonja", diz.

"Começámos a ver", diz Sohn, "que, apesar de o programa ser muito útil, sem o diploma liceal e sem emprego, aos 19 anos e ao deixar o tráfico de droga..." Pausa. "Se nesse momento não se consegue ganhar dinheiro para sustento, o resto é discutível." Os participantes precisavam de aptidões práticas que não podiam aprender a ver A Escuta - como escrever um currículo, abrir uma conta no banco, lidar com entrevistas de emprego ou questões legais.

Por isso, Sohn adiou a terceira sessão e começou a adaptar a versão original do programa. Mas surgiu uma nova oportunidade. O pastor Marshall Prentice da Zion Baptist Church em East Baltimore disse que Sohn podia usar uma casa da igreja se a arranjasse. Era perto de esquinas conhecidas como locais de tráfico. Há muito que imaginava uma casa para o programa, que servisse como uma âncora na comunidade que o ReWired tentava envolver.

Três meses mais tarde, um enorme estandarte dava as boas-vindas a todos para um churrasco na Village House. O interior estava agora limpo, arejado e agradável. Dezenas juntaram-se à frente da casa e Sohn distribuía apertos de mão, abraços e dizia a todos para comerem qualquer coisa. Sutton estava lá - quando uma senhora lhe disse que tinha vindo de um funeral, ele perguntou "jovem ou velho?". Hawkins também lá estava. Tinha encontrado emprego numa empresa de jardins mas esperava por algo com melhor ordenado. A sua mulher, Shakiara, estava prestes a começar uma curta pena de prisão por fraude, por isso caber-lhe-ia tratar dos miúdos.

Sohn também começou uma coisa nova, como detective Samantha Baker na série Corpo de Delito (Fox Crime), rodada em Providence. Um papel secundário numa série de polícias tradicional, mas também uma forma de se manter a trabalhar e ajudar a financiar o ReWired.

No final de 2010, o terceiro "módulo" continuou adiado e tinha dificuldades em encontrar as pessoas certas para gerir o ReWired e a Village House. No início de 2011, Daniels foi preso porque assaltou um casal idoso depois de a sua mãe adoptiva o ter posto na rua. Estava sem abrigo há semanas. Sohn ficou enternecida por ele lhe ter telefonado e ter admitido o erro. O que mostrou reflexão e noção da responsabilidade, acha ela, parte do que tinha tentado instilar-lhe. O grupo escreveu-lhe durante a prisão preventiva, enviou dinheiro - frisando sempre que ele tinha de fazer escolhas melhores.

Uma noite em Março de 2011, Daniels chegou à Village House para uma reunião do ReWired. Só saberia a sua sentença no Verão, mas estava desencorajado. Nas semanas desde que saíra da prisão estava a tentar cuidar da filha, mas as entrevistas de emprego emperravam quando vinha à baila o seu cadastro. Mais: a juíza já lhe tinha dito que lhe daria 19 anos de prisão se o visse novamente.

Brady estava lá. Esforçava-se para conseguir o diploma de liceu porque lhe tinham dito que isso a ajudaria a obter uma bolsa para a universidade. Hawkins chegou com o filho, ainda à procura de algo melhor do que o emprego que lhe pagava 5,5 euros por hora. A sua mulher estava prestes a sair da prisão de Jessup, mas por enquanto era "um pai a tempo inteiro". "Perdi muitos amigos porque as pessoas me diziam as coisas mais estúpidas, como "porque é que não o entregas à tua mãe e vais para a rua ganhar o teu?"" A resposta era simples: "O meu pai não estava lá e podia ter estado. Nada na Terra vai afastar-me do meu filho. E de saber que tudo o que faço por ele e pela minha família faz de mim uma pessoa melhor. E este programa fez-me ver que não há outra forma."

Os miúdos gerem a casa

Em Julho, a equipa da ReWired juntou-se outra vez na Village House para uma espécie de despedida. Corpo de Delito ia mudar-se para Los Angeles - e Sohn ia com ela.

Koli Tengalla, activista comunitária contratada para gerir a Village House, juntou-os. O programa tinha sido sempre desenhado para funcionar sem Sohn. Depois de ela os deixar, Hawkins, Brady e os outros pediram mais responsabilidade e angariaram fundos para dar orientação sobre diplomas liceais e para comprar material escolar para os mais jovens.

Depois de sair da prisão, Shakiara Hawkins estagiou na Village House e depois foi contratada como assistente. Sean Hawkins encontrou um emprego mais bem pago no armazém de uma produtora gerida por um homem que conheceu Sohn e lhe ofereceu ajuda. Brady trabalha e está na universidade comunitária do Condado de Baltimore e na equipa de basquetebol. Até Daniels tinha tido boas notícias: foi sentenciado a 61 dias de prisão pela juíza, que terá balançado com a sua história e com o juramento de honra que fez ao tribunal e aos colegas da ReWired, alguns presentes na sala.

Mesmo com o trabalho na Califórnia e uma série de problemas de saúde que a afectou no Outono passado e que a levaram aos cuidados intensivos, Sohn trabalha de perto com Tengalla para planear os próximos passos para a Village House, tentando criar um elemento de saúde mental no programa e ligando pessoas como Hawkins e Brady a serviços que a ReWired não pode fornecer, como aconselhamento laboral. Também procura novas fontes de financiamento e leva o programa a painéis de debate em Harvard e à task force Defending Childhood, do procurador-geral Eric Holder.

Em Dezembro, pouco depois de sair do hospital, voou até Baltimore para testemunhar na primeira audiência da task force. Com a voz trémula, contou a sua história de transformação, vincando que ela conseguiu e que há muitos miúdos em Baltimore e noutros locais que podem consegui-lo - se tiverem a ajuda certa.

Não funciona sempre, mas "sei o que é possível".

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Exclusivo Pública/The Washington Post

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