Feira de arte contemporânea

A Arco olha para a América Latina. E eles olham para cá?

Obra da argentina Alicia Herrero, uma das artistas latino-americanas em destaque na arco
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Obra da argentina Alicia Herrero, uma das artistas latino-americanas em destaque na arco DR

Os artistas latino-americanos estão em alta. Mas há galerias da América Latina que preferem não vir à Europa. A relação cultural é forte, mas há quem receie que, com a crise, não compense atravessar o Atlântico.

A galeria parece um stand de vendas de electrodomésticos. Uma rapariga de botas brancas, saia azul rodada e camisola vermelha, como que saída de um anúncio da televisão americana dos anos 50, faz um discurso, em tom publicitário, sobre o mercado da arte, e os factores insondáveis que fazem com que o valor de um artista suba ou desça. Ao lado dela está uma caixa semelhante às de detergente onde se lê Auctions Market & Money.

Este trabalho da artista argentina Alicia Herrero é apresentado na Arco, a feira de arte contemporânea de Madrid que encerra amanhã, pela galeria holandesa Mirta Demare, e é a própria Mirta, vestida de preto e com uns óculos bicudos, quem dá explicações. "Os artistas latino-americanos estão começando a ficar em alta", diz, num português com forte sotaque brasileiro. "Eu sempre trabalhei com eles, mas há dez anos, quando comecei [a galeria é de Roterdão], foi muito difícil. Os holandeses gostam de coleccionar os grandes nomes e não aceitam bem nomes que não conhecem."

Entretanto as coisas mudaram e os artistas da América Latina estão entre as estrelas da 31ª edição da Arco, que lhes dedica uma secção especial, a Solo Projects, para a qual seis comissários de diferentes países da América do Sul seleccionaram galerias.

O comissário brasileiro é Caué Alves. Jovem, cabelo encaracolado, sorriso aberto, começa por dizer que "a Arco é uma feira muito reconhecida", mas confessa que houve várias entre as grandes galerias brasileiras que recusaram o convite. "A circunstância em que a Espanha está economicamente prejudica a feira."

Para as galerias é caro vir até Madrid e, com a Europa mergulhada na crise, muitas receiam que as vendas não compensem. Do Brasil vieram seis, tal como da Argentina, do México três, do Chile duas, outras duas da Colômbia; Costa Rica, Panamá e Peru têm apenas uma.

Mas esta prudência é passageira, acredita Caué, sublinhando a qualidade dos projectos trazidos pelos que decidiram vir. "Apesar de não haver um retorno financeiro, há uma importância cultural e política no facto de estar na Arco." A Vermelho, de São Paulo, é uma das que optaram por vir e Eduardo Brandão e Eliana Finkelstein não têm dúvidas de que "é importante para o Brasil estar aqui".

Eliana explica que a sua galeria vê a Espanha "como uma porta de entrada para a Península Ibérica" e conta que o stand na Arco, onde apresentam o trabalho da artista brasileira Lia Chaia, tem sido mais visitado por portugueses do que por espanhóis.

Curiosamente, nesta edição em que cada galeria foi convidada a destacar um artista, há três portuguesas que destacam brasileiros. Vera Cortês, da Vera Cortês Art Agency - que representa a dupla brasileira Detanico e Lain -, aconselha a não ver nisto nenhum sinal particularmente significativo. "Comecei a mostrar os Detanico e Lain em 2008. Ainda não os tinha trazido à Arco, e como a feira está a fazer um foco na América Latina achei que era uma boa escolha."

Claro que há sempre uma relação de proximidade - "O facto de falarmos a mesma língua facilita a compreensão dos trabalhos", admite Vera. Mas não acredita que isso seja uma estratégia delineada pelas galerias portuguesas. Este ano aconteceu, mas em grande parte porque corresponde a uma aposta da própria Arco. "E o Brasil é naturalmente um sítio que está a crescer, com artistas superinteressantes."

Também Manuel Santos, da Galeria Filomena Soares, que trouxe à secção Solo Projects outra dupla radicada no Brasil, Dias & Riedweg, diz que se tratou de uma coincidência - até porque estes são os únicos brasileiros que representam. "Somos mais europeus", afirma Manuel Santos, lembrando que a galeria portuguesa que tem uma relação longa com o Brasil é a Graça Brandão.

E, de facto, José Mário Brandão destacou no seu espaço Lygia Pape. E recorda com alguma tristeza que em 1999 a levou pela primeira vez ao Porto "e ninguém a conhecia em Portugal". "O Brasil sempre teve grandes artistas", diz. Mas se antes "achavam que Portugal era uma porta de entrada na Europa, hoje já não é assim". De qualquer forma, "Portugal nunca soube aproveitar isso, ao contrário de Espanha".

Agora o resto do mundo está a descobrir os artistas brasileiros e há em relação ao trabalho deles uma enorme curiosidade. "O Brasil está a viver um boom", confirma Caué Alves. "Todas as feiras batem recordes de vendas. O que tem de galerias novas criadas nos últimos cinco anos é impressionante. Eu não consigo dar conta de ver todas as exposições em São Paulo. E há muitos artistas formando-se nas universidades. Quanto mais demanda tem, mais se cria, e cria-se uma perspectiva de futuro para estes artistas."

"Se a economia se muda para esse novo mundo financeiro que são os países emergentes, a arte vai atrás dele", dizia há dias ao diário espanhol El País o coleccionador Marcos Martín Blanco." E nessa viagem o Brasil é uma paragem obrigatória, sublinhava o autor do artigo, Miguel Ángel Garcia Veja, também ele coleccionador e especialista em economia. Sinal disso é o facto de já ter surgido o primeiro fundo de investimento especializado em artistas brasileiros contemporâneos, o Brazil Golden Art.

Ainda fará sentido falarmos de portas de entrada na Europa?

O P2 viajou a convite da Turespaña

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