Miguel Manso
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Miguel Manso

“Televisão” é uma palavra que não está no vocabulário deles

Catarina, Cecília e Nuno podem ter tudo e mais alguma coisa, mas há algo que não têm, nem querem ter: televisão

Até podia ter sido por causa do “apagão” da televisão analógica, que ocorre em Portugal desde o início de Janeiro, mas a verdade é que a TV já tinha saído de casa deles antes disso. A passagem para a Televisão Digital Terrestre (TDT) pode, hoje, ser um argumento, mas não é o principal.

Se Nuno Luz, designer gráfico de 40 anos, tivesse de explicar como tudo aconteceu, era mais ou menos assim: “Há seis meses atrás mudei de casa e, nessas mudanças, uma televisão antiga que eu tinha, daquelas com antena própria e tudo, estragou-se. Pensei logo: ‘Estragaste-te? Ainda bem. É da maneira que vou arranjar outra forma de ocupar o tempo’”.

E “puff”, desapareceu a TV da vida de Nuno. Na verdade, Catarina Marques, de 32 anos, partilha o mesmo tempo e contexto de “jejum televisivo”. Também foi há cerca de seis meses e, também, numa mudança de casa, que a designer de comunicação e ilustradora infantil disse adeus ao aparelho, no seu caso, pelo “facto de não ser uma prioridade”.

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Nuno Luz tem uma criança de 7 anos em casa e a tarefa hercúlea de a distrair sem TV DR

Para Cecília Folgado (35 anos), adjunta da Direcção de Comunicação do teatro São Luiz, também não o era, mas há mais tempo. “Vivo feliz sem televisão desde Julho de 2008”, diz ao P3. A decisão tomou-a, em primeiro lugar, porque, quando mudou de casa (também?!), não tinha dinheiro para comprá-la. Antes disso “estava o sofá, a mesa da sala de jantar e muitas outras coisas”. Em segundo lugar, porque sabia que, sem televisão, teria mais tempo para fazer outras actividades.

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Catarina Marques substitui a televisão pelo computador, a sua varinha mágica DR

“Computer killed the TV star”

Um computador como televisão é um rádio?!

Mas ninguém pense que, apesar de tudo isto, o bichinho da TV tenha desaparecido. Catarina não põe de lado a hipótese de a voltar a ter, Cecília vai a casa de amigos em ocasiões especiais (eleições, “tomada de posse do Obama”), e Nuno, quando entra num café, fica a olhar para ela “como um boi a olhar para um palácio”.

Catarina Marques conta como é quando os amigos começam a falar sobre séries

O problema de Nuno é que, em casa, tem companhia: uma filha de sete anos. Ora, uma filha de sete anos é sinónimo de pessoa que gosta de ver televisão. Como é que se resolve o problema? “Vou arranjando uns filmes para ela ver no computador. Coitada, está é sempre a ver os mesmos!”.

Os amigos de Cecília sabem o que é a Casa dos Segredos. Mas ela também

Ainda assim, para todos eles, o computador é o perfeito substituto do televisor. “O computador é a minha ferramenta de trabalho e, depois, passou a ser também de lazer, através dos blogues, música… (…) É a minha varinha mágica”, explica Catarina. De facto, só com essa magia é que foi possível afastar Nuno da TV, que antes era “um gajo muito agarrado” a ela. “Quando usas o computador és mais activo, tu é que escolhes o que queres ver”, diz.

Cecília Folgado é uma falsa pessoa... sem televisão

O paliativo perfeito

Cecília concorda, mas dá uma designação interessante ao comportamento: “Hoje em dia, se calhar, sou uma falsa pessoa sem televisão, porque como podemos aceder a vários programas na internet (…) tenho um maior critério nas minhas escolhas”.

“Aquilo de que eu sinto falta, às vezes, é do impacto das notícias na televisão”, conta Cecília. “Na altura da Primavera Árabe e dos terramotos no Haiti e no Japão, estive mais tempo imune às imagens”. Algo que, diga-se de passagem, não incomoda Nuno Luz: “Como se está sempre a falar da crise económica na TV, estou mais alheado de tudo isso e não ando tão deprimido como outras pessoas”.