Entrevista

Ministro holandês: “O dinheiro que emprestamos” não pode ser “consumido pelas chamas”

Ben Knapen diz que quem viveu acima das possibilidades tem agora de pagar o preço
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Ben Knapen diz que quem viveu acima das possibilidades tem agora de pagar o preço Dário Cruz

O ministro holandês dos Assuntos Europeus e Cooperação Internacional, Ben Knapen, esteve esta semana em Lisboa para um encontro com as autoridades nacionais. Numa altura em que se diz que alguns países do Norte europeu, como a Holanda, estão a pressionar para uma saída da Grécia do euro, Ben Knapen falou ao PÚBLICO sobre a crise da dívida europeia, mostrando reservas sobre a situação grega e defendendo que os periféricos têm de provar que merecem o auxílio do resto da Europa.

Com o acordo político na Grécia para um novo resgate, o problema do país fica resolvido?

É um passo importante. Mas não estou seguro que isto resolva o problema de uma vez por todas. Ainda há muito a fazer. Tomar uma decisão e conseguir uma maioria parlamentar é uma coisa. A execução dessas decisões é outra. Em 2010, também vimos uma Grécia muito determinada em sair desta crise, mas, em 2011, houve derrapagens... É um bom passo, mas é um anúncio que tem de ser seguido de acção. E, claro, é lamentável que estejam a ocorrer todos estes protestos [em Atenas], pois estão a comprometer os esforços do Governo de criar uma situação de estabilidade.


Esta é a ultima hipótese que estão a dar à Grécia?

Bem… Não quero falar em primeira ou última hipótese. Tivemos agora a decisão do parlamento grego, teremos um relatório da


troika

até ao final da semana. E todos esperamos que isto seja suficiente para nos permitir tomar a decisão de desembolsar a nova tranche de financiamento.

O primeiro-ministro holandês disse recentemente que seria menos arriscado se a Grécia saísse da zona euro…

É preciso colocar isto em perspectiva. Há um ano, o perigo de contágio era tão grande e evidente que os riscos para Portugal, Espanha e Itália de que algo corresse mal na Grécia eram demasiado grandes. Agora, conseguimos chegar a acordo sobre um conjunto de regras para ter uma melhor governação na zona euro. Além disso, conseguimos ter um fundo de emergência caso algo corra mal. E, finalmente, países que são centrais no que toca à estabilidade da zona euro, como a Itália, a Espanha ou Portugal, estão a tomar as medidas certas para recuperar a estabilidade e a confiança. Mas é sempre difícil prever o futuro. Por isso queremos ver a Grécia a gerir a sua crise de uma forma que se encaixe, não só na estabilidade do país, mas de toda a zona euro.


E se não encaixar?

Se não encaixar, então não haverá desculpa e a Grécia tem de assumir a responsabilidade. Mas se compararmos com há um ano, houve mudanças positivas na zona euro. Claro que o processo é lento e leva tempo. Estamos numa crise da dívida gigantesca, que não se resolve com uma conferência ou num encontro.


Os líderes europeus estão a tentar tornar o caso grego único e excepcional… É de facto assim?

Não são apenas os líderes europeus que estão a fazer da Grécia um caso isolado. A questão é se é de facto um caso único. E até onde conseguimos ver, se considerarmos a quantidade de dívida, o prolongado período de défices, a posição dos bancos, a posição da dívida pública grega nos mercados e o seu valor no mercado, se juntarmos isso tudo, é uma excepção. Isso não quer dizer que não há risco de contágio. Se alguma coisa acontece à Grécia, um fundo de pensões na Grécia ou em Washington pode começar a vender dívida portuguesa. Não sabemos. O que sabemos é que, se olharmos para todos os indicadores e para o seu histórico, há uma grande diferença entre a Grécia, Portugal e outros países sob escrutínio.


Vê Portugal mais próximo da Irlanda ou da Grécia?

A Grécia é um caso excepcional. Se olharmos para a dívida portuguesa, o défice ou a situação dos bancos, é muito diferente. Isso não significa que Portugal não tenha problemas sérios, mas o Governo está a tomar medidas e a situação é gerível.


A crise portuguesa é gerível?

Sim, estou convencido disso. Não é fácil, mas é gerível. A questão não é apenas reduzir o défice e a dívida, mas como recuperar competitividade. Isso é algo que tem de ser feito e que pode ser feito em Portugal. Isso dá-me confiança de que Portugal vai sair desta crise, tal como a Irlanda.


E a Grécia?

Bem, a Grécia está a meio do caminho. Depois de ter falhado no ano passado, tem agora uma séria hipótese para corrigir o que aconteceu em 2011. Mas não podemos dizer com certeza até vermos as medidas em marcha e de todos os elementos da lista da


troika

terem sido cumpridos.

Mesmo que Portugal execute o programa e recupere competitividade, isso basta? Os mercados vão reconhecer isso, e não verem-nos como uma nova Grécia?

Se recuperarem competitividade, a vida será diferente. Claro que isso exige tempo, paciência, determinação e vários anos. Portugal é como a Holanda, é muito orientado para o exterior e ambos sabemos que, num ambiente globalizado, estamos perdidos quando não recuperamos competitividade. Há que investir o máximo possível de esforços nisto. Além disso, é preciso recuperar confiança e isso significa mostrar à população, ao mundo, aos mercados e à União Europeia de que são capazes de gerir a vossa dívida. Mas nós também temos de fazer isso. No meu país, a Holanda, há um ano, pouco mais do que isso, tivemos de poupar 18 mil milhões de euros e, daqui a umas semanas, irão sair novos números que nos vão mostrar se temos de fazer mais ou não. Todos temos de mostrar que impomos controlo.


Tem-se falado da possibilidade de um segundo resgate a Portugal. A Europa e a Holanda estariam dispostas a isso?

Não vou especular sobre isso. A cada trimestre, a


troika

analisa o cumprimento do programa, faz um relatório e, de acordo com as suas recomendações, a zona euro actua. Quando uma nova análise sair, discuti-la-emos. A questão fundamental é recuperar o controlo e é nisso que o Governo está a trabalhar. Claro que todos os países, tal como a Holanda, têm de o fazer também, porque temos de estar certos de que a população e os mercados confiam em nós. E isso é ainda mais relevante por estarmos na zona euro, pois quando nós estamos fora de controlo vocês sofrem e vice-versa.

Mas o facto de todos os países do euro aplicarem a mesma receita de austeridade não acaba por agravar a própria crise?

Entendo essa ideia, mas acaba por ser vulgarizar um pouco o debate. Se um país da zona euro começar a gastar, no dia seguinte os spreads da dívida iriam subir, porque os mercados iriam duvidar da capacidade de pagar essa dívida no futuro. Se um país está sob um programa de assistência, não há como escapar a uma fase de austeridade. Se um país viveu acima das suas possibilidades durante décadas, tem agora de pagar o preço. A ideia de que não há um preço é tentadora para um político usar perante o eleitorado, em véspera de eleições, mas não é verdade. Se um país acumula défices grandes e não tem um crescimento económico forte, a certa altura isso vira-se contra ele. É por isso que temos de passar por esta fase [de austeridade]. Estamos todos impacientes, mas melhores dias virão.


Tem-se falado da possibilidade de os credores públicos, como a troika e o BCE (que comprou dívida no mercado), participarem no perdão à dívida grega. Esta discussão que faz sentido para a Holanda?

É uma discussão que não faz sentido nenhum para mim. A dívida pública é dívida pública e o BCE é uma instituição independente, por isso nunca discutimos o que o BCE faz. Nunca na história aconteceu que os países não pagassem os empréstimos que fazem uns aos outros. Pode levar anos, pode levar décadas, mas no final pagam.


Os países do Norte da Europa parecem estar cada vez menos dispostos a ajudar os países periféricos. É verdade?

Não gosto da palavra “periféricos”, porque estamos todos no mesmo barco. Mas, se subimos impostos, se damos garantias a grandes empréstimos, no final de contas é o dinheiro dos nossos contribuintes que está a ser usado. A sua vontade de emprestar depende muito de sentirem ou não que esse dinheiro está a ser bem gasto e essa confiança só se conquista com melhorias na governação da zona euro e se países como Portugal agirem de acordo com as regras que todos decidimos. Portugal tem um papel pivô em convencer também os nossos contribuintes de que estão a fazer a coisa certa. Claro que nem todos os cidadãos acompanham isto todos os dias e, quando vêem na televisão um protesto, pode ser em Lisboa, em Milão, em Madrid ou em Atenas, perguntam-se: é o nosso dinheiro que está ali a arder? No entanto, acredito que, quando todos nós mostrarmos que estamos no caminho certo, que estamos em controlo, perceber-se-á que o dinheiro está a ser bem gasto, porque cria estabilidade para a zona euro. O meu país também precisa disso. A Holanda vive de exportar e importar, estamos tão conectados à situação económica da zona euro que, se esta florescer, nós florescemos. Mas temos de certificar-nos que o dinheiro que emprestamos não é consumido pelas chamas.