Economia

Afinal é o crescimento no curto prazo o que preocupa os mercados

Para o FMI, liderado por Christine Lagarde, o estudo mostra uma "implicação desagradável"
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Para o FMI, liderado por Christine Lagarde, o estudo mostra uma "implicação desagradável" Foto: Aly Song/Reuters

O Governo português, pela voz de Pedro Passos Coelho, reafirmou que está disposto a fazer tudo o que for preciso, "custe o que custar", para cumprir os objectivos de redução do défice público assumidos junto da troika. Mas afinal, mostra um estudo recente do Fundo Monetário Internacional (FMI), os mercados - aos quais Portugal e os outros países que recorreram à ajuda externa querem regressar rapidamente - parecem estar mais preocupados com a evolução da situação económica dos países da zona euro no curto prazo e menos com os sinais que estes possam dar de que serão capazes de reduzir o défice público rapidamente e crescer apenas no longo prazo.

O estudo - IMF Fiscal Monitor- foi publicado no final do mês passado em simultâneo com o aviso do Fundo para que a Europa não exagerasse na austeridade e analisa as reacções dos investidores dos mercados de dívida pública a uma série de indicadores económicos de países da zona euro até ao final do ano de 2011. Os economistas do FMi verificaram de que forma é que os credit default swaps(CDS - seguros contra o risco de incumprimento) da dívida pública dos países da zona euro eram afectados por indicadores como o défice público primário (sem juros), a dívida pública, o crescimento económico de curto prazo e as expectativas de crescimento de longo prazo.

Os resultados apontaram para o que dois economistas do FMI - Carlo Cottarelli e Laura Jaramillo - classificam como "implicação desagradável": a preocupação excessiva dos mercados com a forma como as economias reagem no curto prazo.

É verdade que, como seria de esperar, países com maiores défices primários acabam por apresentar spreadsmais elevados nos seus CDS. Mas, por outro lado, parece haver uma influência reduzida nos CDS das expectativas para os défices públicos, a sustentabilidade da dívida e o crescimento económico no curto prazo, em contrapartida com um impacto muito significativo do crescimento económico registado no presente.

Isto revela uma potencial falha na estratégia adoptada pelos governos da zona euro e pelo FMI nos países periféricos do euro, com Portugal como um dos exemplos mais evidentes. A ideia dos planos de ajustamento em vigor é a de que, para reconquistar a confiança dos mercados, os países precisam de mostrar sem margem para dúvidas que vão reequilibrar as suas contas públicas. E que a forma de o fazer é reduzir o défice público o mais rapidamente possível, mesmo que isso custe uma contracção ainda mais acentuada da economia no curto prazo. Apenas depois de reconquistada a confiança e com as contas públicas em ordem, o crescimento voltará.

O problema é que, como afirma o relatório do FMI, "um maior aperto orçamental durante uma queda da economia pode exacerbar, em vez de aliviar, as tensões dos mercados através do seu impacto negativo no crescimento". E assim, sem recuperar a confiança dos mercados, os passos seguintes - orçamento equilibrado, redução da dívida pública e crescimento económico de longo prazo - ficam também ameaçados.

Alerta contra a austeridade

"O facto de os mercados se focarem em 2011 nos desenvolvimentos de curto prazo pode reflectir a existência de uma forte aversão ao risco depois de quatro anos de convulsão nos mercados. A implicação desagradável deste enfoque no curto prazo é que um aperto da política orçamental pode aumentar, em vez de reduzir, os spreads, se for acompanhada por um declínio do PIB em relação ao cenário previsto", afirmam Carlo Cottarelli e Laura Jaramillo, numa nota feita a propósito dos resultados apresentados no IMF Fiscal Monitor.

A esperança dos economistas do FMI é a de que este tipo de reacção dos mercados seja apenas temporária. De qualquer forma, tem sido notória a mudança de discurso dos responsáveis máximos da entidade sedeada em Washington, alertando para os riscos de políticas excessivas de austeridade.

Para já, no caso português, não é preciso muito para perceber que os mercados não estão particularmente impressionados com as avaliações positivas que têm sido feitas pela Comissão Europeia e pelo FMI à forma como o programa de ajustamento está a ser aplicado. Apenas as taxas de juro da dívida pública de curto prazo registaram descidas recentemente, mantendo-se ainda assim a níveis muito mais elevados do que os registados antes da crise.

As taxas de juro da dívida pública a prazos mais elevados - a partir dos três anos - continuaram a crescer e estão, apesar de uma correcção na última semana, perto de máximos históricos.

No actual cenário, o programado regresso de Portugal ao financiamento por via dos mercados em 2013 parece para já improvável.