Voltámos 50 anos atrás e temos outra vez as três gerações a residir debaixo do mesmo tecto

A precariedade é um fenómeno multidimensional que influencia negativamente a natalidade e a recuperação económica, e que pode pôr em causa a sobrevivência da democracia no futuro, afirma o professor do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa e um dos autores do estudo Jovens em transições precárias - trabalho, quotidiano e futuro

A precariedade influencia negativamente a natalidade e a recuperação económica, e pode pôr em causa a sobrevivência da democracia no futuro. Nuno de Almeida Alves, um dos autores do estudo Jovens em transições precárias - trabalho, quotidiano e futuro, lançado em livro na passada sexta-feira, levanta o véu sobre as várias dimensões da precariedade. Um problema que afecta não só os jovens licenciados, mas também os que cedo abandonaram a escola e os que se inserem em postos de trabalho pouco qualificados. Todos têm uma coisa em comum: dificuldades em gerir o presente e ainda mais dificuldades em perspectivar o futuro.

Em regra, associa-se a precariedade aos jovens licenciados de famílias de classe média, mas o estudo vem levantar o véu sobre outras realidades. A precariedade é um fenómeno cada vez mais transversal?

Essas pessoas de quem fala são os filhos da classe média que estavam habituados, desde o início da democracia, a tirar um curso superior e a integrar-se rapidamente no mercado de trabalho. Mas a precariedade é um fenómeno mais lato do que isso. Uma pessoa está numa situação precária se tiver um contrato permanente numa fábrica que pode falir a qualquer momento - o caso da Valadares.

A precariedade é multidimensional. Começa no posto de trabalho que pode não estar assegurado no dia de amanhã, mas também se manifesta quando estes trabalhadores de que falamos não têm o salário suficiente que lhes permita assegurar as condições de vida e pensar o futuro. Isso é o que consideramos de mais complicado: a precariedade começa na questão contratual, no salário, e na impossibilidade de os jovens exercerem uma profissão relacionada com a área de estudo, o que pode reverter para alguma frustração.

O estudo colocou o enfoque em pessoas que, independentemente da sua formação escolar, estivessem em postos de trabalho pouco qualificados, daí os muitos operários que entrevistámos. É um bocadinho condicionado pelas condições de execução, mas ao mesmo tempo retira o véu sobre outras realidades e combate a ideia de que este problema diz apenas respeito aos jovens licenciados que não conseguem encontrar um posto de trabalho que preencha a sua vocação e que lhes permita depois pensar outras etapas do percurso da vida. Isso também acontece com pessoas com trajectos escolares irregulares.

O estudo relata vários casos de pessoas que abandonaram a escola cedo. O abandono escolar é também um indutor de precariedade?

Vemos no estudo a persistência do abandono escolar precoce e como isso tem um efeito decisivo nas oportunidades laborais no futuro. Muitos dos nossos entrevistados saíram da escola, porque tiveram que ajudar o orçamento familiar ou por um processo recorrente de maus resultados.

Mas tivemos uma surpresa muito engraçada, que foi o modo como este problema se instalou no consciente dessas pessoas. Sabem que, dado o seu percurso escolar, não podem ter oportunidades de emprego com melhores salários e sentem a pulsão de voltar à escola. Penso que isso foi um efeito do programa Novas Oportunidades, que deu visibilidade ao problema da saída precoce da escola e de como acumular competências escolares e formação pode gerar mais oportunidades e permite projectar a vida de outra forma. Foi uma constatação interessante.

No livro, fala-se também na precariedade dos afectos. Como é que a precariedade laboral influencia as outras dimensões da vida dos jovens?

O trabalho é muito central na vida das pessoas, tal como ter o suficiente para fazer face ao quotidiano, pagar as despesas, poupar algum rendimento ou projectar a vida dos filhos. Se as pessoas não conseguem posicionar-se satisfatoriamente no mundo do trabalho, isso pode projectar muitas outras dificuldades na vida quotidiana.

Na sociologia da juventude, há um conceito que também usamos aqui, que são as transições para a vida adulta. Há um conjunto de passos que as pessoas devem dar para passarem da escola até à actividade profissional, à constituição de uma família e poderem assegurar descendência. Esse processo, que, há uns anos atrás, se fazia rapidamente e de uma forma segura, está a tornar-se muito mais longo.

As pessoas não se sentem seguras para cumprir estes passos. Quando não são dados consecutivamente num lapso de tempo relativamente rápido para as aspirações pessoais de cada um, começa-se a gerar alguma perturbação no quadro dos afectos. E isto é um problema que tende a alastrar-se a toda a sociedade.

Há pessoas que, ao fim de quatro ou cinco anos, ainda não conseguiram encontrar um posto de trabalho relativamente estável que lhes permite essa projecção de futuro. Isso é angustiante. A maior parte das pessoas que entrevistámos não consegue fazer face ao quotidiano e é a família que garante algum apoio.

Como se a família se substituísse ao Estado-providência?

É a família que providencia aquela parcela de rendimento que não é provida pelo salário e que presta o apoio que o Estado não dá. Às vezes, geram-se problemas complicados, porque muitos entrevistados não têm origens familiares muito abastadas. Entra-se então numa lógica de reciprocidade e de troca. Às vezes, para fazer face às despesas do quotidiano é necessário que os pais paguem a renda da casa ou a prestação do carro, mas por vezes também cabe aos filhos pagar a conta do supermercado ou garantir alguma outra forma de assistência à família.

Essa reciprocidade é muito mais evidente onde os recursos são mais baixos e em que a necessidade dessa reciprocidade é mais latente. Quando se trata de filhos da classe média, já se assiste a uma relação de dependência muito mais forte.

O alastrar da precariedade a toda a sociedade é uma consequência da crise económica?

Exacto. Alguns dos pais que garantiam os mínimos se calhar perderam o emprego. Ou ainda o caso das pessoas que têm que entregar as casas ao banco e, como o mercado de arrendamento não funciona, vão viver para casa dos pais. Voltámos 50 anos atrás e temos outra vez as três gerações a residir debaixo do mesmo texto.

Por um lado, parecem faltar apoios do Estado, mas não se está também perante a ausência de políticas para a juventude de que depende o futuro do país?

Há muitas insuficiências do Estado-providência português e o que se desenha no futuro é a sua redução e não a sua melhoria.

Há serviços que não têm crescido em número suficiente, o que tem implicações no quotidiano dos jovens. A inexistência de creches e jardins-de-infância públicos comportáveis, o acesso a habitação mais barata ou até alguma facilidade em termos de horário de trabalho.

As circunstâncias em que os jovens vivem hoje em dia, na sociedade envelhecida que é Portugal, só vai propiciar um aumento significativo da sua tendência de envelhecimento. Se as pessoas têm dificuldade de enquadrar os filhos no seu quotidiano, leva a que se atrase esse projecto ou a não haver renovação de gerações.

Um dos problemas que identificaram nos 80 jovens que entrevistaram é a forma como olham para o futuro enquanto horizonte fechado. Não há alternativas para o presente nem perspectivas de futuro.

Se os jovens já têm dificuldades em gerir o presente, ainda têm mais dificuldades em perspectivar o futuro. Uma das vias é a saída do país, que quase que se tornou um política pública.

Esse passo é equacionado por muitos jovens?

Em muitos casos, vêem que é única saída. As pessoas vêem as suas possibilidades de melhoria de vida muito encurtadas, não conseguem pensar que o futuro lhes será mais risonho e, tal como nos anos 60, têm que procurar lá fora outros meios de vida para que possam viver um pouco melhor.

Os jovens que pensam na possibilidade de emigrar são pouco qualificados do ponto de vista escolar e profissional e acabam por ser, mais ou menos, os herdeiros directos da emigração portuguesa dos anos 60 ou 70. Mas essa hipótese também está a ser equacionada pelos mais qualificados, o que pode ser delicado. Estamos a gastar recursos no ensino superior para formar mão-de-obra para exportar.

Mais uma vez, voltamos à questão da reciprocidade. A saída de qualificados e até mesmo de pessoas menos qualificadas é benéfica para o país, se for correspondida com a entrada quer de pessoas menos qualificadas quer de mais qualificados, mas os imigrantes não vão para países em crise e onde não há trabalho.

Se já temos carência de mão-de-obra qualificada, se o destino dos mais qualificados for a emigração, muito mais dificuldades terá a sociedade portuguesa no futuro para recuperar. Quando se der a recuperação, temo que se vá dirigir outra vez para o que foi nos anos 60 e 70, com mão-de-obra intensiva e produtos de baixo valor acrescentado. Baixar a massa salarial, mandar os mais qualificados para fora, dadas nossas carências de qualificação de mão-de-obra e dos empresários, torna a recuperação mais problemática.

Temos o problema da precariedade, a saída dos jovens para outros países e uma taxa de desemprego jovem que já está perto dos 31%. Que sociedade estamos então a criar?

É muito problemático. Hoje temos um encolher de salários e um encolher de direitos, e a maior parte das pessoas assiste a isto sem muita vontade de protestar, porque sabe que, se protestam, o mais provável é perder totalmente o que já está em perda. Pode ocorrer aqui alguma auto-sujeição das pessoas às circunstâncias e isso gerar uma perda crescente de direitos.

Depois temos outros problemas associados, nomeadamente um eventual cenário de ruptura social. Se o que temos para oferecer aos mais jovens é um emprego precário, mal pago, que não garante o mínimo para assegurar a sobrevivência e se o destino é emigrar, isso pode ser indutor de alguma perturbação e de comportamentos mais complicados de natureza política e social.

Está a falar de movimentos mais radicais?

Estou envolvido num outro estudo que está avaliar até que ponto este cenário de crise na Europa não pode propiciar a emergência de comportamentos políticos mais extremos de esquerda e de direita. Do ponto de vista eleitoral, os partidos mais extremistas podem começar a ganhar outro fôlego e a estar mais presentes nos parlamentos, correndo-se o risco de se gerarem maiorias políticas que possam ser prejudiciais às liberdades dos cidadãos e às minorias religiosas e étnicas.

É a própria democracia que pode ser posta em causa?

Se estamos a perder direitos é a democracia e a capacidade de exercício dos direitos que vão ficando em causa. [Entre os jovens que entrevistámos,] há uma grande descrença em relação ao que a política pode fazer pela sociedade portuguesa. Não tínhamos perguntas dirigidas ao tema, mas nos discursos nota-se a desconfiança.

Qual a participação cívica dos jovens que entrevistaram? Está em linha com a baixa participação na sociedade portuguesa?

Deu resultados próximos do padrão da sociedade portuguesa: pouca mobilização cívica e pouca participação. A taxa de sindicalização é mínima, a pertença a partidos também é muito residual e, quando acontece, é oportunista.

E onde reside então a esperança?

A esperança reside, mais uma vez, em voltar à escola. A escola e as competências escolares são provavelmente o único mecanismo de mobilidade social e de as pessoas poderem melhorar a sua vida. Sentimos muito nos entrevistados o desejo de voltar à escola. E entre os entrevistados que passaram pelo ensino superior e que tiraram uma licenciatura nunca disseram "estou arrependido".

Apesar das concepções que têm em relação à política e aos mecanismos de ascensão directa por via dessas sociabilidades, não crêem que isso seja a única forma de chegar lá. O discurso é de fuga para a frente. Os jovens não vêem como é possível nas actuais circunstâncias melhorar a sua vida e estão disponíveis para assumir o risco e fazer a vida lá fora. Isso é algo que está claramente inscrito na alma lusa.

Mas é preocupante que entre os nossos jovens se verifique desta forma tão clara, tão precisa e sem esperança que o futuro parece estar um bocadinho fechado.