O mecanismo da fantasia

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“The Invention of Hugo Cabret”, de Brian Selznick, é um daqueles livros destinados a conquistar quem o lê - como Martin Scorsese que o levou ao grande ecrã, em versão 3D

Quando Brian Selznick começou a escrever e a desenhar "The Invention of Hugo Cabret" estava sem trabalho e a tentar ultrapassar um bloqueio artístico. Em conversa com um amigo, ouviu o que precisava: "Faz o livro que sempre quiseste fazer." "Estava destinado!", acrescenta Brian.

Basta olhar para o seu percurso para perceber que há vários momentos nos seus 45 anos que parecem ter sido destinados. Como o encontro com o realizador Martin Scorsese, que adaptou ao cinema, e em 3D, "The Invention of Hugo Cabret".

Brian cresceu em Nova Jersey e nos tempos livres entregava-se ao desenho. Mais tarde, quando foi para a "Rhode Island School of Design", sabia que queria desenhar, mas não queria ser ilustrador para crianças - isso era o que todos achavam que ele deveria ser. Apaixonado pelo teatro, passou para a cenografia das produções da escola. Queria ser cenógrafo, profissão que juntava os dois mundos. Quando não entrou num curso de cenografia, partiu para uma viagem pela Europa e percebeu que, afinal, queria fazer o que sempre lhe tinham dito que ía ser o seu futuro.

De regresso, mudou-se para Nova Iorque e tentou a sorte numa loja de livros infantis. Começou a trabalhar na Eeyore's, livraria para crianças no Upper West Side que fechou as portas em 1993 e que terá servido de inspiração a Nora Ephron para a livraria de Meg Ryan em "Você tem uma mensagem". Todos os dias levava para casa livros que o gerente lhe dava para ler. Um dia pegou num projecto que tinha feito na escola e adaptou-o ao mundo da literatura infantil. "The Houdini Box" foi publicado pela Random House, em 1991, e estava nas prateleiras da Eeyore's quando Brian ainda vendia livros.

Ilustrou histórias de outros autores, escreveu "The Boy of a Thousand Faces", mas "A Invenção de Hugo Cabret" era "a história com que sempre tinha sonhado". Queria falar de Georges Méliès, inspirado por uma imagem do filme "Viagem à Lua" (1902) e por uma passagem do livro "Edison's Eve" de Gaby Wood, que fala da colecção de robôts de Méliès, que depois da sua morte foi despejada no lixo pelo museu a quem o próprio a tinha doado.

Viajou para Paris, viu cinema francês, cinema mudo para crianças, e começou a imaginar as personagens - é um daqueles escritores que acredita que os filmes inspiram os livros. Debaixo do céu de Paris foi criando uma "live storyboard", sob influência da cultura parisience dos anos 20 e 30, e de espaços como o Musée d'Orsay, Gare du Nord, Gare de Lyon - a estação que vemos no filme de Scorsese é um retrato americano impressionista da cidade luz.

Coincidências

Hugo (Asa Butterfield) é um orfão de olhos azuis curiosos que vive numa estação de comboios em Paris. Toma conta de todos os relógios da gare, a partir do momento em que o tio desaparece, para que ninguém descubra que está a viver sozinho.

(Hugo tem 12 anos. Francesca, a filha mais nova de Scorsese, também. Brian partilha o apelido com o primo David Selznick, escritor e produtor do primeiro filme que Scorsese viu, o clássico "Duelo ao Sol" (1946) - mas estas são apenas curiosas coincidências.)

A ideia de um miúdo viver dentro das paredes de uma estação, como se houvesse pessoas a viver por trás do céu estrelado da Grand Central Station em Nova Iorque, fascinou o realizador. Mas é o facto de ser uma homenagem ao cinema que coloca Scorsese tão próximo desta história. Em entrevista ao "NY Times", em Novembro, Marty dizia que um dos melhores momentos de rodagem foi a construção do estúdio de vidro de Méliès: "Começámos a replicar cenas dos filmes de Méliès o melhor que podíamos. Filmámos Méliès a rodar os seus filmes durante cinco ou seis dias. E foi um dos melhores momentos de filmagem que já tive."

O livro chegou às mãos de Scorsese sem que Selznick acreditasse sequer que poderia dar um filme. Em 2007, pouco depois de ser editado, Scorsese comprava os direitos para a adaptação. Na altura preparava-se para "Shutter Island" e deu o livro a John Logan para o transformar em guião. Ao conseguir o mestre (Brian garante que no "plateau" todos se referem a Scorsese como "mestre"), Selznick conseguia não só um dos maiores nomes do cinema americano, mas também toda a sua equipa. Logan, que assinou os argumentos de "O Gladiador" (2000) e "O Aviador" (2004), estava convencido ao fim de 20 páginas. "O livro é mais do que uma história em palavras, as ilustrações fascinam os olhos de qualquer um", diz-nos numa conferência em que partilha o palco com Selznick. Logan não consultou Brian antes de começar a trabalhar no guião, pois "precisava de encontrar a sua visão da história.". Garante que o tom lírico da história é de Brian, mas sentiu, por exemplo, que era necessária uma personagem antagónica de Hugo, tendo criado Gustav (Sacha Baron Cohen), o inspector da estação, que persegue os orfãos diariamente.

Fantasia visceral

As ilustrações de Brian são poéticas, a lápis de carvão, transportam melancolia. Têm em si as crianças perdidas da literatura de Dickens. Logan deixou-se atrair pela tragédia de Hugo. Um robôt é a única coisa que guarda da mãe, e depois do pai morrer o único objecto que consegue trazer consigo. Hugo acredita que o robôt guarda um segredo, que só descobrirá depois de o reconstruir. É como uma missão que o mantém ligado a esta ideia de encontrar o seu lugar. Isabelle (Chloë Grace Moretz), neta de Georges (Ben Kingsley), que trabalha numa loja de brinquedos na estação de comboios, acaba por guiá-lo até ao mundo do cinema, ao mundo de Méliès.

Este não é um filme só para crianças, mas elas estão lá, e assim que entra na sala do Museum of Moving Image, em Nova Iorque, para falar do seu livro, Brian desarma a audiência com um "Hello little people". Demorou dois anos e meio a terminar o livro, processo que incluiu encontrar as pessoas que encaixavam na sua imaginação. Criou as personagens e só depois procurou as pessoas que lhes faziam justiça, pedindo-lhes que servissem de modelo para que lhes desse vida no papel.

Brian vive entre Brooklyn e San Diego, Califórnia, mas cada vez que entra no seu processo criativo viaja para o local, procura na realidade a inspiração e fica submerso no tema em que trabalha. Para as ilustrações do livro "Amelia and Eleanor Go for a Ride" foi para Washington DC, durante seis meses, pesquisar em livrarias e museus. Para "The Dinosaurs of Waterhouse Hawkins" partiu para Londres, onde subiu aos dinossauros para os observar, fotografar e desenhar. Para criar Hugo, viajou para Paris para sentir a essência da cidade.

Ao longo do filme há sempre a ideia de que se tenta reflectir os primeiros anos do cinema, a simplicidade dos movimentos, o que acaba por contrastar com a atmosfera 3D, técnica que Scorsese admira desde os 12 anos. Para o realizador "este não é um filme de fantasia como ‘Harry Potter', é um filme de fantasia visceral. Com ‘Hugo' a fantasia é real, mas na cabeça e no coração de cada um. Tem a ver com todos estes mecanismos, sejam relógios, locomotivas, comboios, reobôts, com o funcionamento interno destes objectos. Experimentámos durante dias os sons certos para o robôt. É como se fosse um pianista, tem essa magia." O som é essencial neste filme, quase como se os passos das pessoas na estação ou o tic-tac dos relógios fossem personagens.

Brian diz que "trabalhar com Scorsese é como estar à conversa com Deus". Com 11 nomeações para os Óscares tem como principal concorrente "O Artista", uma homenagem ao cinema mudo, o que, tendo em conta as influências de Brian Selznick, não deixa de ser mais uma coincidência curiosa.