A infância deles consumida pelo vício dos pais

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Alex Gozblau

São filhos da geração que entrou na droga nos anos 1970 e 80, com a chegada da heroína a Portugal e a falta de respostas de tratamento. Muito mudou desde então. Já não há 100 mil toxicodependentes como em 1990. Os seus filhos cresceram, construíram-se sozinhos. Muitos ficaram órfãos. Eduardo cuidou da mãe. "Limitava-me a andar atrás dela, para garantir que não morria." Gonçalo não tem recordações da infância. Ergueu o muro do esquecimento.

Sem saber, era a última vez que o viam lá no bairro onde morava. Conhecido de muitos porque aí tinha crescido ou porque a ele se colara a aura de um nome invulgar e distinto: Orlando. Um nome escolhido pelos pais, 20 anos antes, quando pela primeira vez olharam para ele e lhe entreviram nos traços um futuro brilhante.

Teve uma infância feliz nesse lugar na outra margem de Lisboa onde construiu as amizades que mais tarde haviam de transformar-se numa segunda família. Com esses amigos, iniciou as saídas à noite e a descoberta dos lugares de Lisboa, destino das noitadas de fins-de-semana. Juntos andavam para o que fosse. Podiam correr riscos, ter as primeiras experiências, testar limites. Orlando, Henrique e Mário. Estavam uns para os outros. O que de mal lhes podia acontecer?

Nesse princípio de tarde, Orlando entrara no café e junto ao balcão repetira o gesto de todos os dias, sinal de que ia tomar o habitual. O seu dia começava quase sempre assim, como se as manhãs não existissem e as noites prolongassem o melhor que restava do dia. Duas da tarde era uma boa hora para se levantar, comer qualquer coisa e depois vaguear.

Por vezes, pensava em ficar quieto, limpo, tentar passar um dia sem atravessar a ponte para Lisboa, desafiar o ritual obrigatório e necessário de chegar depressa a um destino, quase sempre, o Casal Ventoso.

Movia-o a urgência, mas não caminhava cego ao desaire dos corpos que passeavam as suas sombras errantes e que, pelo hábito, já conhecia: uma mulher de 50 anos que, todos os dias à mesma hora, antes de ir para o trabalho, esperava na fila, comprava droga e a levava ao filho; outra muito mais nova que de noite se prostituía e de dia implorava para ter o produto para voltar para casa e tratar do seu bebé. E depois havia os miúdos de cara lavada pela mão dos pais sem tempo para os levarem à escola; os bebés na cadeirinha dos carros com as mães à espera dos pais cujos vultos se adivinhavam no virar de uma esquina; e crianças trancadas no carro de olhar expectante através do vidro.

Não tinha por hábito julgar estes pais. Conhecia bem o que lhes ia dentro. Mas pensava que, se algum dia encontrasse uma pessoa e quisesse ter filhos, largaria esta vida.

A um filho, quereria dar uma vida decente, sem pontos de contacto com esta existência que um dia deixaria para trás. Só precisava de um tempo. Por enquanto, a heroína era o melhor da vida.

Pensava nisso sempre que aqui vinha. Nem era tanto o perigo de uma rusga, polícia e tiros com crianças pelos passeios ou dentro dos carros. Era a exposição a tamanha degradação humana a que ele ficava indiferente, mas as crianças, como Eduardo, não.

"Sou diferente"

Eduardo move-se como quem foi à guerra e saiu ileso. Mas só por fora. Sentado a uma mesa de café, enrola cigarro atrás de cigarro. "Confiei em muito poucas pessoas em toda a minha vida e as poucas em quem confiei desiludiram-me."

Depois da morte do pai, ainda era ele uma criança, o mais doloroso aconteceu, já na adolescência, com a morte do padrasto Rogério. "Foi o maior golpe." Teve a carga de um remakeque se podia prever e ninguém conseguiu evitar; teve o peso bruto das fatalidades pressentidas no destino dos infelizes.

"O meu pai desiludiu-me, deixou-me, morreu. Não fez o que devia ter feito pelo filho dele. O que ele devia ter feito era ficar bom, ter uma vida decente, oferecer uma vida decente ao filho. Não foi isso que fez, não foi isso que a minha mãe fez. Tudo isso são desilusões."

Ainda hoje, tem conversas diárias com a mãe. Diz-lhe que a vida dela seria bem melhor sem drogas. Ele próprio não acredita: sabe que, para ela, a heroína é o melhor da vida, melhor até que os filhos. Mas se se convencer, talvez consiga convencer a mãe.

"Ela não poderia ter melhor terapeuta que eu", diz irónico. E talvez melhor amigo. Sem saber, Eduardo deu a vida por ela.

"Aprendi a não sofrer." Depois do que viveu, é comum ver superficialidade em tudo o que o rodeia.

Gosta de jogar, a dinheiro ou não, de ir ao ginásio, de andar de carro. Fuma os seus charros, todos os dias. Ajudam-no a esbater as fronteiras do insuportável. Sem ilusões: "Quando se acorda, a realidade está lá e a realidade é má." Se é feliz? "Não, nunca fui feliz. Estou muito longe de ser feliz. Sofro mais a fazer as coisas. Sou diferente mas tento parecer normal. Tento identificar-me com a normalidade dos outros."

Já experimentou tudo - menos a heroína. "Tenho vícios que cheguem. Tabaco, ginásio, Internet, droga." É adicto como a mãe, e como foi o padrasto e antes dele o pai. Compreende a doença, a premência de um escape, de alguma coisa que o eleve acima da rotina do quotidiano, algo a que se possa agarrar, viciar, pelo prazer de transgredir, de se autodestruir?

A conversa é sobre ele mas arrasta-se com a força de um íman para o foco habitual das atenções: Vânia. "Para a minha mãe, é muito complicado encarar a vida sem um estímulo, um copo de cerveja, sem um caldo de heroína."

Luzes de canto

Vânia, 49 anos, tem um novo companheiro com quem partilha a casa onde vive com Eduardo. Acorda por sistema às quatro da tarde. Deita-se no sofá em frente à televisão. Sempre foi assim, mesmo quando Eduardo era bebé.

Foi uma criança desejada mas quando nasceu os pais eram ambos toxicodependentes, sem dinheiro. O avô - que os continua a sustentar - quis ficar com ele, perante a impossibilidade dos pais. "Eu até consigo perdoar que tivessem pensado em dar-me para a adopção."

Perdoa quase tudo. Mas as coisas que viveu estão impressas nele como uma tatuagem dorida. "Sofro muito mais do que as outras pessoas."

Ser, para Eduardo, é estar fechado nesta história, que se foi construindo na sua casa na Parede. Antes não fosse a sua. De ninguém. "A pessoa que eu sou hoje construiu-se sozinha. Tirei muito de bom do que o meu avô teve para me dar, mas não tive o amor de uma mãe nem o pulso firme de um pai. Nunca tive nada disso."

Tem um ar exausto de quem corre sem destino, de quem já não encontra sentido, agora que prometeu a si próprio viver a sua vida. Toda a vida viveu a dela: a da mãe. Tentou sempre protegê-la, afastá-la do abismo. Viu-a iniciar curas - no Farol em Sintra, na Creta (Clínica de Tratamento para Toxicodependência e Alcoolismo) na Parede, nas Casas de Santiago na Covilhã - para voltar a recair meses depois. Sabe que vai voltar a acontecer agora que a mãe já está limpa há uns quatro ou cinco meses.

Viu-a várias vezes entre a vida e a morte. Salvou-a de dezenas de overdoses. Era ele quem, quase sempre, estava com ela. Chamava o 112, fazia o que lhe diziam para fazer: massagem cardíaca, palmadas no peito, nas costas, virar corpo para a direita. "Aflito, fiquei só a primeira vez." Depois tornou-se habitual. Como numa guerra sem tréguas, está equipado para o pior da vida. E, perante o mais sórdido, o mais inconcebível cenário que se pode expor ao olhar de uma criança, aprendeu a ficar calmo.

Numa história recheada de pormenores, saber-se-ia que Eduardo não tolera o cheiro do limão, o amoníaco, as luzes de canto, que a mãe utilizava para dar os caldos. "Ela punha-se num cantinho do quarto ou da sala, com uma luz, um foco, e drogava-se. Não posso ver luzes de canto."

Se fosse uma sequência de imagens, ver-se-iam flashes do roteiro de bairros onde em pequeno ia com os pais: Marianas em Carcavelos, Fim do Mundo em Cascais, Casal Ventoso em Lisboa. "Entrava lá para dentro, lembro-me de tudo. Mesmo quando ia aos bairros de uso andava bem arranjadinho, sempre lavado."

Até ter seis ou sete anos, entrava protegido pelo filtro da inocência. Foi mais tarde, quando lá voltou, com 15 e 16 anos, que pensou pela primeira vez na degradação do sítio, da sua situação, e se interrogou por que tinha de viver aquele tipo de coisas, de estar com aquele tipo de gente, naquele ambiente.

Um antes e um depois

Mais doloroso do que essa memória em imagens, é reconstituir ao ouvido o som aflito das ambulâncias sempre que havia violência em casa. Os pais viveram um grande amor, suicidário como eles. "Adoravam-se. A minha mãe costuma dizer que tiveram um casamento feliz." Mas sofria na pele os ataques de fúria dele.

Ele morreu de overdoselonge dela, que assim se mantinha por não acreditar que juntos poderiam tratar-se. Perdeu-o para a morte e nunca, afinal, deixou a heroína. Não se perdoou não ter estado ao pé dele na derradeira noite. Ele até lhe telefonara: queria voltar.

Todos os companheiros que teve, antes e depois dele, a relacionavam de uma forma ou de outra àquele mundo. Entre todos, Rogério foi como um pai para Eduardo. "Sofro muito mais das saudades do meu pai, do meu padrasto, da necessidade de os ter aqui comigo, do que das coisas que vi e não devia ter visto. Dói-me muito mais a falta que eles me fazem. Principalmente o meu padrasto. Era o meu pai."

Naquela noite, nada fazia prever aquilo. Quando Eduardo correu para o quarto, Rogério já tinha o corpo frio. "De todos os maus momentos, foi o pior", aquele em relação ao qual passou a haver um antes e um depois.

Durante um ano, tinham sido felizes - jantavam sempre juntos à mesa, tinham uma vida equilibrada, a mãe andava bem, Rogério também, e trabalhava. "Não precisávamos de pedir dinheiro ao meu avô."

A partir desse dia - Outubro de 2008 - tudo piorou. Eduardo tinha 17 anos. A mãe passava a vida drogada, bebia em todos os cafés que entrava. Nunca se refez da morte de Rogério. Teria sido ela a ter a ideia de voltarem a consumir? "Eu não dizia nada, porque ela não me ouvia. Limitava-me a andar atrás dela para garantir que ela não morria também."

Boomdo consumo

Quando Eduardo nasceu, há 20 anos, a toxicodependência atingia o seu nível mais alto em Portugal. A geração que então entrava na idade adulta crescia na euforia do pós-25 de Abril. O país abria-se ao mundo e iniciava, em larga escala, consumos de cannabise marijuana que vinham de África, também trazidas pelos militares.

Era uma época de experiências, em passo acelerado. Disparou-se para aquilo que havia disponível no mercado independentemente dos problemas sociais que podiam daí advir. No início dos anos 1990, a abolição das fronteiras no espaço europeu reforçou a tendência: generalizou o acesso fácil à heroína.

"Tudo isto fez com que Portugal entrasse num dos consumos mais problemáticos da Europa relativamente à heroína", diz Manuel Cardoso, médico de saúde pública e vice-presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT). O mesmo não aconteceu com outras substâncias.

A toxicodependência sobe em flecha até 1990 - ano do pico que se mantém até 1995: 100 mil pessoas, 1% da população total, era toxicodependente, de acordo com estimativas avançadas em estudos internacionais.

O descontrolo era potenciado pela falta de informação e a fraca capacidade de respostas de tratamento e prevenção.

Até soar o alarme. Em 1987, é lançado o Projecto Vida e aberto o Centro das Taipas, em Lisboa. Três anos depois, é constituído o Serviço de Prevenção e Tratamento da Toxicodependência (SPTT) que antecede o IDT, e os Centros de Estudo e Profilaxia da Droga (CEPD).

Era a resposta àquilo que ficou conhecido como "a droga, loucura e morte" dos anos 1970, quando também foi lançada em Berlim pela revista Stern o livro Christiane F., a história verdadeira de uma toxicodependente de 14 anos que se prostituía e se transformou num ícone de uma geração.

Em 2000, o consumo problemático de heroína em Portugal começa lentamente a baixar para 75 mil toxicodependentes, segundo estimativa, que aponta igualmente para um valor de 53 mil toxicodependentes em 2005 - já depois da extensão a todo o país dos Centros de Atendimentos a Toxicodependentes (CAT), em 1999, que começaram a abrir no final da década de 1980. Desde então, a tendência será para baixar, confirma Manuel Cardoso.

"A heroína descredibilizou-se a ela própria", nota, referindo-se à estigmatização dos consumidores. Muitas morreram, de infecções relacionadas ou overdoses, deixando muitas crianças órfãs.

"Se não parasse, morria"

Se não tivesse parado naquela altura, Elisabete morria. "As pessoas que continuam ou são presas, ou ficam malucas, ou morrem", diz. Quando parou, estava numa decadência completa, grávida do segundo filho. Pesava 40 quilos e tinha perdido tudo.

Tinha 28 anos, hoje tem 40. Chegou de Leiria onde vivia com o companheiro, a casa da mãe, em São João do Estoril, com duas malitas de roupa e nada mais. Sempre que queria deixar a heroína, voltava à estaca zero. Deixava o pai dos filhos, que amava profundamente, e vinha por aí abaixo, à procura de uma saída. Desta vez, voltava à estaca menos que zero.

Consumia mas já não sentia nada. O corpo moldara-se de tal maneira que mais ou menos quantidade de pó na prata não fazia diferença. "Eu estava no fim. Se não parasse, morria", volta a dizer. "O sofrimento era tão grande que nada, nem mesmo a heroína, apagava a dor que trazia dentro de mim."

Sentia raiva e frustração por não ter força para combater aquilo. Arranjou alguma para fazer a cura, ainda grávida. Mas numa das visitas do companheiro, já depois de o bebé nascer, recaiu.

A família pô-la na rua e ela pediu ajuda a uma amiga. Tratou-se e conseguiu recuperar os filhos. Sempre pensara que conseguia cuidar deles, apesar do vício.

No primeiro ano, da dependência dela e da vida do Gonçalo, tinha droga sempre que queria. "Não tinha maus momentos. Conseguia tratar do Gonçalo. Mas hoje sei que tratar de um bebé, se calhar, não era aquilo que eu fazia. Saíamos à noite e levávamos o Gonçalo." Mais do que uma vez, deixavam-no em casa da avó paterna e estavam três dias sem aparecer.

Durante esses anos, a heroína tinha sido a solução para tudo. E impunha-se em tudo o que fazia, justificando duas idas e voltas a Lisboa quando vivia na Marinha Grande ou em Leiria, para comprar e vender - só assim tinha dinheiro para, com o pai de Gonçalo, manter o vício. Quando foi ao Casal Ventoso pela primeira vez, entrou e saiu a chorar. Sofria com a degradação.

Nunca se injectou, nunca se prostituiu. Todo o tempo fumou na prata. "É a mesma dependência, vai dar ao mesmo. Cheguei onde chegam as pessoas que se injectam. Sem nada na vida, com a personalidade desestruturada, sem relações de confiança e sem um rumo na vida porque a única coisa que interessa é a droga", diz Elisabete. "Não se consegue viver de outra maneira."

Numa das muitas curas que fez, deixou Gonçalo em casa de um casal amigo. Passaram-se meses. Quando recebeu uma carta dos amigos a proporem adoptá-lo, correu a buscá-lo.

Quando cheguei, não viu o brilho no olho muito vivo que lhe conhecia desde bebé. "Foi a primeira coisa em que reparei. Parecia que estava sedado, sem reacção, sem estímulo" como que anestesiado pela dúvida. "O Gonçalo passou maus momentos durante toda a infância mas sem saber identificar os porquês."

No papel de cuidadores

Cada história é uma história. Muito depende da idade da criança e de com quem estão; se vivem numa família alargada e têm os avós como cuidadores ou se estão entregues a um quotidiano errante à mercê da dependência dos pais; se um dos pais não é toxicodependente; se um deles é doente ou morreu.

Mas se fosse possível traçar um retrato único, seria o de uma criança carente, "com um buraco enorme", muitas vezes órfã, nas palavras de Conceição Tavares de Almeida, psicóloga do Centro de Saúde de Oeiras.

A tendência é para se apagarem. Mas muitas vezes também podem traduzir a tristeza em agitação, hiperactividade e uma falsa e inquietante euforia. Na escola, podem chamar a atenção pela instabilidade e os distúrbios que provocam.

Em autonomia, são muito precoces. Nalguns casos, transformam-se em cuidadores dos pais. Lembram-lhes as horas a que têm de tomar os anti-retrovirais (quando os pais são seropositivos) ou a metadona (se estão em tratamento) e ajudam-nos a misturar "água no copinho" da metadona, descreve João Galamba, psicólogo da Equipa de Tratamento (antigo CAT) da Parede.

"Vão acordá-los, levam-lhes a comida, lembram-lhes das tarefas, não fazem barulho para não incomodarem os pais", completa Conceição Tavares de Almeida. "Vão-se adaptando, o tempo todo, às necessidades dos adultos."

Todas as atenções da família, e da criança, se centram nos cuidados a dar aos pais. "Estas crianças sobrevivem e isso é que é fantástico", acrescenta a especialista. "Transformam-se em cuidadores por uma questão de sobrevivência física e psicológica. São de uma resiliência brutal. São miúdos equipadíssimos para sobreviver." E conseguem-no "à custa deles próprios".

Na outra face da mesma moeda, um inquérito aos pais revelou a falta de atenção dada aos filhos, antes e depois do nascimento, realça Conceição Tavares. "Quando são bebés, quase não existem. Não foram desejados, não há paixão", nota a psicóloga com base nos testemunhos recolhidos para este retrato que se aplica aos casos mais dramáticos. "Não há a representação do filho como algo do futuro, da esperança, da protecção."

Um pouco mais tarde, pouco sabem sobre eles: quantas horas dormem, ou quando acordam, se comem bem. E quando os miúdos crescem, não acordam para os levar à escola, e descuidam a roupa e a alimentação. "É tudo autocentrado."

"Olhos abertos para a vida"

Gonçalo pouco se lembra desses tempos. Não tem memórias de ir com os pais aos bairros - Musgueira, Picheleira, Casal Ventoso. Mas andava com eles para todo o lado. Ainda bebé, ficava dentro do carro com a mãe Elisabete à espera do pai.

Lembra-se de uma situação num pinhal que envolveu polícia. Mais tarde o pai foi apanhado com cocaína e esteve preso quatro anos. Recorda a vida agitada a saltitar de escola em escola e de casa em casa - dos avós paternos para a avó materna ou para uma tia e depois para um casal amigo da mãe na Anadia.

Nesse dia em que lá o deixou, ela disse-lhe: "Ficas aqui que a mãe tem de ir tratar de umas coisas." "Eu percebi. Via a minha mãe triste", diz Gonçalo.

Mas pensou que seria coisa de poucos dias e, durante meses, esperou que Elisabete o viesse buscar. Do resto, pouco se lembra, pouco fala. E quando o faz, perde o tal brilho no olhar.

Como qualquer criança feliz, teve os seus amigos, a sua bicicleta, as suas festas de Natal, de aniversário. E quando estava tudo bem, os pais levavam-no a passear ao parque ou ao restaurante. Era raro andarem assim despreocupados - só acontecia quando tinham para fumar hoje e amanhã.

Quando vivia com os pais, não havia regras, não havia horas. Levantavam-se sempre tarde. Gonçalo passava manhãs inteiras a olhar para a televisão. "Não tinha miminhos - aquela coisa de me pegarem ao colo e me darem chocolates. Nunca tive isso."

Até aos 15 ou 16 anos, foi um miúdo muito rebelde, teve problemas na escola, faltava às aulas, desrespeitava os professores. Lançava pedras às janelas para se acalmar. "Tinha de fazer porcaria para me sentir bem dentro de mim."

Tem 18 anos, fez um curso de hotelaria, procura um emprego. "O que passou, passou. Tornou-me uma pessoa mais esperta, com os olhos mais abertos para a vida. Na altura, não tinha noção das coisas. Só queria brincar."

Com dois anos, brincava com uma pequena navalha, na mesa da cozinha - dividia e fazia montinhos com farinha como via os pais fazer com os saquinhos de heroína, sempre que chegavam com uma grande quantidade de Lisboa. Traficar era uma forma de sustento.

"Os primeiros seis anos da vida do Gonçalo foram muito maus. Andava de um lado para o outro. Via a mãe doente. Foi negligenciado", conta Elisabete. "Se calhar, eu não o alimentava como se deve alimentar uma criança. Mas nunca passou fome. Quando não tínhamos nada, íamos a casa da avó."

"A cabeça noutro astral"

Era lá que se instalavam quando Elisabete queria ficar limpa antes de iniciar um tratamento. Chegava com o filho a casa da mãe dela, a ressacar e fingia uma grande gripe. Tomava analgésicos, passava o dia a dormir, com dores no corpo, vómitos, tremores.

O filho passava os dias praticamente sozinho. "Ele chamava, eu até respondia, às vezes até conseguia ir lá, mas a atenção que ele precisava não lha conseguia dar. O Gonçalo queria falar comigo e eu tinha a minha cabeça noutro astral", lembra Elisabete.

Conseguiu finalmente tratar-se, quando Gonçalo já estava na escola primária e Lourenço nasceu - ambos viviam em casa da avó desde a última recaída de Elisabete. Quando saiu da última cura, voltou para recuperá-los.

No dia em que Gonçalo fez 16 anos, Elisabete escreveu-lhe uma carta: "Eu sei que te fiz sofrer muito, desculpa, não posso fazer o tempo voltar atrás. Andei uma data de tempo a lutar para compensar aquilo que fiz. [O ter andado seis anos a não ser mãe dele.] Agora pára de me culpar. A minha factura está paga."

Mas ainda sente uma dor enorme. "Aquilo que me dói é saber que quando tive de decidir - ou tenho o Gonçalo comigo ou continuo a usar drogas - escolhi continuar a usar drogas. Aquilo passa à frente de tudo, durante um tempo passou à frente do meu filho. E isso dói-me imenso."

Muitas vezes se questionou se para os meninos, como Gonçalo, é melhor ficarem com os pais toxicodependentes ou se devem ser entregues a outra pessoa, livre das drogas, mas longe da mãe e do pai. ("Durante muito tempo, pensei que o Gonçalo estava melhor comigo e sempre o quis comigo, apesar das dificuldades", diz Elisabete.) Mas nunca chegou a nenhuma conclusão.

Abstinência à nascença

Na vida de Elisabete, a droga passou durante muito tempo à frente de Gonçalo mas, no final, ele e o irmão ainda bebé foram uma das motivações para a cura. Queria recuperá-los e conseguiu. Mas nem sempre é assim. Tratar os pais à custa dos filhos pode ser um risco, dizem os psicólogos. As unidades de saúde de toxicodependentes, da rede do IDT, centradas no tratamento, tendem por sua vez a pensar que uma denúncia de potenciais riscos para a criança pode levar à sua retirada da casa dos pais e que isso quebra a confiança com o doente e será prejudicial para a cura.

A decisão de os manter com os pais, por outro lado, também o pode ser para os filhos - prejudicial ou mesmo fatal. É nisso que se centram as comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ), nos concelhos, em ligação à Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco (CNPCJR).

Quando é aberto um processo, estes casos são incluídos nas categorias de "negligência" ou "exposição a modelos de comportamento desviante" não havendo dados exclusivos de sinalizações e acompanhamento de crianças na condição específica de filhos de pais toxicodependentes.

O alerta é dado logo à nascença quando a mãe foi consumidora durante a gravidez. O bebé nasce com a síndrome de abstinência, dependente da heroína. "Nascem e fazem a ressaca a frio. Fisicamente, têm tremores, diarreias. Alguns dão saltos dos pasmos de privação. Emocionalmente, é logo uma angústia enorme", diz Conceição Tavares de Almeida, autora de vários artigos sobre o tema - Filhos de peixe... O medo e o mar. Os filhos dos toxicodependentes ou o trabalho com crianças em riscoou Só o Super-Homem é que não chora... Acompanhamento a crianças filhas de toxicodependentes no Centro de Atendimento a Toxicodependentes (CAT) de Oeiras.

O vazio nos desenhos

No início da sua carreira, quando foi colocada pelo IDT como psicóloga do CAT de Oeiras, impressionou-a a presença das crianças nas consultas com os pais. (Criou um espaço para elas também serem seguidas, primeiro em Oeiras, depois na Parede. A iniciativa lentamente se estendeu a alguns CAT no país.) Deu às crianças folhas brancas para preencherem com desenhos e eles respondiam-lhe com o vazio.

"Impressionou-me o vazio, o branco das folhas. Retratando-se [a eles próprios] muitas vezes se excluem do desenho", diz a investigadora. "Num desenho de família, é muito um sinal de não terem lugar, de sentirem que estão a mais ou que estão como cuidadores."

E completa: "Quando há preto e vermelho, é melhor sinal do que o vazio. O vazio representa muito o desamparo."

Os primeiros desenhos de crianças têm habitualmente um contorno fechado. Nos filhos de toxicodependentes, esse contorno nem sempre se fecha. Os círculos por fechar "são símbolos abortivos", diz. E os desenhos, como "retrato do mundo interno da criança, um acesso ao seu universo e ao seu mundo fantasmático", são reveladores do seu estado de espírito.

Perigo e protecção

A Comissão de Protecção de Crianças e Jovens em Risco (CNPCJR) rege-se pela defesa do superior interesse da criança, previsto pela Lei de Protecção de Crianças e Jovens de 1999.

E em caso de perigo para a criança, resultante de uma situação de alcoolismo ou toxicodependência, o acordo habitualmente assinado entre a comissão e os pais, para a criança permanecer com a família, estabelece que tem de haver submissão a tratamento.

"Podemos ser sensíveis aos pais, à sua história de vida, às suas dificuldades, mas a lei defende o interesse superior da criança e que esse está acima de outros", explica Esmeralda Ferreira, presidente da CPCJ de Cascais. "É isso que tentamos fazer", sendo a criança retirada quando está gravemente negligenciada.

Não havendo números específicos de crianças em risco por serem filhos de toxicodependentes, também não o há de crianças retiradas à família por essas razões, ou colocadas sob a guarda de outros familiares ou, situação mais extrema, levadas para uma instituição.

Mas esta responsável sabe que nenhuma destas três situações se sobrepõe a outra. Não é assente em números mas é um facto: há tantas crianças a ficarem com os pais, como com outros familiares ou a serem institucionalizadas, diz.

Encontrar um equilíbrio entre dois opostos - o afastamento dos pais para proteger a criança e a importância para os filhos de estarem juntos dos pais - é, muitas vezes, difícil.

A CNCJR não dispõe de dados sobre morte de crianças em família de toxicodependentes por negligência ou maus tratos - essa informação passa para o Instituto de Medicina Legal.

Em Dezembro passado, um menino de dois anos, filho de mãe toxicodependente, morreu depois de ingerir um frasco de metadona, noticiou o Correio da Manhã. Mas raramente esses casos vêm a público. Não são expressivos. Mas existem e terão existido ainda mais quando não havia acompanhamento das crianças nestas situações.

Com o boomdo consumo nos anos 1970 e 1980, a prioridade foi durante muito tempo encontrar respostas de tratamento para pessoas como Orlando.

Um assunto encerrado

Naquela tarde, depois de sair do café, Orlando sentiu-se fraco. Mesmo assim, mecanicamente, quase sem pensar, fez o que sempre fazia. Meteu-se no carro e, enquanto atravessava a ponte em direcção a Lisboa, olhou distraidamente o movimento no porto, os barcos no rio, a luz sobre a cidade branca. Ao chegar ao destino, pela primeira vez, viu a degradação a que ele próprio tinha chegado. Lembrou-se da primeira noite. A primeira de todas.

Era uma sexta-feira e estava com o Henrique e o Mário. Este último é o único dos três a poder hoje reconstituir essa noite em que um tipo lhes deu a experimentar uma coisa nova. "Não me esqueço. Foi uma noite." Podiam ter ido beber um copo. Mas não. "Fui ter com ela", diz Mário.

Se fosse mulher, teria caído nos seus braços - naquela noite em que por acaso a encontrou. "Fui ter com a heroína." Se fosse um corpo, tê-lo-ia despido, tão tranquilizante era a sensação. "Quanto mais se tem, mais se consome. E quanto mais se consome, mais se precisa."

Quando deu por si, estava a ir lá todos os dias: ao outro lado da ponte, comprar. Como Orlando e Henrique. Mas já não andava sempre com eles. Continuavam a ser como uma família, mas uma família distante. "Um toxicodependente anda sempre sozinho."

Dos três, é ele quem pode contar como tudo aconteceu. O corpo frágil de Orlando não resistiu. E Henrique suicidou-se num hotel da Costa de Caparica. Mário perdeu os dois amigos. Mas no grupo alargado de amigos, dos sete que tinham entrado na heroína, quatro recuperaram. Um nunca se libertou.

Mário, ele próprio, várias vezes tentou curas e várias vezes recaiu. Deixou a droga há 17 anos. "É um assunto encerrado." Mas a sua vida continua a ser "como um comboio muito comprido".

Com ele, o sofrimento chega sempre por antecipação. "É inato e corrói uma pessoa." Mas teve a sorte de encontrar Rute, sua mulher, que desde a primeira hora confiou nele.

Tem 40 anos e um filho de onze. O principal para ele: "Não quero que o meu filho seja como eu fui. Tenho muito medo de falhar com ele. Não quero transmitir-lhe as minhas angústias." Porque é assim mesmo: "Nós ficamos dentro da droga por termos muitos medos e angústias dentro de nós."

Volta a dizer, tocando com a mão no peito, que a heroína é um assunto "fechado à chave". Por ele e pelo filho. "A pessoa viciada em heroína fica adormecida de sentimentos. E a ressacar, é capaz de maltratar uma criança. Eu próprio acho que não suportaria infligir esse sofrimento. Não estou a dizer que não o faria. Não posso nem quero julgar os pais que o fazem. Mas, se o fizesse, a dor seria ainda maior."

A última tarde no café

Naquela tarde, a última em que o viram no café, Orlando chegou a atravessar a ponte, a olhar daquela forma ausente para o rio. Dentro dele, revivia os dois últimos anos da sua vida. E lembrava-se do que Mário uma vez lhe tinha dito: "Um toxicodependente anda sempre sozinho." Sentia-se indisposto, mas chegou ao destino e voltou para casa. Sentado debaixo da luz de canto do seu quarto, injectou-se sem saber que seria a última vez.

(Os nomes dos ex-toxicodependentes e seus filhos citados nesta reportagem são fictícios)

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