Ministro da Economia considerou o projecto da Nissan inaceitável

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Foto: Rui Gaudêncio

O ministro disse que afirmou construtor automóvel pretendia “um incentivo do reembolso do investimento em 30 por cento e um período de carência de sete anos”, acrescentando (citado pela Lusa) que o memorando assinado pelo anterior Governo “não reflectia qualquer tipo de garantia adicional”. E considerou que lhe faltavam “objectivos mais ambiciosos e mais concretos”.

Santos Pereira respondia assim à acusação de Basílio Horta – actual deputado do PS que foi presidente do AICEP durante os governos de José Sócrates –, de que o Governo não terá prosseguido a negociação do contrato com a Nissan, com vista à construção de uma fábrica de baterias para carros eléctricos que representaria um investimento de 156 milhões de euros e criaria 200 postos de trabalho. “Herdaram um contrato que estava a ser negociado. O que fizeram? Prosseguiram as negociações?”, questionou Basílio Horta.

Associou também o abandono deste projecto pela Nissan ao desinteresse do Governo pela mobilidade eléctrica (Mobi.E), sugerindo que a ideia poderá mesmo ter sido abandonada. “Houve descontinuidade quanto à mobilidade eléctrica? Vai ser alterada? Como?”, voltou a questionar.

O ministro defendeu-se dizendo que as declarações dos responsáveis da Nissan “referem claramente que o projecto Mobi.E nada teve a ver com a suspensão” da construção da fábrica de baterias, a qual disse não ter sido anulada. Garantiu também que a mobilidade eléctrica não foi abandonada e que os postos de carregamento de carros eléctricos continuam a ser construídos.

E adiantou que, ainda antes de o seu Governo ter tomado posse, em Maio de 2011, “o investimento projectado da Nissan já teria sido alterado, passando dos 240 milhões para 124 milhões de euros e de 50 mil baterias para 25 mil baterias e de quatro para duas as linhas de produção”.

A audição do ministro na Comissão de Economia e Obras Públicas da Assembleia da República decorreu com nítida tensão até cerca de metade, com apartes e várias interpelações directas entre os deputados. O ministro terá dito a certa altura que o projecto do Governo do PS para os carros eléctricos seria “ostentatório”, ao que Basílio Horta respondeu: “Ostentatório é o carro que o senhor ministro herdou, com o que gasta.”

Luís Campos e Cunha, o deputado do PSD que presidia à sessão, chamou a certa altura a atenção dos deputados para o constante ruído de fundo, que perturbava os trabalhos, pedindo silêncio.

Outro momento de grande tensão foi quando Agostinho Lopes, do PCP, acusou o Governo de estar a utilizar a “velha estratégia da mão-de-obra barata” para atrair investimento estrangeiro (que era o outro ponto da agenda de trabalhos). E considerou “uma fraude” dizer que as medidas do novo Código do Trabalho vão fazer aumentar o emprego, pois considera que terão o efeito contrário.

Agostinho Lopes questionou também Santos Pereira sobre se os salários de 3000 euros pagos a “assessores recém-licenciados de 25 a 30 anos” é o valor de mercado, aludindo ao argumento de Eduardo Catroga para justificar a sua contratação para a EDP por 45 mil euros mês.

O ministro não respondeu directamente a estas questões, e optou por se considerar vítima de um ataque pessoal por ser emigrante, na sequência de uma alusão de Agostinho Lopes a que Santos Pereira veio do estrangeiro. Num tom visivelmente exaltado, disse que tem “muito orgulho em ser emigrante e em ser português”, e falou dos sinais de orgulho em ser português que encontrou nas casas de vários emigrantes.