Militares americanos simulam na sua costa manobras que podem usar contra o Irão

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Militares querem reforçar as capacidades anfíbias das suas forças AFP/Paul J. Richards

Exercícios coincidem com nova guerra de palavras entre dirigentes israelitas e iranianos sobre um ataque

O cenário é ficcionado, mas parece desenhado para o Golfo Pérsico: uma "teocracia hostil" invade um país vizinho e ameaça ocupar um aliado dos Estados Unidos; na sua progressão toma vários portos, mina as águas e coloca mísseis ao longo da costa. Forçado a agir, Washington faz desembarcar milhares de soldados na zona para cortar caminho ao inimigo.

Foi este o tabuleiro de jogo montado pelo Pentágono para aquilo que descreve como "o maior exercício anfíbio efectuado na última década" e que, desde a semana passada, envolve dezenas de navios de guerra e mais de 20 mil militares em simulacros na costa Leste dos EUA. Os responsáveis pelas manobras - que, ao contrário do que é habitual, incluem militares e equipamento de oito países aliados - negam tratar-se de um ensaio para uma eventual guerra com o Irão, mas o contexto e a natureza dos exercícios colam-se à tensão que se vive no Golfo.

O objectivo é "revitalizar e melhorar as capacidades anfíbias e reforçar o papel da Marinha e do Corpo de Marines como "combatentes do mar"", disse o almirante John Harvey, do comando das esquadras navais dos EUA, no início dos exercícios que atingiram o seu ponto alto na segunda-feira, com o desembarque de 3500 marines numa praia da Carolina do Norte.

A AP escreveu que, depois de uma década a lutar no deserto iraquiano e nas montanhas do Afeganistão, muitos marines nunca estiveram embarcados, apesar de pertencerem a uma força criada precisamente para operações anfíbias. Esta é uma realidade que o Pentágono considera urgente mudar, agora que a intervenção dos EUA naqueles conflitos está a chegar ao fim e se prepara uma nova estratégia militar, centrada nos desafios colocados pela ascensão da China e a instabilidade no Médio Oriente.

"É óbvio que este exercício tem em conta a história recente" e "seria aplicável" no caso de um bloqueio do estreito de Ormuz, admitiu Harvey, quando questionado sobre as semelhanças entre o cenário ficcionado e o que seria a reacção americana à concretização da ameaça feita no início deste ano pelo regime iraniano. O aviso de Teerão - acompanhado de uma demonstração de poder da Marinha iraniana nas águas do golfo Pérsico - surgiu em resposta às sanções aprovadas por americanos e europeus face à recusa iraniana de suspender o seu programa nuclear.

A tensão parecia ter desanuviado depois de, no final de Janeiro, um porta-aviões dos EUA ter cruzado, sem incidentes, o estreito. Mas a guerra de palavras ressurgiu nos últimos dias, depois de vários dirigentes israelitas terem evocado a hipótese de um ataque preventivo: o chefe dos serviços secretos militares afirmou que Teerão está já em condições de fabricar quatro bombas atómicas e o ministro da Defesa, Ehud Barak, disse "existir um largo consenso internacional para a necessidade de passar à acção caso as sanções não cumpram o seu objectivo". Depois disso, o secretário da Defesa dos EUA, Leon Panneta, foi citado pelo Washington Post a admitir que Israel pode atacar o Irão "em Abril, Maio ou Junho".

Na resposta, o Supremo Líder iraniano, ayatollah Ali Khamenei, avisou que um ataque será "dez vez mais prejudicial aos EUA" e aos seus aliados do que à República Islâmica. Em jeito de aviso, os Guardas da Revolução iniciaram, no fim-de-semana, novos exercícios militares no Sul do país e a imprensa local noticiou o início da produção em massa de uma nova geração de mísseis terra-mar.