O Carnaval da vida religiosa

Foto

Durante algum tempo, o Vaticano II foi saudado como estação primaveril da Igreja, um acontecimento providencial

1. Passados 50 anos, com tolerância de ponto ou sem ela, a XXVII Semana de Estudos sobre a Vida Consagrada vai dedicar o próximo Carnaval a interrogar o Concílio Vaticano II. Que poderão as congregações religiosas receber do primeiro concílio verdadeiramente mundial, para entender e configurar a Renovação e Esperança de que precisam, para viverem num universo que parece já muito longe das problemáticas que o configuraram?

Durante algum tempo, o Vaticano II foi saudado como estação primaveril da Igreja, um acontecimento providencial, a grande graça do século XX. Passados poucos anos, tornou-se, para uns, uma revolução traída, para outros, sobretudo na Europa e nos EUA, o começo do descalabro do catolicismo: muitos padres, religiosos e religiosas abandonaram o caminho que tinham escolhido, os seminários e noviciados foram ficando meio vazios e a pastoral tradicional da família e da juventude ressentiu-se, gravemente, das consequências da encíclica Humanae Vitae.

João Paulo II percorreu o mundo e teve, nos meios de comunicação social, um tal acolhimento que deu a ilusão de que as suas denúncias e propostas bastavam para dar a volta a todos os problemas. Ele sabia que a Europa já não era o centro do mundo e que precisava de uma nova evangelização para recuperar a memória cristã. Os esforços pela inclusão do nome de Deus no tratado da constituição da União Europeia não tiveram êxito. Esta acabou por se perder de si mesma. De que andarão à procura os técnicos da sua gestão, para não darem com a chave e os caminhos para uma Europa solidária?

A geografia económica e financeira do mundo alterou-se. Quem se preocupará com valores humanos universais partilháveis, num acelerado processo de globalização sem rumo?

2.Nestes processos de mudança, o que se poderá pedir à Igreja? Que não fique parada e ajude a encontrar, com todas as pessoas de boa vontade, sinais de esperança neste mundo que parece não ter qualquer sentido.

Aliás, como dizia A. Malraux, o mundo sem esperança é irrespirável. Note-se que o documento do Vaticano II que acabou por ser promulgado com a designação de Alegria e Esperança (Gaudium et Spes) foi, durante muito tempo, chamado Tristeza e Angústia (Luctus et Angor).

Temos de ter cuidado, no entanto, com a repetição beata de que é preciso ter esperança, de que a esperança é a última a morrer, de que o ser humano é aquele que espera, de que Deus não nos abandona e outras sabedorias do género. A esperança não é um automatismo. Precisa de razões impulsionadoras, de ser alimentada e de pernas para andar.

Renovação e Esperança é o tema da semana de estudos da "vida consagrada". A pergunta de fundo talvez possa ser assim formulada: não será a própria noção de "vida consagrada" que precisa de ser renovada para ter pernas para andar num mundo completamente diferente daquele que conheceu no passado? As formas do tempo nunca foram indiferentes à inteligência e às expressões de "vida consagrada". Em cada época teve realizações muito diversas, segundo os carismas de cada fundador e as necessidades da Igreja e da sociedade.

Muitos leram um livro célebre sobre Morte e Vida das Ordens Religiosas. Dele fica uma lição: aquelas que não quiserem ou não souberem renovar-se escusam de falar de esperança ou de imaginar artifícios para morrer. Se há uma noção vital e transversal a todo o Vaticano II, para o presente e para o futuro, é, sem dúvida, a de atenção aos sinais dos tempos.

3. A Igreja existe para fazer memória viva de Jesus Cristo, em todo o tempo e lugar. O primeiro olhar da Igreja deve manter-se atento à vida e à mensagem de Jesus, segundo as condições históricas em que viveu e as formas como as comunidades cristãs o acolheram e o testemunharam. O que é constante e original é a vontade prática de Jesus de "fazer família" com quem não era da sua família biológica. Há, no Novo Testamento, um contencioso familiar, originado por esta opção. Ele não é contra a sua família nem contra a família dos discípulos, mas contra o facto de, na sua família e na dos discípulos, não entenderem a sua opção de ver o mundo como uma família (Mc 3, 20-35).

A Igreja deve ser o sinal e o instrumento de um mundo de mãos dadas, de um mundo que tende a entender-se como sendo uma só família, na multiplicidade de todos os povos e culturas.

Quando, em vez de ser este sinal e este fermento, a Igreja caiu nas tentações do poder, o Espírito de Cristo suscitou, ao longo da história, pessoas, grupos, movimentos que viveram e vivem, de forma prática, essa vocação de toda a Igreja.

Se as expressões actuais de vida religiosa, ou "vida consagrada", quiserem participar na alegria da renovação de toda a Igreja ao serviço da humanidade, devem começar, elas próprias, por viver de forma inovadora - segundo os tempos, os lugares e as culturas -, essa difícil arte de sermos família com pessoas que não escolhemos, mas acolhemos.

Os votos de pobreza, obediência e castidade só têm sentido se forem vividos como instrumentos de libertação e disponibilidade para todos, sobretudo, para aqueles a quem a família foi roubada.