Sigamos o assobio do violinista

Passou uma temporada no bairro lisboeta da Graça inspirando-se para Break It Yourself - onde há uma canção chamada Lusitania
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Passou uma temporada no bairro lisboeta da Graça inspirando-se para Break It Yourself - onde há uma canção chamada Lusitania Cameron Wittig

“Algures” na Bélgica, Andrew Bird sentiu esvaziar-se. Nesse momento, caiu sobre ele uma nova claridade. Voltou a confiar nas pessoas, juntou três músicos no espaço íntimo que é o seu celeiro-estúdio no Illinois e o resultado é “Break It Yourself”, o seu novo álbum, com edição a 5 de Março. “É impossível partires o teu próprio coração”, disse-nos em Londres

Para quem se recorda de o ver numa das primeiras passagens por Portugal, em 2004, quando o seu nome era ainda um segredo que "The Mysterious Production of Eggs" tornara menos secreto, há justiça romântica no que se passou em seguida. O homem que surgiu perante nós, violino nas mãos e meias coloridas sobre a "loop station" que lhe permitia processar em tempo real várias melodias de violino, linhas de guitarra, assobio e harmonias de voz, tornou-se depois de "Armchair Apocrypha" e de "Noble Beast", os álbuns seguintes, um músico respeitadíssimo e popular: meio milhão de discos vendidos nos EUA, digressões esgotadas em qualquer país onde ponha as meias coloridas e os elogios unânimes a uma música já definida como "pós-género" - ter a pender sobre ele definição tão insatisfatoriamente académica é o preço a pagar pela singularidade da música.

No início da década passada, Andrew Bird fazia a vida de músico vagabundo, carregando violino e guitarra na carrinha que havia de soluçar e ameaçar não chegar à cidade seguinte, mas ei-la que chegava e ele, pés descalços sobre o palco, tocava para uns quantos que poderiam muito bem virar costas à música e continuar o seu jogo de bilhar. No final de Janeiro de 2012, quando o Ípsilon foi ao seu encontro para lhe ouvir novas de "Break It Yourself", o sétimo álbum da sua carreira, com edição marcada para 5 de Março, a alteração do cenário relativamente ao que conta a biografia dos seus primeiros tempos é evidente.

Deixando para trás o Parlamento Britânico, atravessando a ponte de Westminster e, nela contornando os casais, os grupos de amigos, as famílias e as pequenas equipas de televisões de que nunca ouvimos falar que filmam e fotografam o Tamisa e a paisagem urbana de Londres; contornando e caminhando um pouco depois disso, entramos no hall do luxuoso hotel londrino em que Bird está alojado para responder às questões da imprensa europeia. No hall, ao nosso lado esquerdo, um bar de design muito moderno, portanto muito retro, onde gente aprumada bebe cocktails e come sanduíches frente a laptops, iPads, iPhones, enfim, ecrãs. À nossa frente estende-se um lanço de escadas rolantes e uma escadaria que parece ideal para musical de aparato. De repente, um alvoroço.

Os seguranças deixam as suas posições e convergem para a saída das escadas rolantes. Os olhares de quem entra e de quem espera no hall concentram-se naquele homem, na estrela que se aproxima. Os seguranças abraçam-no e pedem-lhe autógrafos. Ele coxeia levemente, queixa-se de dores no ombro - ossos do ofício - e sorri enquanto procura afastar os braços que o envolvem. Mas avancemos. Este texto não é sobre Hulk Hogan, o veterano wrestler que passeou por Londres na mesma altura. De volta a Andrew Bird.

Já não é o músico anónimo em digressão por pubs perdidos em terriolas americanas. Já nem é o micro fenómeno indie das primeiras passagens por Portugal. Mas nunca seria abraçado como Hulk Hogan e a natureza da sua música, a curiosidade artística que nela pressentimos - no último álbum, pode-se ouvir Norte de África e o Sul dos EUA no espaço de uma canção, pode-se viajar de "Lusitania" à "Danse Caribe" -, mantém-se inalterada. Foi o que descobrimos quando fomos conduzidos à suite onde Bird nos abriu a porta, nos ofereceu um sumo e se pôs à escuta.

"Break It Yourself", o novo álbum, foi gravado com um núcleo duro de três músicos (o baterista Martin Dosh, o guitarrista e teclista Jeremy Ylvisaker e o baixista Mike Lewis) no celeiro reconvertido em estúdio que Andrew Bird mantém no Illinois. Foi a primeira vez que o fez. "Resisti durante anos. Porque quereria levar toda a loucura das gravações para um espaço assim?" Andrew Bird não queria antes corromper a sua intimidade. Desta vez foi diferente. Porque se estabeleceu em Nova Iorque e, portanto, o celeiro estúdio já não é a sua casa. Mas, principalmente, porque algo mudou entre "Noble Beast" e "Break It Yourself". Foi pai. E elegeu como tema do álbum "a sobrevalorização da autonomia".

Andrew Bird, o solitário, confessa que voltou a "acreditar nas pessoas": "Ser auto-suficiente, como fui durante dez anos, em que não precisei de uma banda e conseguia viajar pelo mundo, funciona até chegar a um ponto em que te perguntas: ‘e então?' Podes massajar as tuas próprias costas, mas não te sabe ao mesmo. E não podes quebrar o teu próprio coração [o título ‘Break it yourself', é sobre essa impossibilidade]". Percebeu-o "algures" na Bélgica, por altura de "Noble Beast", quando se sentiu "atingir o ponto zero": "Imaginei se havia um limite para tudo o que pudesse pôr cá fora e era notório que o tinha atingido. Zero. Estava a esvaziar-me de mim todas as noites e apercebi-me da claridade que surge de estar tão vazio. Algo aconteceu a partir desse momento".

À primeira audição, as alterações não parecem tão dramáticas. Diríamos até que, pela primeira vez, há um fio condutor evidente entre um novo álbum de Bird e o seu antecessor. Os instrumentos utilizados são os mesmos, já a natureza da música, assegura, é diferente. "‘Noble Beast' foi cuidadosamente construído", "Break It Yourself" são quatro pessoas num quarto a gravar ao vivo em "improvisação selvagem". Basicamente, cansou-se do trabalho de produção e queria um disco que fosse uma "actuação": "completamente honesto e o mais próximo possível do que acontece em palco". "Eyeoneye", o primeiro single, "é exactamente o que aconteceu [no estúdio]. Não tem ‘overdubs', não cortámos nada".

Inalterável é a ideia de fazer da sua música um "poço de cultura humana em vez de dramas específicos". Não surpreende que nos confesse que se sente mais "cidadão do mundo" que "americano". E, curiosamente, Portugal até tem sido referência pontuando generosamente a sua música. Já escreveu sobre "porto-centric Lisboans" e, em 2010, passou uma temporada no bairro lisboeta da Graça, inspirando-se para "Break It Yourself". Nele, até encontramos uma belíssima canção chamada "Lusitania", balada em queda que partilha com St. Vincent, e a Lusitânia afunda-se e tudo mas não é retrato deste país - a sua "Lusitania" é metáfora romântica, não política.

Andrew Bird é um homem que deseja mundo, mas o berço é o berço: "Volto sempre à música sacra do sul dos Estados Unidos [o gospel], ao blues e jazz dos primórdios". Agrada-lhe a "ausência de ego" daquela música. Entusiasma-o a felicidade que lhe traz. "Não sou uma pessoa inteiramente religiosa, mas sinto-me feliz a cantar o Velho Testamento. Está cheio de boas metáforas sobre todos os aspectos da existência humana. Não será por acaso que anda por aí há uns tempos". Di-lo e sai-lhe um quase sorriso.

Até há pouco tempo, dizia-se obcecado, atormentado, pela ideia de apocalipse. Pressentia que não havia razão lógica para nós, seres humanos, nos aguentarmos todos na harmonia possível e, apesar das guerras, dos crashes da bolsa, dos impérios que caíram sem deixar rasto, do absurdo de não sabermos quem raio é que decide preservar as nossas memórias (porque estas e não outras quaisquer?), tudo pareça continuar sem explodir na gigantesca bola de fogo da nossa crueldade, falta da aptidão ou inata inabilidade para perceber que não somos mais que a minúscula parcela de uma organização que escapa à nossa compreensão.

Hoje já não acorda com suores frios a pensar no apocalipse. Serenou a angústia porque foi ultrapassado pela realidade: "[O apocalipse] Já começou a desenrolar-se e, aparentemente, ainda estamos aqui", diz na sua voz sussurrada em que as palavras são proferidas muito lentamente, depois de muita ponderação, e como que engolidas em seguida, como se cada uma delas pudesse não ser exactamente a que procura e, portanto, possível causa de arrependimento posterior. Conhecendo-lhe as canções e o que cuidado que põe nas palavras que canta, tal comportamento não é surpreendente - e sim, devemos prestar atenção ao que diz Andrew Bird.

Em 2005, em "Tables and chairs", canção justamente apocalíptica, ouvíamo-lo "I know we're gonna meet someday / in the crumbled financial institutions of this land / There'll be tables and chairs / Pony rides and dancing bears / There'll even be a band / ‘Cause listen, after the fall / there'll be no more countries / No currencies at all". Aqui estamos hoje, a arrastar-nos entre os destroços deixados por instituições financeiras e se houver uma banda a tocar, passeios de pónei e ursos dançarinos quando os países desaparecerem e as unidades monetárias forem desta para melhor, poderemos sempre procurar Andrew Bird. Em "Lazy projector", uma das canções de "Break it yourself", questiona porque temos tão pouco controlo sobre as coisinhas da nossa vida. Ou seja, desiludamo-nos. Andrew Bird não tem respostas. Diz-nos que não devemos procurar o sentido das coisas, que devemos compreendê-las no seu absurdo. Mas, alegremo-nos: as suas belíssimas canções são uma vitória sobre essa impotência. Sigamos pois o assobio do violinista.


O Ípsilon viajou a convite da Coop.