Procurar o prazer nos lugares de boémia

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O Savoy Club, no Harlem dos anos 1920, teve um papel crucial na integração racial Bettmann/CORBIS/vmi

Esta é a história dos mais importantes clubes e discotecas do mundo. Quem reina? O DJ ou o porteiro? Segregação racial, fama, gangsters, ideologia e hedonismo, do jazz ao electroclash, dos anos 1920 ao século XXI. Os clubes são cultura.

Uma boa conversa opera possibilidades criativas, dizia o artista e diletante Andy Warhol, que percebia do assunto. Sócrates, o filósofo estruturador da cultura ocidental, não fez outra coisa. Mas uma boa conversa não chega. Todos os lugares que ficaram na história projectaram, na sua época, um ideal de lazer e produção cultural, associado à sociabilização, através do consumo do prazer. Por isso, a maior parte ganhou conotações simbólicas. Converteram-se em ícones do seu tempo.

Ao longo da história, alguns clubes nocturnos funcionaram mesmo como incubadoras de ideias que transformaram o mundo - impulsionaram a cultura. Entre as paredes desses espaços, pessoas, conceitos, estéticas, músicas, moda e arte dialogaram ou colidiram, forçando novas dinâmicas, criando novas possibilidades utópicas, participando num fluxo, precisamente, cultural. Noite após noite.

Às vezes, o brilho e a superficialidade andarama par. Na maior parte das vezes, o valor da experiência não estava nos locais, mas na disposição perante a realidade de quem viveu esses locais.

Por que é que somos impelidos para esses lugares? Cada um terá a sua narrativa. Para escapar ao mundano. Para procurarmos novas experiências sociais, e sensuais também. Para idealizarmos uma visão diferente da vida urbana. A história de cada um destes espaços é também a crónica de uma aragem de prazer social, soprada num determinado contexto. Lá fora, na escuridão da aceitação cultural, reside um universo de partilha do hedonismo, que questionou as normas sociais vigentes de um tempo.

Talvez isso suceda porque o mundo ocidental tem uma perspectiva confusa do prazer. A maior parte das vezes é percebido como qualquer coisa de frívolo. Não espanta que os espaços de prazer tenham de ser perseverantes perante o estabelecido, de contrário as regras são simples: todos podemos divertir-nos, mas apenas a partir de limites bem precisos.

I/Se definirmos um clube nocturno como um lugar onde pessoas se encontram, sociabilizam e dançam enquanto ouvem música, é difícil perceber onde e quando tudo terá começado. Sítios desses existem praticamente desde o berço da cultura humana. Os deuses gregos certamente saberiam uma ou duas coisas sobre a importância do escapismo.

O que se pode dizer é que a cultura dos clubes tem a sua génese nos anos 1920, embora antes tivessem existido espaços significativos como o londrino The Cave Of The Golden Calf, que abriu em 1912 pela mão de Frida Strindberg, mulher do dramaturgo August Strindberg, conquistando artistas, intelectuais e figuras da sociedade da época, atraídos pela decoração futurista.

Depois do regresso dos militares da I Guerra Mundial, os clubes tornaram-se muito populares. Nos anos 1920, Paris ficou conhecida pelos espectáculos de cabaret, com o Moulin Rouge em destaque, através de coreografias lascivas e bailarinas com pouca roupa. Apesar da depressão económica, associada ao crime, vestir bem e sair à noite tornou-se num estilo de vida, principalmente, para milhões de americanos. Os clubes nocturnos que inicialmente promoveram formas populares de música, como o jazz e o ragtime, transformaram-se em plataforma de descoberta de novos talentos.

Foi isso que aconteceu no The Cotton Club, em Nova Iorque, fundado em 1923, durante a Lei Seca. O clube original tinha uma política de entrada reservada a brancos. Apenas os músicos negros, a maioria, podiam frequentá-lo. Mas, apesar da segregação, o espaço acabou por ser bem sucedido na promoção de alguns dos maiores talentos negros, entre eles Duke Ellington e a sua orquestra, a banda da casa.

A Lei Seca, que durou entre 1920 e 1933 e que pretendia diminuir a degradação social e o número de crimes relacionados com a ingestão de bebidas, contribuiu para que inúmeros clubes legais fechassem as suas portas. Mas, em simultâneo, muitos outros espaços ilegais (os chamados speakeasies) deram à costa, permitindo a obtenção clandestina de álcool.

A meio dos anos 1920 havia, só em Nova Iorque, mais de 100 mil speakeasies (em caves, escritórios ou casas privadas), autênticas tocas de álcool e jazz, mas diferentes dos clubes pré-Lei Seca. As mulheres podiam entrar e ricos e pobres, actores e actrizes, gangsters e gente honesta, misturavam-se nesses locais, muitos deles dominados pelo crime organizado.

Em 1929, com o crash da Bolsa de Wall Street e a consequente Grande Depressão dos anos 1930, apenas um sítio parecia imune a todas as crises - Hollywood. O negócio do cinema não parava e cada vez mais filmes apresentavam nos seus cenários luxuriantes clubes nocturnos, com actuações de big bands de jazz e combos de swing, que dominaram o entretenimento nos anos 1930.

Era o que acontecia no The Coconut Groove, que abriu em 1921, atraindo a alta sociedade, ou no Plantation Cafe, desenhado pelo homem-forte do departamento de arte dos estúdios MGM, reiterando a influência do cinema na época. Buster Keaton, Charlie Chaplin ou Mary Pickford são alguns dos que estiveram na abertura em 1928. Na mesma linha situava-se o The Trocadero, conhecido pelas audições abertas aos domingos, onde haveria de ser descoberta Judy Garland, então com 14 anos.

Mas, afinal, não era apenas Hollywood que parecia não sofrer as consequências da crise. Em alguns lugares de Nova Iorque, como no The Stork Club, acontecia o mesmo. Era aí que Sherman Billingsley mudaria a face dos clubes para sempre, sendo o principal catalisador da cultura das celebridades da época. No Stork, as bebidas, pelo menos para alguns famosos, eram sempre por conta da casa, o que iria fazer escola nas décadas seguintes. Alguns clubes rivais podiam ser mais sofisticados, como o El Morocco, mas o Stork tinha o poder, o dinheiro, o glamour e Hemingway, Marilyn Monroe, Bing Crosby, Chaplin, Elizabeth Taylor ou J. Edgar Hoover.

Estávamos em plena Grande Depressão, mas ironicamente foi uma das décadas mais glamorosas da América. Décadas antes de Paris Hilton, já figuras da alta sociedade como Gloria Vanderbilt - a filha, nos seus "vintes", do magnata dos caminhos-de-ferro, Reginald Vanderbilt - se passeava quase todas as noites no seu Cadillac, rodeada pelos amigos e perante a adoração de todos. E o motivo? Tal como no caso de Paris Hilton, fama pela fama, apenas porque era rica, bonita e cortejável.

A única nuvem que pairou sobre o Stork aconteceu quando a bailarina negra Josephine Baker, convidada para uma festa, se queixou de racismo depois de ter esperado mais de uma hora por um bife. Reza a lenda que a actriz e futura princesa Grace Kelly, indignada com a situação, lhe terá pegado pelo braço e, juntas, saíram ruidosamente porta fora. Essa história terá caído no esquecimento, mas já depois de 1931, quando o local esteve encerrado pela primeira vez, surgiram acusações de anti-semitismo e Billingsley começou a ser um assunto incómodo, sendo progressivamente esquecido pelos que o haviam enaltecido.

O Stork foi também o primeiro clube a ser reconhecido pelo seu porteiro, o capitão Saint Peter, que assegurava que as celebridades não eram, digamos assim, incomodadas pelas pessoas comuns. Algumas dessas pessoas vulgares, segregadas de locais como o Stork, iriam divertir-se no The Savoy Ballroom, no Harlem, aberto em 1926, e que iria ficar conhecido pelo seu papel no desenvolvimento do jazz na era do swing.

O clube introduziu o swing e estilos de dança jive, como o Lindy Hop, na consciência americana. Numa altura de grande tensão racial, o Savoy oferecia um ambiente de integração novo, onde pessoas das mais diversas cores e origens eram convidadas a misturarem-se. Essa atitude não discriminatória acabou por traduzir-se numa fama e notoriedade global e numa pista de dança completamente cheia ao som de Chick Webb ou Fess Williams.

Era tal a pressão a que a pista de dança era submetida, com noites intensas de dança, que tinha de ser substituída de dois em dois anos. O clube acabou por encerrar em 1958, mas ainda hoje é recordado, existindo inclusive uma placa (na Lenox Avenue) que assinala o seu papel crucial na integração racial e no entretenimento desse período.

II/Nos anos 1940, enquanto as bombas da II Guerra caíam na Europa, os americanos frequentavam os clubes nocturnos em número recorde. Parte significativa dos proprietários dos espaços estava envolvida nas mais diversas actividades criminosas, mas ironicamente insistiam que os performers - em especial, os actores - respeitassem os códigos de moralidade. Era o caso do The Colony Room, um clube no sentido arcaico do termo, apenas para convidados ou para indivíduos que se movimentavam perto dos círculos de poder.

Diferente era Las Vegas, no estado do Nevada, uma cidade no meio do nada que rapidamente se iria transformar na capital nocturna da América e do mundo. O lendário Rat Pack (Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Peter Lawford) era uma enorme atracção na época, mas a principal motivação para a deslocação era o jogo.

No centro de tudo estava o The Flamingo, o enorme complexo de entretenimento sonhado por William R. Wilkerson. Mais do que um simples casino, era também um hotel luxuoso, com campos de ténis, ginásios, centro comercial e clubes nocturnos. O desejo de Wilkerson era não só criar um espaço de hedonismo ímpar, como também retirar proventos económicos pela escala inusitada do empreendimento.

Muitos duvidaram de que conseguisse, mas, depois de muitos problemas com investidores, obteve em 1945 a ajuda de Benjamin (Bugsy) Siegel, que se interessara pelo projecto. A união com o gangster conheceu inúmeros problemas, mas um ano depois o empreendimento era inaugurado com reacções muito frias por parte da imprensa e da opinião pública. Mas, apóso arranque titubeante, viria a conhecer enorme sucesso - com Elvis ou as Supremes a actuarem - e ainda hoje se mantém activo.

Com a chegada dos anos 1950, emerge um tipo diferente de consumidor dos espaços nocturnos - os adolescentes -, embora se tenha mantido, em larga escala, a tendência para um tipo de entretenimento sofisticado, com decorações tropicais, big bands de jazz e um ambiente de glamour decadente, pelo menos em espaços como o Mocambo e Copacabana.

Este último abriu em 1940, em Nova Iorque, tendo sido imortalizado por uma canção homónima de Barry Manilow. O empresário Monte Proser era o espírito criativo do icónico lugar, mas ele tinha outro rosto - o do conhecido gangster Frank Costello, que na retaguarda acabaria por se tornar no seu proprietário não-oficial.

Foi este último que impôs uma política restritiva de não entrada a negros no Copacabana. Em 1994, Harry Belafonte foi banido do espaço por ser afro-americano, apesar de ser um dos cantores mais conhecidos da época. Anos mais tarde, em 1950, depois de uma mudança de política, voltaria ao clube, desta vez já como cabeça de cartaz. Em 1965, Diana Ross e as Supremes estrearam-se no Copacabana, o mesmo acontecendo com outros nomes de peso dos anos 1960 como Marvin Gaye ou os Temptations, ou Dean Martin e Jerry Lewis, como duo, sintoma evidente de que naquele espaço só actuavam nomes firmados desse período.

Os paradigmas da cultura pop, tal como a identificamos hoje, emergiram nos anos 1950, num período em que o Ocidente gozava de prosperidade, mas foi nos anos 1960 que se disseminaram por completo. Hordas de adolescentes pertencentes às mais diversas subculturas, mods, rockers, teds, mostravam que a realidade se havia fragmentado, dando agora lugar a mais clubes, por norma mais pequenos.

Os Beatles estreavam-se em Liverpool, no The Cavern, em 1961, e em poucas semanas tiveram de ser criados bilhetes pré-comprados para conter o número excessivo de clientes. Mas esse facto, em vez de conter os interessados, fez despertar ainda mais as atenções, naquela que passou a ser uma lógica assumida por muitos clubes ingleses e não só - quanto mais longa for a fila à porta, maior o interesse.

Enquanto isso acontecia, nos Estados Unidos, mais exactamente em São Francisco, epicentro da revolução hippie, abria em 1967 o Summer Of Love, referência directa à mistura de música, drogas psicadélicas, liberdade sexual e expressão política que irrompera no mesmo ano. E quase na mesma altura, em Londres, abre o UFO, o primeiro clube psicadélico britânico, fundado pelo fotógrafo John "Hoppy" Hopkins e pelo produtor Joe Boyd, que se viria a revelar um sucesso instantâneo, com os seus happenings de dança, filmes experimentais e shows de luzes psicadélicas. Os Pink Floyd, Soft Machine ou a Incredible String Band foram alguns dos grupos actuaram no UFO, com o radialista John Peel como DJ residente.

Mas isso era em Londres. Nas cidades do Norte de Inglaterra, começava um movimento completamente diferente, construído à volta de um som sujo e de raridades soul, a chamada Northern Soul. Em vez de passarem música das editoras de música soul consolidadas (Motown, Atlantic ou Stax), os DJ preferiam apostar em sonoridades de editoras pouco ou nada conhecidas de Chicago ou Filadélfia. Era isso que acontecia no Wigan Casino que, entre 1973 e 1981, se haveria de transformar numa autêntica catedral do Northern Soul. O clube atraía gente de toda a Inglaterra, em grande parte pelas sessões dançantes enérgicas, providenciadas por nomes como Edwin Starr ou Jackie Wilson. Depois de inúmeros problemas relacionados com consumo de drogas, as autoridades acabaram por encerrá-lo em 1981.

III/Os anos 1970 serão para sempre associados a duas subculturas diferenciadas - o punk e o disco. Certamente que o primeiro foi, de uma forma mais óbvia, uma manifestação de raiva e desilusão, mas o disco teve um efeito mais profundo na cena dos clubes. O disco foi, sabemo-lo hoje, enquanto tipologia musical, um fenómeno social ou pauta que reflectiu, ampliou ou antecipou comportamentos e constituiu um dos momentos mais diversos, complexos e ricos da história da cultura popular.

Na década de 1950, as expressões juvenis não eram motivadas por considerações políticas, mas sim pelo desejo de maior liberdade e autodeterminação. O que interessava era a existência pessoal, a vida privada. Nos anos 1960, esse impulso de rebelião era construído em torno das restrições de uma sociedade a necessitar de reformas urgentes. Os filhos de Marx não queriam mudar apenas o seu mundo. Queriam mudar também o mundo à sua volta.

Quando as utopias da década de 1960 começaram a dar os primeiros sinais de exaustão, pensou-se que a cultura pop tinha chegado ao fim. Mas, afinal, o seu futuro começava a germinar nos pequenos e sombrios clubes nocturnos gay de Nova Iorque. Enquanto os discursos dos anos 1960 andavam à volta de ruidosos e dramáticos "Não", a cultura disco largava um eufórico "Sim". Aparentemente, o carácter rebelde desaparecia e o que interessava era parecer bem, dançar melhor e passar um bom bocado.

Não havia uma atitude agressiva em relação ao resto do mundo, tentava-se ignorá-lo e construir um universo próprio. Os agentes do disco ignoravam Deus, o Estado, o trabalho e a família, mas, ao contrário do punk, não estavam interessados em atitudes niilistas - queriam apenas criar o seu espaço de felicidade.

Em clubes, ou garagens transformadas em clubes, minorias sexuais e raciais construíam o seu próprio universo, sem reagirem directamente ao mundo exterior hostil. "Era um fenómeno das "margens" de duas formas: porque havia um afastamento deliberado do resto do mundo e porque os seus agentes eram realmente discriminados pelo resto do mundo", disse o ensaísta Greil Marcus.

A designação "disco" é a abreviatura do francês "discothéque". Durante a ocupação de Paris pelos nazis na II Guerra Mundial, as orquestras de jazz foram expulsas dos clubes nocturnos e substituídas por sistemas de som e gira-discos. Com o final da guerra, alguns clubes optaram definitivamente por esse formato e, no final dos anos 1950, existiam discotecas por toda a França, embora o conceito tenha conhecido maior expressão nos Estados Unidos através do twist, o primeiro género musical dançante de sucesso. O mundo dos famosos achava-o desprezível, mas quando Jean Cocteau ou Lauren Bacall foram vistos a dançar o twist algo mudou e sair à noite para rodopiar ao som de gira-discos começou a ser bem visto.

Depois do twist, a música de dança quase desapareceu. Nos anos 1960, os hippies preferiam a folk e o rock e apenas uma minoria negra se interessava por James Brown, Sly Stone ou Isaac Hayes. No final da década, as movimentações mais excitantes já não estavam nos clubes elegantes de Manhattan, mas sim em pequenas festas de clubes pouco conhecidos, como o Salvation e Sanctuary, que acolhiam gays, negros e latinos.

Na alvorada dos anos 1970, surgiam espaços como o The Gallery, onde evoluía o DJ Nick Siano, ou o The Loft de David Mancuso. Este último promovia festas semanais no seu apartamento (um loft) na Broadway, inicialmente apenas para amigos. Mas a aglomeração de pessoas à porta começou a ser tal que, depois de 1972, as festas tiveram de ser transferidas para um espaço de maior dimensão.

Nos primeiros anos da década de 1970, espaços como o The Loft, representavam para a comunidade gay a oportunidade de expressarem a sua sexualidade longe de olhares hostis. O disco transformava-se na demonstração de que todos os tipos de comportamentos eram possíveis, mesmo não sendo tolerados pela sociedade dominante. Nixon era Presidente e a guerra do Vietname continuava, mas nas caves escuras criavam-se pequenos nichos de liberdade. "A música disco é física, um verdadeiro fórum de corpos em liberdade e o clube de dança a sua zona protectora", descreveu o escritor Truman Capote.

A partir de 1975, aquilo que até aí tinha estado confinado às minorias transforma-se em cultura popular de massas. Em parte, graças ao estabelecimento de uma nova dança, o hustle, uma espécie de versão acelerada do swing dos anos 1940. O hustle e os rituais a ela associados foram descritos por Nick Cohn no artigo Another Saturday Night para a New York Magazine, acabando por inspirar o filme Febre de Sábado à Noite. Através dele, o americano médio, e o resto do mundo, entravam em contacto com um fenómeno até aí confinado às minorias. A pista de dança abria-se, minorias e maiorias encontravam-se e as diferenças eram, aparentemente, abolidas.

Ao longo da década, foram espaços como o The Loft ou The Gallery que promoveram a paixão pela música disco, mas aquele o mais conhecido é o Studio 54, situado no número 254 da Rua 54, bem no coração de Manhattan. Entre os clientes habituais, Truman Capote, Andy Warhol, Jerry Hall e Mick Jagger, Jacqueline Bisset, Diana Ross, Calvin Klein, Liza Minelli ou Grace Jones. Tal como havia sucedido na época do twist, com o Studio 54, sair à noite tornou-se num verdadeiro acontecimento social.

A partir de 1977, os famosos e poderosos encontravam-se com as franjas da sociedade numa aparente e saudável promiscuidade. Para Truman Capote, o Studio 54 representava a democracia em termos absolutos: "Rapazes com rapazes, raparigas com raparigas, raparigas com rapazes, brancos com negros, capitalistas com marxistas, chineses e tudo o resto numa grande misturada." Mas a mistura democrática era cuidadosamente preparada, para que nenhum grupo social predominasse e todos se sentissem representados. No Studio 54, o DJ e a música não eram reis. Quem mandava verdadeiramente era o porteiro.

Propriedade de Ian Schrager e Steve Rubell, o local abriu com pompa e circunstância a 26 de Abril de 1977. Havia três requisitos para entrar: ser famoso, escandaloso ou belo. O resto dos mortais podia passar horas a fio em filas intermináveis, o que, diga-se, acabava por dar mais fama ao local. Transposta a porta, descobria-se luxo e extravagância, uma autêntica catedral de néon e cristal, composta por 1800 metros quadrados de pista de dança bombardeados por quatro efeitos de luzes diferentes.

A festa orgíaca e luxuriante durou até 14 de Dezembro de 1978, dia em que o espaço foi invadido por agentes federais. O livro de contas foi requisitado e descobriram-se fugas ao fisco e cheques de contas paralelas. Rubell e Shrager foram presos e o espaço encerrou a 1 de Fevereiro de 1980. Nesse dia houve festa. Chamava-se "Going-Away-To-Prison!".

O filme com Travolta ou o Studio 54 reflectiam a aura cintilante do disco e a sua dimensão popular. Mas, como já tinha sucedido no passado, continuavam a existir personagens e espaços que acreditavam noutras formas de estar. Um dos clubes que se mantiveram fiéis a uma política menos dirigida para as massas foi o Paradise Garage. Ali, o que contava era a música e o responsável por isso era o DJ residente, Larry Levan, talvez o mais mítico DJ da história. Tudo no cavernoso espaço estava concebido para se sentir a dimensão física da música - a iluminação ténue, o sistema de som que realçava os graves e o ar condicionado que era regulado consoante a música.

Em 1980, a febre disco vacilava, a América conservadora de Reagan queria recuperar a sua posição hegemónica no mundo, as rádios voltavam à fórmula rock, a imprensa começava a interessar-se pela sida, mas espaços como o Garage mantiveram acesa a chama do género, prenunciando a música house e toda a cultura de dança que se seguiria.

IV/Entre 1978 e 1982, Nova Iorque foi uma espécie de núcleo de modernidade nas suas diversas expressões artístico-culturais, assentando em três pilares (a cultura disco, o irromper do hip-hop e as ramificações do pós-punk). Vindos de fora, seduzidos pela imagem de tolerância e diversidade da cidade, jovens ligados às artes plásticas, cinema, teatro, dança, escrita ou moda, juntavam-se à volta da música e, muitos deles, formavam bandas, fazendo-se ouvir em espaços como o CBGB ou Mudd Club. O primeiro acabou por ficar intimamente ligado ao percurso de grupos como os Ramones, Talking Heads, Patti Smith ou Television, adquirindo um estatuto quase único até ao seu encerramento no Verão de 2008.

Nos anos 1980, em especial durante as movimentações neo-românticas (Spandau Ballet, Visage, Human League, Duran Duran), Londres teve uma cena de clubes vibrante, com protagonistas como o Blitz, Batcave ou Camden Palace. Foi um período em que a moda teve um papel determinante. Eles maquilhavam-se, elas optavam por fatos de homem, a androginia e a homossexualidade eram celebradas de forma teatralizada, numa lógica quase oposta ao punk dos anos 1970. O responsável pela construção estilizada, e pela selectiva política de porta do The Blitz, era Steve Strange, amigo de David Bowie ou de Brian Ferry, em quem se inspirara. A maior parte dos noctívagos era ex-punk, desiludidos com a sobreexposição do fenómeno, e estudantes de moda e das artes.

A partir do final dos anos 1980 e nas duas décadas seguintes, o fenómeno dos clubes nocturnos associados a diversas expressões musicais pulveriza-se por completo em todo o mundo. O Portugal boémio e artístico descobre o Bairro Alto - Frágil (Lux), Três Pastorinhos, Captain Kirk -, Paris rende-se ao Rex ou ao Pulp e Barcelona ao Nitsa. Expressões musicais como o techno, house, drum & bass ou trance tornam-se dominantes, principalmente com o advento de superclubes como os ingleses Ministry Of Sound, em Londres, e o Cream, em Liverpool, ou o Pacha, em Ibiza, o Tresor, em Berlim, ou o Les Bains Douches, em Paris. A afirmação de todos esses espaços decorreu da explosão, anos antes, do fenómeno acid-house e das raves ao ar livre ou em locais abandonados.

Quando as raves são reprimidas pelas autoridades, nos primeiros anos da década de 1990, os grandes clubes ganham protagonismo. A maior parte inspirou-se no Hacienda, o clube de Manchester dirigido por Tony Wilson da editora Factory e pela banda New Order - talvez o espaço que melhor absorveu essa mistura de música dançante e de consumo de novas drogas, como o ecstasy, tudo num ambiente hedonista com uma série de grupos (Happy Mondays, Stone Roses) a proporcionarem a banda sonora do momento.

Todos os "superclubes" nascidos nos anos 1990 tentaram conjugar negócio e integridade artística. É esse o caso do londrino Fabric, criado em 1999 (e ainda existente) pelo promotor Keith Reilly no Barbican Centre, junto ao mercado de Smithfield num antigo armazém que servia de câmara frigorífica para a carne do mercado.

Mas a grandeza do Fabric - com três pistas de dança - ou do Ministry Of Sound são as excepções que confirmam a regra dos clubes de dimensões mais reduzidas nas décadas de 1990 e dos 2000, como o Trash ou o Nag Nag Nag, associados à vaga electroclash. Surgiram ambos quando a música de dança parecia passar por uma fase de homogeneização. No Nag Nag Nag notava-se que as pessoas tinham investido para ali estar, maquilhando-se e vestindo roupa para além do desportivo ou do cómodo. E não surpreende. A música de dança parecia ter perdido rosto e personalidade e eles foram os primeiros a perceber que a noite tinha de voltar a ser brilhante e delirante, com uma grande dose de libertinagem.

Nos últimos anos, um dos clubes mais notórios é o londrino Boombox, emblema da zona de Shoreditch, na Londres oriental, recente epicentro da música, da moda e da arte. A partir de 2007 essa foi a noite mais badalada da capital inglesa e a sua fama chegou a Paris, Berlim, Nova Iorque ou Tóquio. Inicialmente ligada ao surgimento da indefinida vaga musical neo-rave, personificada por grupos tão diferentes como os ingleses Klaxons ou os franceses Justice, e pelas roupas e maquilhagem fluorescentes, as noites Boombox transformaram-se rapidamente numa instituição dominical.

Se não fosse cliente habitual, ou a cantora Björk, o criador de moda Hedi Slimane, a cantora Kylie Minogue, o fotógrafo Mario Testino ou a modelo Kate Moss, o melhor era ter um estilo distintivo. Uma maquilhagem ou uns sapatos originais também podiam fazer com que passasse o cordão de segurança. Na fila para entrar, a excitação percebia-se na maior parte dos rostos e quando se entrava no espaço percebia-se de imediato o que fazia a fama das noites Boombox - as pessoas. Uma mistura de individualidades de todas as proveniências, que investiram no visual mas sem arrogância. Quem entra dirige-se de imediato à pista. Despem-se casacos e dança-se.

Uma espécie de Carnaval de Veneza, onde cerca de 500 personagens vagueiam e dançam, rapazes andróginos, estudantes de óculos de sol garridos, drag-queens, artistas ou raparigas extramaquilhadas. No final, suor nos rostos, maquilhagens desfeitas e a sensação de experiência que valeu a pena.

Nos anos 1920, ou hoje, a maior parte destes espaços parece carregar consigo a notoriedade, mas também o estigma do elitismo. Como se fossem uma rede de relações estreitas entre grupos de pessoas que se conhecem. Em grande parte, esse foi o seu segredo. Parecerem exclusivos quando são, antes de tudo, espaços de diferenças compatíveis. A grande utopia é essa: criar a sensação de estarmos entre semelhantes, seja lá o que isso for na fantasia de cada um.

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