Passo em falso no acordo grego, passo em frente rumo à bancarrota

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Reunião entre líderes gregos foi inconclusiva Foto: Aris Messinis/AFP

Mais de cinco horas de reunião, neste domingo, entre o primeiro-ministro, Lucas Papademos, e os líderes dos três partidos que apoiam o seu governo “tecnocrático” - George Papandreou (socialista), Antonis Samaras (conservador) e George Karatzaferis (extrema-direita) - não foram suficientes para ultrapassar as profundas divergências que os separam sobre o novo programa de ajustamento económico e financeiro que terá de ser adoptado, e cumprido, em troca da ajuda. Na véspera, Evangelos Venizelos, ministro das finanças, tinha fixado este domingo como o limite máximo para a conclusão das negociações, que se arrastam desde o início do ano e que, segundo afirmou, estão “no fio da navalha”.

Apesar disso, o primeiro-ministro anunciou ao princípio da noite que as negociações serão retomadas na segunda-feira. Num curto comunicado, o gabinete de Papademos informou, segundo as agências noticiosas, que foi possível concluir um acordo sobre o quadro das negociações e sobre algumas medidas destinadas a permitir uma redução das despesas públicas este ano, de 1,5 % do PIB (3300 milhões de euros), redução dos custos de produção para relançar a competitividade, formas de assegurar a sustentabilidade do sistema de pensões e um programa de recapitalização dos bancos.

Os dois partidos de direita, sobretudo, continuam a recusar terminantemente as exigências de redução dos salários do sector privado exigidos pela troika para melhorar a competitividade. A proximidade das eleições legislativas previstas para o início de Abril é vista nas outras capitais como a principal razão da hostilidade dos dois partidos a um novo aperto da austeridade no quarto ano seguido de recessão económica.

A troika “está a pedir mais recessão do que este país pode aguentar. Vou lutar por todos os meios para o evitar”, afirmou Samaras à saída da reunião. Na mesma linha, Karatzaferis disse que não quer contribuir para a “explosão de uma revolução”. Na véspera, no entanto, os ministros das finanças da zona euro, que abordaram a crise grega por teleconferência, explicaram de forma clara a Venizelos que não haverá ajuda sem um compromisso claro dos três partidos sobre metas precisas de consolidação orçamental e de reformas estruturais. A ser assim, o país chegará a 20 de Março sem meios para refinanciar 14.500 milhões de euros de dívida, entrando em incumprimento (default).

O problema é que os governos europeus enfrentam cada vez maiores dificuldades para explicar às respectivas opiniões públicas a concessão de uma nova ajuda a Atenas, depois da falta de resultados associados a um primeiro pacote de 110 mil milhões concedido em Maio de 2010. “A Grécia está à beira da cessação de pagamentos, mas os políticos gregos não querem saber, estão convencidos de que a zona euro não os deixará cair”, lamentou um diplomata europeu. Só que, frisou, depois de várias ameaças da zona euro, desta vez “o risco de incumprimento é bem real”.

O receio nas capitais europeias é que o impasse nas negociações leve Papademos a demitir-se por falta de apoio dos partidos do seu governo, mergulhando o país no caos. Os três partidos reuniram-se neste domingo à noite com as respectivas estruturas dirigentes para analisar as medidas objecto da negociação, estando obrigados, segundo o porta-voz dos socialistas, a apresentar a sua posição nesta segunda-feira de manhã. Papademos iniciou por seu lado uma nova reunião com os representantes da troika. De manhã, o primeiro-ministro já se tinha reunido com os representante dos credores privados de Atenas para ultimar as negociações sobre um perdão da dívida pública de 100 mil milhões de euros: esta redução “voluntária” da dívida grega é uma das condições centrais impostas pela troika para a concessão da nova ajuda.

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