O disparate do deputado Schulz

Ao contrário do que diz Schulz, a austeridade e os excedentes alemães não ajudam a sair da crise

O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, não gostou de ver Passos Coelho a pedir a Angola para investir mais em Portugal. No seu entendimento, Portugal (e a Europa) só poderá esperar "o declínio", se não "compreender" que só haverá futuro "no quadro da União Europeia". Deixemos de parte a discussão sobre se Schulz tem ou não tem legitimidade para aprovar ou censurar as opções de política externa deste ou daquele país - como deputado europeu é normal que ele diga o que pensa sobre os negócios estrangeiros de qualquer estado-membro. Concentremo-nos por isso na pertinência das suas críticas. Perguntando, por exemplo, que caminhos tem Portugal para crescer no continente da austeridade em que se transformou a UE? Ou inquirindo sobre que preocupação tem revelado o Governo alemão em expandir o consumo interno (o que aumentaria as suas importações) e ou em equilibrar o seu gigantesco superávite comercial. O que resulta destas dupla resposta negativa é que o caminho europeu para a saída da crise está congelado. A UE continuará a ser o nosso principal parceiro económico, mas está na hora de realinhar as prioridades estratégicas e regressar a África ou à Ásia. Esta repartição de prioridades pode não ser do agrado da potência que começou a olhar a Europa do Sul como outrora os Estados Unidos olhavam a América Latina: como o quintal das traseiras. Mas só saltando o muro Portugal poderá evitar o triste destino que o mesmo Schulz traçou para a Grécia, quando, na semana passada, lembrou Atenas que "os que dão muito dinheiro para a reabilitação do país terão um papel fundamental nas decisões sobre como ele será usado".

A imparável espiral de violência na Síria

O que está a suceder na Síria, e que é motivo de indignação um pouco por todo o mundo, é o que teria sucedido na Líbia se não tivesse havido clara ajuda estrangeira na resistência armada ao regime. A denúncia de ataques de "grupos terroristas armados" na televisão oficial serve apenas para dar cobertura aos ataques, esses sim terroristas, do regime de Bashar al-Assad. Que isto assim suceda não devia ser surpresa para os impotentes observadores da chacina. Assad viu o que sucedeu no Egipto, na Tunísia, na Líbia. E quer precaver-se, atacando. Matando antes que o matem. Porque sabe que conta com a protecção activa de duas potências: a Rússia e a China. A "repressão sem misericórdia" relatada agora pelos Médicos Sem Fronteiras é o lado visível dessa ofensiva, que não poupará ninguém. a tudo recorre o regime para não sucumbir: tanques que avançam implacáveis sobre Homs, sem que os detenham; execuções para espalhar o medo e fazer recuar os sublevados (três famílias inteiras foram ontem degoladas, para dar o "exemplo"); destruição de infra-estruturas vitais à sobrevivência dos oposicionistas. E a comunidade internacional assiste a tudo, indignada mas de mãos atadas, enquanto Assad diz que vai pôr fim à violência, pondo na verdade fim à resistência. Por isso o sangue corre, sem palavras que o estanquem.

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