Um em cada três desempregados está sem trabalho há mais de dois anos

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IEFP tinha em Janeiro 637.662 pessoas inscritas nos centros de emprego Foto: Paulo Pimenta

O Governo prevê uma taxa de 13,4% para este ano, mas, se a recessão for mais grave do que uma contracção prevista, dificilmente o desemprego ficará abaixo de uma taxa de 15%, antecipa o economista Francisco Madelino. Portugal assiste, agora, à “parte mais dolorosa da crise”, atira João César das Neves.

O nível de desemprego de 14% é superior em 1,6 pontos percentuais aos 12,4% registados no terceiro trimestre e representa um aumento de 12,9% em três meses da taxa de desemprego e de 11,8% da população desempregada, que subiu para 771 mil pessoas, contabilizados segundo os critérios oficiais. Se forem incluídas as pessoas desencorajadas mas que gostariam de encontrar trabalho, o número real deverá aproximar-se ou mesmo ultrapassar o milhão.

Dos 771 mil desempregados, 249,1 mil estão fora do mercado de trabalho há mais de dois anos, o que equivale a um em cada três desempregados (ou a 32,3% do total).

A população activa tem vindo a cair quase ininterruptamente desde o segundo trimestre de 2008, quando estava em 5,638 milhões. O valor hoje conhecido é de 5,507 milhões, o que representa uma queda de 0,7% face ao terceiro trimestre e de 2,3% face àquele pico. Tem agora menos 131 mil pessoas do que antes de se iniciar a tendência de queda decorrente da actual crise e é preciso recuar ao terceiro trimestre de 2004 para se encontrar uma população activa menor que a actual.

A taxa de desemprego média do ano passado foi de 12,7%, o que representa 706 mil desempregados.

“Houve um agravamento significativo da situação no final do trimestre e a taxa do desemprego em 2013 dificilmente ficará em baixo de 15%”, estima Francisco Madelino, até Dezembro presidente do Instituto do Emprego e Formação Profissional, que também hoje revelou dados sobre o desemprego: 637.662 pessoas inscritas nos centros de emprego em Janeiro.

Olhando para os “dados só do último trimestre de 2011, houve um agravamento significativo do número de pessoas desempregadas e vamos começar o mês de Janeiro com uma taxa de desemprego de 14,5%”, perspectiva Francisco Madelino, actualmente professor no ISCTE, em Lisboa.

João César das Neves, economista e docente na Universidade Católica, olha para os dados do INE como o resultado da tendência da aceleração da taxa de desemprego nos últimos meses de 2011. “A economia privada já há muito tempo que estava a reagir à crise. Estamos a assistir à parte mais dolorosa da crise, que foi adiada durante três anos e meio”, observa, admitindo que o desemprego possa desacelerar este ano.

Para Francisco Madelino, no entanto, o aumento deverá agravar-se ainda mais e acima das previsões do Executivo. Com um ambiente recessivo a assolar a Europa e uma contracção interna que ameaça colocar a economia portuguesa na mais profunda recessão em 37 anos, será “impossível haver criação de emprego nesta situação”.

Os valores estão a seguir a trajectória da Grécia, avisa, referindo-se à taxa recorde de 20,9% registada em Novembro, correspondente a mais de um milhão de desempregados.

A política macroeconómica da Europa vai ter de mudar no final de 2012 e no início de 2013, acredita Francisco Madelino. “Houve uma alteração positiva [na última cimeira europeia, de Janeiro], com uma disponibilização para a utilização dos fundos estruturais, mas continua a ser extremamente negativa a visão da tecnocracia de que o problema está na regulação do mercado de trabalho e que em nada está a ajudar o ambiente europeu”.

César das Neves considera que “falta uma reforma séria no sistema para flexibilizar a economia [em Portugal]. Tentar no curto prazo medidas paliativas foi o que nos trouxe a este drama, não temos possibilidade de o fazer agora”.

O desemprego dos jovens – a população com idade entre 15 e 24 anos – continua a ter os números mais dramáticos em Portugal: uma taxa de 35,4% entre Outubro e Dezembro, face a 30% no terceiro trimestre e 27% no segundo, o que resultou numa taxa anual de 30,1%. “É claramente” a taxa “mais dolorosa”, diz César das Neves.

A taxa de desemprego dos homens aproximou-se bastante da das mulheres no trimestre passado, tendo passado para 13,9% (14,1% para as mulheres), o que o antigo presidente do IEFP diz poder ser explicado com o aumento da taxa do desemprego no sector da construção.
E o desemprego de longa duração também sofreu um forte aumento, tendo passado em três meses de 6,4% para 7,4% da população activa – o que significa que havia 407,5 mil pessoas desempregadas há mais de um ano no país.